o produtor Alisson Moreira posa ao lado de uma oliveira com ramos cheios de azeitonas crédito: Acervo Pessoal/Divulgação
Uma história que começou em 2013, no Sul de Minas, frutificou em um azeite que se destacou do outro lado do planeta, na Itália, durante a premiação Evo International Olive Oil Contest. A trajetória do produto, que em junho obteve pontuação elevada na avaliação sensorial dos jurados na Europa e foi apontado entre os melhores da América do Sul, tem início nos arredores de Maria da Fé, na Serra da Mantiqueira, quando Alisson Moreira, motorista de aplicativo, experimentou pela primeira vez o azeite da região, “muito diferente dos produtos de mercado”.
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Dali nasceu a vontade de fazer seu próprio azeite, o que o levou a pesquisar sobre as oliveiras. Alisson é natural de Cristina, município vizinho a Maria da Fé e berço da primeira produção de azeite no Brasil, há apenas 18 anos, em 2008. Logo ele constatou que o sítio da família tinha a altitude e todas as características necessárias para esse cultivo. Em 2017, o mineiro começou seu olival, com o plantio de 340 mudas em uma área de 1,5 hectare, a uma altitude de 1.500 metros, responsável pelo frio necessário para que as oliveiras possam florescer e gerar os frutos que darão origem ao óleo.
A primeira produção veio apenas em 2022: rendeu aproximadamente 100 quilos de azeitonas e pouco mais de 10 litros de azeite. A safra seguinte foi arruinada por uma chuva de granizo. Em 2024, quando foram produzidos 176 litros de azeite, foi lançada a marca Alto da Serra. No ano seguinte, toda a Mantiqueira teve uma safra ruim de azeitonas, porque não houve frio suficiente, e Alisson produziu apenas 17 litros. Mas, em 2026, a região teve produção recorde, e a propriedade extraiu 304 litros de azeite.
Foi essa safra que obteve 96 pontos no concurso da Itália, que lhe conferiram muito mais que a Medalha de Ouro (distribuída para os competidores que somaram a partir de 84 pontos): também colocaram o produto entre os cinco melhores azeites da América do Sul que participaram da competição. O azeite do Alto da Serra também se destacou no TerraOlivo International Olive Oil Competition, em Israel, obtendo a classificação Grand Prestige Gold, no início do mês.
Frutos da Europa com sotaque das Gerais
Sobre o azeite premiado, Alisson explica que se trata de um blend de safra, ou seja, a mistura de toda a sua produção de 2026, que envolveu três variedades de oliveiras: a Arbequina (de origem espanhola), a Grappolo (italiana) e a Koroneiki (grega). O produtor conta que, depois da premiação, a busca pelo produto se intensificou. A comercialização é feita pelo Instagram (@altodaserra.oficial), disponível em embalagens de 100 ml e 250 ml.
Alisson conta que uma condição fundamental para obter um bom azeite é fazer a colheita dos frutos na época certa: “A azeitona tem quatro fases. Ela começa verde, depois verde-palha (um amarelado), em seguida vai se pintando de roxo e finalmente fica preta. O ideal é colher na fase de transição do verde-palha para o roxo. Mas nem todas estão no ponto certo; você vai pela maioria, enquanto algumas estão adiantadas e outras, verdes.”
Depois do sucesso internacional, para a safra de 2027 há uma certa apreensão quanto à atual irregularidade do tempo, já que a chuva não é bem-vinda do fim de julho a agosto, pois pode lavar o pólen das flores. O produtor diz que o investimento para montar seu olival não foi muito alto, mas o retorno vem a médio prazo. “Estamos indo para 10 anos na atividade; se eu tiver mais uma boa safra, resgato meu investimento”, calcula.
De olho nessa expectativa, a lavoura familiar é cuidada principalmente com a colaboração do pai e da irmã de Alisson, já que ele mora em São José dos Campos (SP) e costuma ir à propriedade uma vez por mês. A irrigação foi implementada em 2025, feita por mangueira, em processo que dura um dia e meio. A análise de solo é feita todo ano, e a adubação depende da carga de frutos nas árvores. Já o fungicida é usado na época de chuva, mas interrompido próximo à colheita.
Além de a olivicultura se tornar sua principal atividade econômica, para os próximos anos Alisson espera organizar visitas à sua propriedade e à região, para que os interessados experimentem seu produto e conheçam a produção e a história do azeite em Maria da Fé.
Azeite premiado foi extraído pela Epamig
O azeite premiado de Alisson foi extraído no Campo Experimental da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), em Maria da Fé, famosa por ser a cidade mais fria do estado. Não por acaso, é ali que a empresa trabalha com o desenvolvimento de culturas de clima temperado, como a própria oliveira, mas também o pêssego, a maçã, a ameixa e o caqui.
“A oliveira é uma planta de clima temperado, ou seja, ela precisa de frio para que possa completar seu ciclo, florescer, produzir as azeitonas e, desses frutos, a gente consegue extrair o azeite”, explica Luiz Fernando de Oliveira, pesquisador da Epamig que traz no sobrenome a matriz da sua especialidade.
