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Janeiro é mês de combate e conhecimento sobre a hanseníase

Cercada de preconceitos, a doença não está erradicada do Brasil, que registra 30 mil casos por ano, atrás apenas da Índia


postado em 24/01/2020 04:00


Faz parte da natureza humana: doenças cercadas de história e de mitos não são lembradas com facilidade. Como a lepra, por exemplo, cujo nome médico é hanseníase, tema da campanha da Sociedade Brasileira de Dermatologia realizada este mês. Essa doença carrega um trauma desde os tempos bíblicos. Na Idade Média, portadores de hanseníase eram obrigados a carregar um sino para anunciar a própria presença. Até pouco tempo atrás, o isolamento compulsório para separar os pacientes do restante da população era prática comum no Brasil. Familiares ficavam anos sem se ver por conta dessa política pública. Neste século 21, a doença ainda é carregada de estigmas. Não leva à morte, mas pode causar deformidades e incapacidades físicas irreversíveis.

Como muitas doenças que atingem a pele, ela expõe o paciente ao preconceito. Apesar de o preconceito persistir, tais imagens não correspondem mais à abordagem atual da hanseníase, pois o tratamento é eficaz e está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). Ao contrário da crença popular, ela é de baixo adoecimento, pois cerca de 90% da população tem resistência natural à enfermidade. A transmissão se dá por contato respiratório muito próximo e frequente com doentes.

Diante desse cenário, era de se esperar que a hanseníase estivesse praticamente erradicada do país. A realidade, porém, é que ela ainda faz muitas vítimas no Brasil: são cerca de 30 mil casos por ano, ficando atrás somente da Índia. A respeito da facilidade de contágio, gostaria de repetir aqui um caso acontecido em minha família. Os tempos eram aqueles em que os parentes se frequentavam, almoçavam ou lanchavam uns nas casas dos outros, sem marcar nada, apenas aparecendo. Uma de minhas primas era especialmente privilegiada com essas visitas, pois tinha apenas dois filhos, dinheiro, morava em casa grande. Eu, sempre espiroqueta, praticamente almoçava lá todas as sextas-feiras, com meus primos. E minha mãe era visita frequente. A comida era ótima, os biscoitinhos deliciosos. E a empregada, uma só, comandava a cozinha.

Certo dia, minha prima resolveu mostrar a ferida que a moça tinha na perna, que não curava e fora vista até por um primo médico. Minha mãe, que herdou um pouco da sabedoria médica de meu pai, não teve dúvida. Ao ver a ferida, avaliou-a imediatamente como lepra. Foi um deus nos acuda, os exames feitos, o diagnóstico leigo confirmado, a família toda examinada. Ninguém teve nada – nem os donos da casa nem os parentes comensais frequentes.

O diagnóstico não é difícil, mas a doença tropical negligenciada, infectocontagiosa, de evolução crônica, manifesta-se principalmente por meio de lesões na pele e sintomas neurológicos como dormências e diminuição de força nas mãos e nos pés. É transmitida por um bacilo por meio do contato respiratório próximo e prolongado entre as pessoas. Diagnóstico, tratamento e cura dependem de exames clínicos minuciosos e, principalmente, da capacitação do médico.

No entanto, fica o alerta: quando descoberta e tratada tardiamente, a hanseníase pode trazer deformidades e incapacidades físicas. Para esclarecer dúvidas sobre o assunto, a dermatologista Sandra Durães, coordenadora da Campanha Nacional de Hanseníase da Sociedade Brasileira de Dermatologia, destaca o que é mito e verdade sobre a doença.

É mito considerar a hanseníase doença tão antiga que já foi eliminada. “A ocorrência é grande no mundo e, principalmente, no Brasil. Pessoa de qualquer sexo, idade e classe social pode 'pegar' hanseníase”, afirma a especialista.

Uma verdade: apesar de qualquer um estar sujeito a adquirir a bactéria, 90% da população têm resistência para adoecer. Outro mito: apenas a população de baixa renda tem hanseníase.

É fato que a hanseníase pode causar deformidades e incapacidades físicas. “Com diagnóstico e tratamentos tardios, há o risco de graves sequelas. Isso pode ser evitado com o tratamento rápido, que cura e é gratuito em unidades de saúde do SUS”, explica Sandra Durães.

Um mito: é possível “pegar” hanseníase de um animal. A hanseníase só é transmitida de uma pessoa que tenha a doença na forma infectante, e não tratada, para outra pessoa.

A aglomeração de pessoas facilita a transmissão da doença. “Ambientes muito fechados e com pouca circulação de ar são propícios a isso”, observa a especialista.

O site da Sociedade Brasileira de Dermatologia esclarece várias dúvidas a respeito da doença. Ao suspeitar dos sintomas, procure a unidade de saúde da família mais próxima ou um dermatologista nas unidades do SUS.


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