Um vinho nacional cerca de 50% mais em conta. Essa é a expectativa de um produtor da bebida após um estudo financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), envolvendo oito variedades de uvas resistentes a doenças feito pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) entre 2021 e 2025.


O projeto nasceu em Andradas, no Sul de Minas, considerada a capital do vinho no estado. José Procópio Stella, proprietário da Vinícola Stella Valentino, recebeu a visita de um representante do viveiro italiano Vivai Cooperativi Rauscedo, que estava disposto a apresentar essas cultivares mais resistentes.

“Eu disse que só aceitaria se a Epamig coordenasse o trabalho científico, porque precisa ter metodologia, estatística… Eu até sei fazer isso, mas não é a minha área”, diz o agrônomo, que logo entrou em contato com a empresa estatal, que já tinha feito outros experimentos juntos em sua propriedade.

Cláudia Souza, pesquisadora da Epamig e coordenadora do projeto, explica que essas mudas, chamadas híbridas de nova geração, foram obtidas pelo cruzamento entre a variedade da espécie vitivinífera,  utilizada para a elaboração de vinhos finos, com espécies americanas e asiáticas. Elas contêm os genes de resistência às duas principais doenças da videira, o míldio e o oídio.

“Esses híbridos têm um diferencial: foram obtidas por retrocruzamento, ou seja, cruzou, por exemplo, uma vitivinífera com uma espécie asiática e gerou a primeira geração. Depois, essa primeira geração cruzou novamente com a vitivinífera e foi cruzando sucessivamente, concentrando a maior fração de vitivinífera. Ou seja, elas são variedades que contêm no seu genoma mais de 85% de genes da espécie vitivinífera, conservando esses atributos enológicos das principais variedades tradicionais, como Merlot, Cabernet Sauvignon, Sauvignon Blanc”, detalha Cláudia.



De acordo com a pesquisadora, esses cruzamentos recebem a denominação PIWI, abreviatura de Pilzwiderstandsfähige, termo alemão que significa“resistente a fungos”. Foram avaliadas quatro cultivares brancas (Sauvignon Kretos, Sauvignon Rytos, Fleurtai e Soreli) e quatro tintas (Merlot Kanthus, Merlot Khorus, Cabernet Eidos e Cabernet Volos). Posteriormente ainda foi adicionada uma Pinot Noir, que também está sendo acompanhada.

“A sacada dessas híbridas italianas foi nomear de forma similar às variedades tradicionais, como a Sauvignon Kretos, Sauvignon Rytos, que são originárias do cruzamento de Sauvignon Blanc com híbrido. Tem mais apelo, porque o apreciador de vinho é muito conservador”, acrescentou Cláudia.

Na prática, a alta resistência às doenças vai permitir que essas uvas híbridas sejam produzidas no verão, entre dezembro e janeiro, que, no Brasil, apresenta clima quente e úmido, mais propício aos fungos. As uvas de mesa, que são variedades mais rústicas, respondem bem a essas condições, mas as uvas finas, não.



Por esse motivo, para a produção de vinhos finos, foi desenvolvida a técnica da dupla poda. Assim, em setembro, é feita uma poda para que a planta não produza no verão, que seria seu ciclo natural. Depois, por volta de fevereiro e março, uma nova poda é feita, com a aplicação de reguladores. Com isso, os cachos amadurecem entre maio e agosto, quando o clima oferece grande amplitude térmica, o que contribui para a qualidade das uvas, e baixa umidade, que é menos propícia às doenças fúngicas.

“Umidade baixa, solo seco, luminosidade intensa e temperatura mais baixa: isso dá muita qualidade à uva. A maturação demora um pouco mais, porém, eu tenho uma uva com casca mais grossa e mais qualidade de tanino. Nós resolvemos o problema de produzir vinho fino em Minas, só que isso é caro, a produtividade não é muito boa e eu não consigo colocar um vinho deste no mercado por menos de R$ 140”, diz o fundador da Vinícola Stella Valentino.


Com a chegada das variedades PIWI, o estudo aponta que é possível colher uvas finas no verão com uma qualidade quase igual à do inverno, usando apenas um ciclo e reduzindo o preço de produção. “Vou ter condição de colocar no mercado um vinho de uma qualidade muito boa, não vai ser no nível do vinho de inverno, vai ser um pouquinho inferior, mas numa faixa entre R$ 70 e R$ 100”, acredita o produtor.


Menos defensivos

Procópio garante que essa variedade vai demandar aplicações mínimas de defensivos, que pode ser nula em alguns anos, enquanto para a produção de vinhos de inverno são necessárias de 30 a 40 aplicações. Para Cláudia, essa característica pode atender a um nicho de mercado que se preocupa com o meio ambiente e a sustentabilidade.

Ao longo do projeto, foram realizadas duas colheitas de verão e uma de inverno. A produtividade dessas variedades ficou entre 1,5 quilo e 3,5 quilos de uvas por videira. Além de calcular a produtividade de cada cultivar, o projeto realizou a vinificação em pequeno volume dessas variedades para avaliar o potencial enológico, assim como as características dos vinhos.

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É importante frisar que essas mudas híbridas são protegidas, e precisam ser adquiridas junto ao viveiro que desenvolveu os cruzamentos. Procópio, que também é presidente da Associação dos Produtores de Uva e Vinho de Minas Gerais, diz que produtores de várias regiões do estado já estão comprando mudas PIWI com base nos resultados do estudo realizado junto à Epamig.

Como o produtor já tem as mudas, escolheu duas variedades, uma branca e uma tinta, para replicá-las. Os critérios de escolha foram a produtividade e a resistência. “Agora, com a nossa enóloga, vamos trabalhar mais os vinhos dessas duas uvas. Para ter ideia da qualidade enológica deles ainda vai demorar uns três ou quatro anos. Até o momento, temos certeza da qualidade agronômica”, detalha.

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