Ele trabalha com azeite desde 2007, é responsável pela agroindústria do óleo e pelo Laboratório de Análises Químicas de Azeite de Oliva da Epamig. Atuando como jurado no “Prêmio CNA Brasil Artesanal – Azeite de Oliva 2026”, ele também é responsável por um projeto para formação de um painel sensorial de análises de azeite de oliva.
A estrutura da Epamig em Maria da Fé inclui um lagar (equipamento industrial para a extração de líquidos dos frutos), que presta esse serviço para os pequenos produtores da região. “Uma indústria como a nossa tem um custo muito elevado para um tempo de trabalho muito pequeno, em torno de R$ 1 milhão. Como nós não conseguimos guardar a azeitona, a estrutura só trabalha na época da colheita, do meio de janeiro até o fim de março. Como somos uma empresa pública, também temos a preocupação de fomentar essa parte da atividade. O produtor colhe a azeitona, traz e nós entregamos o azeite a ele já na garrafa rotulada, para comercializar”, explica Luiz Fernando.
Português foi o pioneiro e Minas
Ele conta que as primeiras oliveiras de Maria da Fé foram trazidas por um português, que, nos anos 1950, entendeu que o clima frio daria condições ao desenvolvimento da espécie. E a cultura já era estudada na região antes mesmo de a Epamig chegar ali, pelo Programa Integrado de Pesquisas Agropecuárias do Estado de Minas Gerais (Pipaemg), que mantinha uma fazenda de pesquisas na região. Hoje, já existem diversas cultivares brasileiras de oliveira trabalhadas geneticamente pela Epamig, como a Grappolo 541.
O pesquisador dá a receita para obter um azeite de oliva de boa qualidade. Tudo começa escolhendo uma boa localidade, em região que possua condições climáticas para se cultivar a oliveira. No terreno, é preciso identificar a melhor porção para o cultivo, que não gosta de solos muito alagados. Apesar de precisar do frio para florescer, a oliveira também precisa do Sol no período do verão, motivo pelo qual se dá preferência para a face Norte do terreno para plantar, já que a face Sul teria muita sombra.
Depois, é preciso escolher a variedade da oliveira, que vai determinar aroma e sabor, as características sensoriais do azeite. “Se você quer produzir um azeite mais suave, ou mais frutado, ou mais amargo, ou mais picante, a variedade vai dizer isso para a gente. Mas é preciso plantar pelo menos duas cultivares no pomar, para que ocorra a polinização cruzada. Geralmente, os produtores plantam três, quatro variedades. Isso permite fazer blends, misturas. E aí, é possível equilibrar mais o azeite”, explica Luiz.
o pesquisador luiz Fernando diante de máquina de processamento de azeitonas para a produção de azeite no sul de minas Epamig/Divulgação
O processo do fruto à mesa
Após a colheita, é importante fazer o processamento o mais rápido possível, para que o fruto não tenha problemas de oxidação e fermentação, o que atrapalharia a qualidade do azeite. Para a obtenção do óleo, é preciso moer a azeitona e depois mexer a massa que foi criada a partir da moagem, em um processo de batimento. Depois, é preciso separar esse óleo por meio de uma máquina chamada decanter, que é uma centrífuga horizontal.
“Fazendo isso, o azeite já está pronto para ser consumido. Mas, como ele vai ser armazenado, ainda precisa passar por três operações: vai decantar em tanques de inox, para que as partículas sólidas mais pesadas fiquem no fundo; depois, vai passar por uma centrífuga vertical, que gira mais rápido que a horizontal, e vai tirar o pouquinho de água que ainda pode haver; por fim, passará por um processo de filtragem para então ser envasado, rotulado e distribuído”, descreve o especialista da Epamig.
No armazenamento, é preciso ficar atento a três coisas que podem estragar o azeite: luz, oxigênio e alta temperatura. Assim, os tanques de armazenamento em inox evitam que a luz incida diretamente sobre o azeite. A atmosfera é modificada com a retirada do oxigênio de dentro do tanque e a inserção de nitrogênio, que não reage com o azeite. Por último, as salas de armazenamento desses tanques são mantidas a uma temperatura controlada em torno de 17 graus.
“Esses cuidados todos estão relacionados a produtores menores. É uma das vantagens do azeite produzido na Serra da Mantiqueira quando comparado aos de grandes produtores. Na produção em larga escala, a gente peca um pouco nesses cuidados”, considera o pesquisador.
Características que influem no preço
Sobre o preço mais elevado desses azeites “artesanais”, quando comparados aos de grandes produtores, Luiz Fernando argumenta que se trata de uma produção em pequena escala, numa topografia que dificulta a mecanização e com dificuldade de encontrar mão de obra: “Nós também não conseguimos produzir a mesma quantidade de azeitona por planta em relação aos países que já têm essa cultura bem estabelecida. Assim, o custo de produção acaba ficando mais alto.”
O pesquisador acrescenta que o melhor ambiente para a oliveira é o clima mediterrâneo, com verões quentes e secos e invernos frios e úmidos. Na Serra da Mantiqueira, o frio tem relação com a altitude. Mas, como se trata de uma região tropical, o verão é quente e úmido. Por isso, as pragas e doenças que acometem as oliveiras têm relação com o alto índice de umidade, como os fungos que desenvolvem doenças como a antracnose, que afeta os frutos, e o repilo, que inicialmente afeta a folhagem, mas também acomete as azeitonas.