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Pandemia nos obriga a sepultar os sentimentos

Restrição aos funerais para a prevenção da disseminação da COVID é uma medida tão dura que deixa a gente perto da revolta


22/10/2020 04:00


Só quando as restrições batem em nossos relacionamentos e no amor de família é que sentimos a dureza das novas leis de comportamento criadas pela necessidade de isolamento provocada pela COVID-19. Renitente por natureza, não entendo muito bem algumas restrições que tomaram conta de nossa vida e de nosso comportamento. Como poder ir à praia, mas não tomar banho de sol na areia. Enquanto isso, os clubes abrem suas piscinas e os sócios podem frequentar dentro de certas restrições. Mas tomando o sol que quiserem.

As leis atuais proíbem até reuniões domésticas e fico imaginando que, se você recebe familiares em casa, é porque todos sabem que estão “limpos” da nova praga e que não correm risco ao se reunir. Fico pensando logo no Natal que é realizado em minha casa, todos os anos, e que soma perto de 60 presenças – só da família. Como é que será neste ano? Passo o Dia de Finados em Santa Luzia, indo ao cemitério e ao almoço farto e concorrido na casa da minha prima Beata. Este ano não será possível – e meu sobrinho que vem do Rio pelo mesmo motivo só vai poder aproveitar minha hospedagem. “Neca” de Santa Luzia.

Há duas semanas, passei por um sofrimento que se tornou comum entre as famílias: os falecimentos não podem mais ter despedidas de todos; é preciso restringir as presenças. O velório tem tempo marcado, número de presenças previamente estipulado e estamos resolvidos assim.

Para deixar minha revolta bem explícita, já brinquei que, se eu morrer nesse tempo de pandemia, o que a família deve fazer é cavar uma sepultura em meu jardim e me deixar lá. Acho muito mais digno e mais confortável do que não poder receber as despedidas e homenagens de meus parentes e amigos. É claro que é uma brincadeira sem nenhuma graça, mas o que se sente hoje no falecimento de uma pessoa próxima fica bem perto da revolta, de quebrar essas restrições e esperar para ver se a polícia tem a força de interromper um velório familiar. Só que a maioria das pessoas está tão condicionada pelo medo de adoecer que prefere obedecer cegamente. O que me faz pensar que o terror da COVID faz tanto mal para as pessoas quanto a própria doença.

O que tenho escutado de relações terminadas, de segregação total e irracional, de falta de coragem de chegar até a porta de entrada das casas não está no gibi. E o que tenho visto de restrições que não têm muita base também não consigo entender. O normal, nos dias atuais, é que pessoas que têm que ser hospitalizadas são imediatamente diagnosticadas como portadoras de COVID. São levadas imediatamente para os espaços destinados à pandemia criados em todos os hospitais e ficam lá até que o exame, feito na entrada, dê negativo para a doença. Só que, durante esse tempo de espera, o doente não pode ser visitado pela família – está proibida a entrada em todos os hospitais, o que é outra medida traumatizante, porque todos os doentes querem ter ao lado uma pessoa amiga que os ajude a aguentar a doença.

O raciocínio raso sobre uma doença, que, na realidade, ainda é desconhecida, nivela tudo pelo pior. Então, junto com ela, é bom que todos sepultem não só os mortos da família, mas também seus sentimentos, a dor, o cumprimento das mais antigas homenagens prestadas aos mortos. Até Cristo, quando foi baixado da cruz, recebeu o acompanhamento da mãe e das mulheres que a acompanhavam até o sepulcro. Seus perseguidores abriram mão das restrições, diante da dor de sua morte. Atualmente, essa dor virou caso de restrição policial.

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