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Meu pai, Dr. Chiquito, além de médico tinha a cabeça aberta

Ele clinicava com conhecimento e caridade cristã. Conheci muitos de seus pacientes que falavam dele com agradecimento e amor


08/08/2020 04:00 - atualizado 07/08/2020 20:29

Meu primo muito querido e saudoso Márcio de Castro Silva era fornecedor constante de pequenas lembranças do meu passado. Principalmente em relação a coisas do meu pai, a quem ele admirava na infância, lembrança que o levou a estudar medicina. Pequeno ainda, acompanhava meu pai aqui e ali e guardou lembranças que eu nunca tive porque, quando meu pai morreu, tinha apenas 2 anos. Mas, em compensação, recebi de Márcio não só alguns retratos dele, como também seu diploma de formatura na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, curso completado em 1921.

Ele tinha apenas 34 anos, nascido em junho de 1887. Começa aí minha curiosidade sobre sua vida: como é que um rapaz pobre, nascido em Santa Luzia, foi estudar no Rio de Janeiro? Não sei – nunca me contaram como é que isso foi possível, se bem que isso não seja hoje uma raridade. Tenho dois sobrinhos-netos na mesma situação, morando em São Paulo. A moça é médica e o rapaz montou uma empresa que trabalha com esses programas de computação, dos quais não entendo nada.

Só sei que meu pai, depois de formado, voltou para Santa Luzia, onde clinicou até morrer, em 8 de junho de 1936. Naquela época, médico não tinha especialização, fazia tudo que a medicina podia cobrir, atendia de parto a braços quebrados, de cirurgia a dor de barriga. Na época, médico não media distâncias, viajava de carro – quando podia ter um, a lombo de cavalo. O importante era atender os necessitados. Sorte é que quando clinicava, a cidade já tinha o Hospital São João de Deus, construído pela baronesa de Santa Luzia e inaugurado em 1845, do qual ele foi um dos priores enquanto viveu. Mas a existência do hospital não diminuía as dificuldades da época. Uma delas era atender as irmãs em que viviam em clausura no Convento de Macaúbas, onde só ele, como médico, podia entrar para tratar das doentes. A distância era bem grande, faltavam estradas, o caminho era seguido a duras penas.

E dentro dessa dificuldade ele criou uma figura que não existia na época, a de acompanhante. Minha mãe, sempre curiosa e bem-informada, era sua acompanhante não só nas visitas que fazia a Macaúbas como também em outros casos de pacientes. Aprendeu muito com ele, aprendizado que usou ao longo de sua vida ao criar e educar oito filhos que tiveram durante sua curta vida – ele morreu aos 49 anos. Meu pai clinicava com conhecimento e caridade cristã. Na minha meninice, conheci muitos de seus pacientes, que falavam dele com agradecimento e amor. E tinha, para a época, uma grave moléstia cardíaca.

Além de bom médico, ele tinha também uma cabeça aberta. Construiu para moradia da família uma casa totalmente fora dos padrões coloniais, que durante muitos anos era conhecida como bangalô. Ficava na Rua Direita, tinha varanda em torno, jardins, quintal para horta, quartos, salas e banheiro. E era lá que ficava seu consultório quando não estava no hospital. Outro lance bem curioso é que, a certa altura da vida em comum, ele resolveu presentear minha mãe com uma “baratinha”, aqueles carros antigos, sem capota, que eram o máximo. Ela pegou o carro e se mandou – subiu logo em um monte de pedra e terra que estavam na rua, acabou com o carro e nunca mais quis saber de dirigir na vida. Até onde dá para saber, sua distração predileta era a caçada. Tenho um retrato dele junto com amigos – era alto, magro –, e tenho, dessa sua distração, um chicote com cabo de prata, herança que conservo com carinho.

Não sei quando é que a família veio morar na capital, onde tínhamos uma casa na Rua Piauí, Bairro Funcionários. A história que sabia na época é que aquelas casas eram financiadas pelo governo do estado aos funcionários públicos, daí o nome do bairro. Era uma casa enorme, no nível da rua, com um quintal imenso, coberto de árvores frutíferas, das quais me aproveitei muito quando para cá voltamos, eu menina ainda, pés no chão. Mas, pelo diploma que recebi também de Márcio, da Associação de Assistência aos Tuberculosos Proletários, datado de 1934, agradecendo sua colaboração para com a causa, acredito que ele tenha também clinicado na capital, se bem que o ano foi o mesmo em que eu nasci – e em Santa Luzia.

E por mais completa que tenha sido a carreira médica de meu pai, ele faleceu antes de qualquer progresso mais comum da medicina. O irmão que perdi, e que era mais velho do que eu, morreu de septicemia, provocada por uma simples ferida no pé por causa de uma fivela do sapato. Hoje em dia, a doença é totalmente tratável com antibióticos. E meu pai, Dr. Chiquito, morreu com um problema cardíaco, estenose mitral, que surge do entupimento de uma válvula da circulação do sangue no coração, facilmente corrigível atualmente. Naquele tempo, ele precisava de uma vida mais calma, sem muitos problemas e com mais descanso, o que nunca teve por causa da profissão,  à qual se dedicou completamente. 

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