Estudo quer viabilizar produção de energia solar e alimento no mesmo espaço
Projeto desenvolvido pela Epamig propõe um modelo de produção de energia fotovoltaica sem abrir mão da produção agropecuária
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Produzir alimentos e energia elétrica no mesmo espaço. Essa é a ideia de um projeto que vem sendo desenvolvido pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) para ampliar a segurança alimentar em um contexto em que produtores rurais estão arrendando suas terras para a instalação de usinas fotovoltaicas, frente ao aumento da demanda por energia solar.
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A engenheiria agrícola Polyanna Oliveira, chefe do departamento de pesquisas da Epamig e coordenadora do projeto, explica que no Sistema Agrofotovoltaico as placas de energia solar são instaladas bem acima do solo, para permitir também o cultivo de alimentos ou mesmo a criação de animais para a pecuária.
O projeto abrange duas regiões de Minas Gerais. No Norte do estado, está instalado na localidade de Mocambinho, no município de Jaíba, região semiárida. Ali foram instaladas placas solares a uma altura de 2,8 metros do solo. As quatro culturas iniciais que estão sendo pesquisadas são alface, melão, feijão e morango. A escolha foi feita pelos critérios de interesse da região e por seu alto valor agregado.
Para todas as culturas plantadas sob as placas, também existe uma "área testemunha" plantada a pleno sol, como se faz normalmente, assim como placas fotovoltaicas instaladas junto ao solo. A ideia é fazer a comparação do Sistema Agrofotovoltaico com a produção e geração de energia solar convencionais. Em Mocambinho, onde a insolação é muito forte, a pesquisadora estuda a implantação de culturas mais sensíveis ao sol devido ao sombreamento.
Polyanna explica que cada cultura tem uma tolerância à sombra. Algumas produzem com o mínimo de sol, enquanto em outras a produtividade de fato vai cair: "Queremos ver se a redução da produtividade é compensada com a geração de energia. O produtor pode ganhar mais na geração de energia e menos um pouco na produtividade, mas, no final, o balanço vai ser positivo."
Em Mocambinho são usadas tanto as placas fixas quanto as que acompanham o movimento do sol (chamadas "tracker"). Também são dois os tipos de placas utilizadas, as monofaciais, que só geram energia na parte superior, em contato direto com a radiação, e as placas bifaciais, que também geram energia de forma indireta, por meio das luzes refletidas. Assim, será possível mensurar até as culturas que refletem a luz com maior eficiência para gerar energia.
Além de estudar a influência das placas solares na produção agropecuária, a ideia também é analisar a influência das culturas na produção de energia. É que o microclima criado embaixo das placas acaba resfriando os painéis, o que tem efeito positivo para a produção de energia elétrica. Todas as usinas vão ganhar um sistema de coleta de água de chuva, que será usada tanto para a limpeza das placas quanto para a irrigação.
Produção de energia também na bovinocultura
O projeto também foi implementado no Campo Experimental de Santa Rita, da Epamig, em Prudente de Morais, na Região Central de Minas Gerais. Lá o Sistema Agrofotovoltaico está sendo estudado junto à bovinocultura. As placas foram instaladas a 2,2 metros do solo, já que o manejo dos animais não utiliza maquinário muito alto. Os painéis entram no lugar dos sombrites para a formação de bezerreiros, fazendo um sombreamento de cerca de 30% para os animais utilizados na pecuária leiteira.
Outra aplicação são as placas solares fixadas na vertical, a 90 graus em relação ao solo, para avaliar o desenvolvimento de forrageiras que vão alimentar o gado. Esses painéis são colocados a uma altura de aproximadamente 1,5 metro para que os animais não consigam danificá-los. "Além de avaliar como o sombreamento vai influenciar na produção, se vai diminuir ou se vai aumentar, no caso do bezerreiro vamos analisar o bem-estar animal", explicou a pesquisadora. Cada unidade da pesquisa conta com uma área de 700 metros quadrados, sendo que 300 metros quadrados são cobertos por painéis solares.
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Projeto aguarda a chegada de baterias
Mesmo com as usinas instaladas, elas estão desligadas porque a infraestrutura elétrica das duas regiões não comporta o excesso de pessoas gerando energia nos horários de pico. A solução encontrada foi a instalação de um sistema robusto de baterias que vai armazenar a energia gerada para “injetar” na rede da Cemig nos horários de maior consumo. O processo de aquisição dessas baterias está em andamento e deve custar em torno de R$ 3 milhões.
Polyanna explica que o projeto foi pensado para os produtores rurais, pequenos e grandes, mas também pode interessar às companhias de energia elétrica, que visam aumentar a produção fotovoltaica, e às empresas que instalam essas usinas. Mas, a ideia principal é que esses produtores não deixem de produzir alimentos e também tenham mais uma alternativa de renda.
No ponto que se encontra, a pesquisa ainda não tem um valor médio da implantação do Sistema Agrofotovoltaico por hectare, assim como o tempo necessário para ter o retorno do investimento. No entanto, a pesquisadora adianta que se trata de um custo considerável. A expectativa é ter dados mais confiáveis a partir do segundo ciclo de cada cultura, o que deve acontecer em meados de 2028.
O projeto está sendo desenvolvido em parceria com o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), com financiamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).