EXTRATIVISMO

Jenipapo: de 'praga' a fruto cobiçado

Espécie antes vista como uma praga em algumas propriedades vira renda extra no Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, despertando o interesse de multinacional do setor de nutrição

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Frequentemente visto em algumas regiões do Brasil no formato de licor ou doce, o jenipapo chega a ser considerado uma “praga” em algumas propriedades. De tão subutilizado, o fruto termina pelo chão, sendo consumido pelo gado.

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Mas, esse cenário pode estar prestes a mudar. A ADM, uma multinacional que atua na comercialização de grãos, insumos e nos setores de nutrição humana e animal, se mostrou interessada em parceiros para fornecer o fruto em Minas Gerais.



Para formar essa cadeia de fornecedores, a empresa firmou uma parceria com o Instituto Antônio Ernesto de Salvo (Inaes), braço de inovação, inteligência e sustentabilidade da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), dentro do seu programa de investimento socioambiental (ADM Cares). De acordo com Guilherme Chaves Andrade, analista de planejamento do Inaes, apesar da demanda, a empresa não revelou como pretende explorar comercialmente o jenipapo.

A princípio, a maior incidência da espécie está no Norte de Minas e no Vale do Jequitinhonha. Como essas regiões também possuem baixos indicadores de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) e o projeto tem um cunho social, foram os locais escolhidos para iniciar o trabalho. O projeto ainda está nos primeiros passos, com o pré-cadastro de produtores e o mapeamento dessas árvores para a colheita.

Como existe uma demanda a curto prazo da indústria pelo fruto, o trabalho está 100% focado no extrativismo. “Mas, não impede que a gente consiga, posteriormente, se for de interesse do parceiro, fazer pesquisas voltadas para a questão do plantio da árvore para garantir o fruto e uma melhor rastreabilidade”, explica Guilherme.

Um dos objetivos do Inaes é seguir à risca o conceito de bioeconomia, que tem a sustentabilidade como um dos principais pilares. Assim, o manejo prevê cuidados específicos para que a árvore consiga produzir novamente no próximo ano, além de deixar um percentual dos frutos para alimentar os animais nativos e para que a espécie se perpetue naturalmente por meio das sementes, já que não se trata de uma cultura plantada.


Renda extra e proteção da espécie

A ideia é que o jenipapo gere uma renda extra para produtores e coletores. Guilherme explica que uma das partes positivas do extrativismo é que o produtor não teve que plantar, adubar e irrigar aquelas árvores. Por isso fica mais fácil trazer parceiros para o projeto. “Não existe necessidade de um investimento, o que hoje em dia é quase impossível. E foi a indústria que veio nos procurar”, detalha o analista do Inaes. A iniciativa também valoriza os trabalhadores dessas regiões, que muitas vezes precisam sair dali para trabalhar na colheita de café, por exemplo.

Outro ponto positivo é a preservação da espécie, já que o produtor passa a enxergar o jenipapo como algo rentável. Este projeto também vai servir de experiência para outros trabalhos de bioeconomia do Inaes dentro do agro. “Vamos aproveitar essa experiência e começar a procurar novas espécies que sejam úteis para a indústria. Talvez eles tenham outras demandas que a gente ainda não conseguiu explorar. Mas, ainda não temos nada consolidado sobre isso”, disse Guilherme.

Um dos maiores desafios deste projeto, segundo o analista do Inaes, é que ainda não existem muitos estudos específicos sobre o jenipapo, justamente por não ser uma espécie muito utilizada comercialmente. Assim, é preciso entender melhor o manejo e a produtividade. Enquanto o Inaes vai coordenar a operação em campo, as gerências regionais da Faemg e os sindicatos rurais serão responsáveis pela identificação das áreas participantes, cadastramento dos produtores e apoio à mobilização local. Já o Serviço Nacional de Aprendizagem (Senar) já está atuando na formação das equipes

Caso alguém se interesse em fazer parte do programa, em qualquer região do estado, a orientação é procurar o sindicato rural local. “Nada impede de fazermos o mapeamento em todo o estado também. Vai que a gente encontra mais regiões que tenham aderência a esse fruto? Quanto antes o produtor nos procurar, melhor, porque, como ainda não sabemos como funciona a safra, vamos precisar visitar a região para entender”, explicou Guilherme.

Projeto-piloto capacita produtores e coletores

Um projeto-piloto já foi realizado em julho no município de Rubim (MG), no Vale do Jequitinhonha. Luiz Rodolfo Antunes, gerente regional do Sistema Faemg Senar, cedeu sua propriedade para essas atividades. A fazenda tem uma grande quantidade de pés de  jenipapo, e,  para estimular a atividade na região, ele doou a safra para quem coletou. O curso ensina tanto a forma de trabalhar com segurança em altura quanto o formato adequado para entregar o produto para a indústria: o tamanho do fruto e o ponto de colheita.

“A indústria tem uma demanda muito grande, de 3 mil a 4 mil toneladas de jenipapo por ano. Nós precisamos de organização, porque a empresa também precisa de cargas fechadas de 10 a 12 toneladas, pelo menos, para compensar o frete. Estamos no começo, mas acreditamos que no ano que vem já teremos dados mais consolidados e entregas mais rotineiras”, disse Luiz.

“Esse projeto da colheita do jenipapo é muito importante para Rubim e para toda a nossa região porque estamos falando de transformar algo que sempre esteve presente em muitas propriedades, mas que até então não tinha valor comercial para as famílias”, avaliou Ernane Alves Ribeiro, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Rubim.

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Ele destacou a parceria do Inaes com a ADM, que envolveu não apenas a capacitação, mas sobretudo a criação de um novo mercado. “Iniciativas como essa valorizam aquilo que já temos em nossas propriedades, criam novas alternativas de renda e podem abrir oportunidades para muitas famílias. Esperamos que a experiência iniciada aqui tenha bons resultados e possa servir de exemplo para outros municípios”, finalizou.

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