Remédio chinês coloca jumentos em risco no Brasil
Abate descontrolado para extração do colágeno da pele do animal, que é usado na produção do ejiao, medicamento amplamente consumido na China, pode provocar o fim da espécie no país
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A redução drástica dos rebanhos de jumentos no Brasil, com a intensificação do abate a partir da década de 1990, tem provocado a mobilização de cientistas, veterinários, advogados e especialistas.
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Pesquisadores estimam que, entre 1996 e 2024, essa população caiu 94% no país, número obtido a partir de dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Agrostat, sistema de estatísticas de comércio exterior do agronegócio brasileiro do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
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A bióloga Patrícia Tatemoto, com doutorado e pós-doutorado em veterinária, se dedica ao assunto há oito anos, sendo consultora do The Donkey Sanctuary, organização beneficente britânica dedicada ao bem-estar desses animais. Ela afirma que o censo para animais é um desafio global. Mas, conforme os dados disponíveis, o efetivo de jumentos no Brasil na década de 1990 era de 1,37 milhão, número que caiu para 900 mil em 2011, 371 mil em 2017, até chegar à última estimativa de 70 mil indivíduos.
Para além do sentido pejorativo atribuído à espécie e suas variações – como mulas e burros, que são o cruzamento entre um jumento e uma égua que forma indivíduos estéreis – jumento (também chamado de jegue ou asno) chegou ao país por meio dos colonizadores, sendo utilizados para o transporte de cargas, movimentar máquinas e mesmo para montaria. No entanto, com a mecanização de transportes e máquinas, esses animais foram substituídos e até abandonados.
Após 500 anos no Brasil, o jumento originado da África desenvolveu um genoma único. “O jumento nordestino já é considerado um recurso genético que não tem em nenhum outro lugar do mundo. Uma informação genética especialmente relevante em uma época de crise climática, porque eles sobreviveram, se adaptaram e se reproduziram em áreas desertificadas, com muitos desafios climáticos. E agora eles vão desaparecer assim? É um patrimônio nosso que precisa ser cuidado”, defende a PhD.
De acordo com Patrícia, o motivo pelo qual a espécie vem sendo reduzida é a produção do ejiao pela China, uma espécie de remédio derivado do colágeno presente na pele do animal. “Para a medicina tradicional chinesa, só vale quando é a pele e o colágeno do jumento”, disse a bióloga, acrescentando que naquele país a população do asinino caiu de 11 milhões, em 1990, para menos de 2 milhões, em 2021.
Jornada de sofrimento
Esta demanda não se mostra sustentável, já que não existe uma cadeia formada para a produção. Patrícia afirma que a criação do jumento é economicamente inviável, visto que apenas a gestação do animal dura um ano, que se soma a mais quatro anos até o ponto de abate. A taxa de reprodução também é baixa. O resultado disso é o simples extrativismo. Segundo ela, o efetivo populacional de jumentos no Brasil está no Nordeste, onde atravessadores coletam e acumulam esses animais em fazendas de espera. Quando o número acumulado compensa fazer o transporte, eles transportam para a Bahia, que concentra metade dos seis abatedouros de equídeos certificados pelo Mapa.
No entanto, ao longo dessa jornada, os jumentos sofrem maus-tratos, sendo frequentemente encontrados em apreensões com problemas de hidratação, nutrição e sem os cuidados de médicos-veterinários. “Já cheguei a escutar de um atravessador que a pele do animal desidratado é mais fácil de ser retirada”, disse a PhD. Além da pele, a carne do jumento também é exportada como subproduto para países como o Vietnã.
O transporte desses animais é irregular e muitas vezes clandestino, sem a documentação necessária. Para que entrem no abatedouro é preciso ter uma Guia de Trânsito Animal (GTA), emitida pelos órgãos de defesa agropecuária do estado, documento que traz várias informações, entre elas os protocolos sanitários a que foram submetidos. Essa guia é um instrumento de rastreabilidade.
Mas, na prática, afirmou Patrícia, apenas a última fazenda em que os asininos passam emite a GTA. “Este não é um documento verossímil quanto à origem desses animais. Sabemos que ele vem de vários lugares do Nordeste. Já participei de apreensões contendo 3 mil jumentos, nenhum animal tinha a GTA. E isso implica que não havia rastreabilidade para nenhum, o que é necessário para cumprir as diretrizes de exportação”, esclareceu.
A falta de rastreabilidade também gera risco à saúde pública, de acordo com a especialista. “Nós já demonstramos doenças infectocontagiosas que foram negligenciadas. Já identificamos casos de uma doença chamada mormo, que é causada por uma bactéria e pode ser transmitida aos seres humanos. Parece uma pneumonia e por isso é subnotificada, o que é preocupante porque se você não trata como mormo, a pessoa tem até 96% de chance de morrer”, relatou.
Papéis positivos
São vários os “formatos” de preservação pensados para o jumento no Brasil a partir do fim do abate. Esses animais são encontrados em ecossistemas nativos não só no Brasil, mas em outras partes do mundo. “É preciso estudar o papel do jumento nos ecossistemas nativos do Brasil, entender melhor onde eles estão, a taxa de reposição, quais são os papéis ecológicos e se de fato causam impacto”, explicou Patrícia, citando casos em que eles desempenham papéis ecológicos positivos, como o consumo de plantas invasoras, aumento da biodiversidade e dispersão de sementes.
Outra ideia é a continuação do papel do jumento na agricultura familiar, por exemplo, na produção do sisal, como animal de tração, já que não se consegue mecanizar o processo, assim como aplicações na produção de cacau sustentável e no babaçu. O terceiro ponto é popularizar a possibilidade de ser um animal de companhia, devido à sua natureza dócil e capacidade de integração.
Lobby trava preservação
A África, onde o jumento se originou e ainda há cerca de dois terços do contingente mundial da espécie, também tem visto a população do animal reduzir significativamente. Por isso, em 2024, a União Africana criou uma moratória para proibir o abate da espécie em 55 países do continente.
Patrícia contou que no Brasil existem diversas ações nos três Poderes para proibir o abate de jumentos baseadas em evidências científicas, questões econômicas, sanitárias, de saúde pública e de bem-estar animal. Ainda que o lobby não deixe os projetos avançarem, a especialista garante que a própria Constituição Federal veda os maus-tratos aos animais, assim como atividades que levem à sua extinção.
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Federal do Paraná testa alternativa
Uma alternativa para a produção do colágeno e do ejiao sem o abate de jumentos pode estar numa pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Paraná. O projeto, que está em fase de prova de conceito, quer produzir o material a partir da reprodução por micro-organismos da porção genômica do jumento que contém a receita do colágeno. “O produto final é biologicamente idêntico ao colágeno retirado do jumento e poderia substituir todo esse abate dos animais. Isso é uma solução ética, sustentável e segura”, garante a bióloga.