Florada precoce do café preocupa os produtores
Cafezais do Sul de Minas e Cerrado Mineiro registram flores um mês antes do previsto, por causa de efeitos climáticos, e produção pode ser afetada e exigir mais investimento
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As duas principais regiões produtoras de café em Minas Gerais – Sul de Minas e Cerrado Mineiro – registraram uma florada precoce significativa em agosto, em média um mês antes do que costuma acontecer. As consequências disso vão muito além da simples antecipação da safra, que pode ser iniciada em maio do ano que vem, e vai exigir bastante trabalho até a colheita da safra 2027.
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De acordo com Farlla Gomes, gerente-técnica e de Sustentabilidade da Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer), na primeira semana de setembro as fazendas da região já tinham 33% da florada esperada para este ano, volume que até meados da última semana já tinha chegado a 60%. “O restante vai depender das próximas chuvas”, explica a engenheira agrônoma.
Guilherme Vinícius Teixeira, coordenador do Departamento de Geoprocessamento da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé) – que tem cooperados em mais de 360 municípios do Sul de Minas, Cerrado Mineiro, Matas de Minas e da Média Mogiana do estado de São Paulo –, conta que tem registro de floradas precoces em julho e agosto. Em alguns casos localizados já foram constatadas três floradas, com a possibilidade de uma quarta. Assim, nas regiões onde a Cooxupé atua, a intensidade média da florada está entre 60% e 70%, calcula o engenheiro agrônomo.
Segundo Luiz Eduardo Vilela de Rezende, vice-presidente do Conselho de Administração da Cooperativa dos Cafeicultores da Zona de Três Pontas (Cocatrel), a antecipação da florada em algumas regiões do Sul de Minas se deu ainda com a colheita do final da safra de 2026, tanto no chão quanto no pé de café. No entanto, ele ressalta que a florada precoce não abrange todas as áreas produtoras do estado, e que a florada principal será mesmo a dos meses de setembro e outubro.
Os representantes das cooperativas são unânimes quanto à motivação da florada precoce em parte dos cafezais mineiros, que foram as chuvas atípicas ocorridas no inverno, que deveria ser um período seco. A umidade tanto atrasou a colheita quanto estimulou a florada. Luiz Eduardo, que também é produtor de café no município de Carmo da Cachoeira, explica que o estresse hídrico é importante para criar uma florada padronizada, mas, sem esse componente, as floradas neste ano foram esparsas.
“Tivemos um ano atípico porque passamos por um dos invernos mais úmidos da história. O café precisa desse período de seca, principalmente de maio a agosto, para dar uma boa florada no retorno das chuvas. Neste ano, como não tivemos esse déficit hídrico, tivemos várias floradas, as primeiras de menor intensidade e a última maior”, avalia Guilherme. Na visão de Farlla, as chuvas incomuns do inverno – com solo úmido e clima mais ameno – resultaram em lavouras vigorosas, diferente do “sofrimento” comum do fim da colheita, além de floradas significativas.
Maturação desigual
Apesar disso, as diversas floradas podem resultar em frutos com diferentes estágios de maturação na época da colheita: verdes, maduros e passados. Isso pode exigir mais esforço e investimento. Caso opte por não fazer nada, o produtor vai colher toda a produção, o que não vai aumentar seu custo, mas o mercado vai precificar esse café para baixo devido à presença de frutos verdes e excessivamente maduros (passas), que são considerados defeitos. Já a colheita seletiva manual apresenta um custo inviável.
Mas, Luiz Eduardo garante que existem técnicas para amenizar essa situação. A colheita seletiva mecanizada é uma delas, se fazendo de um tipo de vibração que derruba apenas os frutos maduros. No entanto, essa técnica precisa ser repetida ao menos mais uma vez, entre 20 e 30 dias depois, para colher os frutos que ficaram, agora amadurecidos.
Para Farlla, isso acaba aumentando o custo de produção, mas é uma forma de manter a alta qualidade do café. Outra técnica que pode ser usada, e que exige menos investimento, é induzir e uniformizar a maturação a partir do hormônio etileno. Guilherme ressalta que, para que isso tenha efeito, o fruto precisa estar fisiologicamente maduro, apesar de verde por fora.
De qualquer forma, nas regiões que tiveram uma florada precoce a safra vai ser antecipada para meados de maio. Como aspectos positivos disso, o vice-presidente do Conselho de Administração da Cocatrel lista recompor o caixa com um mês de antecedência e a chance da planta descansar mais antes do novo ciclo, o que é importante para a sua produtividade. Mas, Luiz Eduardo adverte que florada não é café, já que até o fim do ciclo podem ocorrer abortamentos como efeitos de doenças e do clima.
El Niño
Outro ponto que pode afetar a safra 2027 é o comportamento do fenômeno climático El Niño em cada região. Neste mês de setembro, o Sul de Minas sofreu com dois episódios de granizo, justamente na florada, um período sensível. Nesses locais, como os pés foram danificados pelas pedras de gelo, a produção de 2027 certamente será afetada.
Já para os meses de outubro e novembro, os temores são a falta de chuvas e o clima mais quente. “Como as chuvas anteciparam, também podem parar mais cedo. Longos períodos de estiagem podem comprometer a produtividade em alguns momentos do desenvolvimento da planta. A irrigação é uma ferramenta importante para auxiliar momentos de déficit hídrico, mas não é a salvação, já que as altas temperaturas ainda provocam estresse térmico”, analisa Guilherme.
Para o engenheiro agrônomo, um manejo bem feito pode ajudar a planta a se manter ao ser submetida a condições climáticas hostis. Isso passa pela correção de solo, além da nutrição e manejo sanitário. A escolha de plantas mais tolerantes também é importante, como por exemplo as que desenvolvem um sistema radicular mais profundo para buscar água e nutrientes.
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Pragas e doenças
Os cuidados fitossanitários também se mostram ainda mais importantes em um ciclo com tantas variações climáticas. Farlla Gomes, gerente-técnica e de Sustentabilidade da Expocacer ressalta a importância de se manter um monitoramento de pragas e doenças e sublinha a importância de não pulverizar a lavoura com inseticidas na florada, para não afetar os insetos polinizadores, que aumentam a produtividade. Para Guilherme Vinícius Teixeira, coordenador do Departamento de Geoprocessamento da Cooxupé, uma das maiores preocupações é a broca-do-café. A colheita atrasada no Sul de Minas, com frutos nos pés e no chão, são condições propícias para que o pequeno besouro permaneça na planta. “Com as múltiplas floradas e os frutos desuniformes sempre terá alimento e onde colocar ovos”, acrescenta o engenheiro agrônomo.