Menor oferta de animais pode gerar aumento do preço da carne em 2026
De acordo com a Emater-MG, o aumento do número de fêmeas abatidas é um indicativo de que a pecuária de corte poderá ser afetada
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A perspectiva da pecuária de corte para 2026 é de uma menor oferta de animais para a comercialização, o que pode resultar no aumento do preço da carne. De acordo com Marcelo Martins, coordenador de Pecuária da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG), este é um cenário cíclico no setor, chamado “ciclo pecuário”, que acontece em média a cada 6 anos, induzido pela relação entre oferta e demanda.
O maior indicativo da tendência de redução da oferta de animais é o significativo aumento de fêmeas abatidas (vacas e novilhas) desde 2022, mas sobretudo ao longo de 2025. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) chegou a divulgar que, no segundo trimestre do ano passado, o número de fêmeas abatidas chegou a superar o de machos, o que não acontecia desde 1997, o início da série histórica.
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De acordo com Marcelo Martins, no acumulado de 2025, dos cerca de 40 milhões de bovinos abatidos no Brasil, quase 17 milhões foram fêmeas, o que corresponde a 43%. Este é considerado um volume muito elevado, porque boa parte dessas fêmeas deveria ser reservada para a reprodução nas fazendas de cria. Normalmente, de 12 a 36 meses após esse elevado abate de novilhas e vacas ocorre uma redução na oferta de bezerros, com consequente elevação dos preços.
Para o coordenador de Pecuária da Emater-MG, as fêmeas já começaram a fazer falta nos plantéis em 2025, o que indica que elas passarão a ser retidas, provavelmente a partir de 2026 e 2027, para iniciar um novo ciclo de reprodução. Outro cenário decorrente disso é a menor oferta de bezerros, que fez com que o preço da cabeça também já tenha começado a valorizar em 2025, podendo variar positivamente entre 30% e 35% até o fim de 2026. Por este motivo, Marcelo Martins acredita que, para os produtores precavidos que quiserem comprar bezerros, esta é a última “janela” de preços atrativos.
Já para vender o boi gordo para abate, a menor oferta de animais para os terminadores em 2026 fará com que, a partir do fim do ano, o preço da arroba esteja mais elevado. Enquanto 2025 marcou um ano de recuperação de preços na pecuária de corte brasileira, com a arroba sendo vendida no fim do ano passado, em média, a R$ 315, no fim de 2026 esse valor pode alcançar entre R$ 380 e R$ 400. De qualquer forma, 2026 ainda será desafiador para o confinador, que estará repondo o plantel com bezerros mais caros no mercado e vendendo boi gordo ainda em preços crescentes.
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O coordenador da Emater-MG explica que essa fase de alta dentro do ciclo pecuário costuma durar três anos, sendo 2026 e 2027 bons anos para o produtor, devendo alcançar uma estabilidade de produção em 2028. Com o crescimento gradual da oferta de animais, o preço da arroba começa a cair progressivamente, o que deve alcançar a base do ciclo pecuário em 2030. E é essa necessidade de reduzir despesas e fazer caixa para o custeio da fazenda que gera a necessidade de aumentar novamente o abate de fêmeas, dando início ao ciclo de alta da arroba novamente.
MANEJO, NUTRIÇÃO E GENÉTICA
Para Manoel Lúcio Pontes Morais, coordenador técnico de Bovinocultura da Emater-MG, o menor número de matrizes pode, em parte, ser compensado pela redução da idade de abate de animais: “As fêmeas estão parindo mais cedo e com melhor intervalo de partos devido ao melhoramento genético e ganhos de eficiência em nutrição, reprodução e manejo, o que reflete em melhoria para toda a cadeia”. De acordo com a Emater-MG, a engorda em confinamento cresceu em 2025, situação que tende a permanecer favorável em 2026, com a previsão de maior estabilidade no preço dos grãos.
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Marcelo Martins garante que, com preços mais favoráveis para o produtor, este é um bom momento para fazer investimentos na propriedade: reformas nas instalações e pastagens, melhorias na genética e na nutrição do rebanho. Uma boa estratégia é adotar a Integração Lavoura-Pecuária, com baixo investimento adicional, combinando o plantio de grãos (lavoura) e a criação de gado na mesma área. Ao mesmo tempo que otimiza o uso da terra, esse consórcio contribui para recuperar solos degradados, aumentar a produtividade e gerar renda o ano todo.
O coordenador de Pecuária da Emater-MG explica que um animal com boa genética e nutrição consegue estar pronto para reproduzir em 20 meses, antecipando em quatro meses o ciclo. Essa redução da idade de cobertura permite que haja mais bezerros ou arrobas produzidos por hectare de terra. Um índice que revela que, apesar de ser competitiva, a pecuária brasileira ainda é pouco eficiente é a taxa de desfrute.
No caso da pecuária de corte, este indicador de eficiência calcula quantas arrobas foram produzidas em um ano a partir do volume de carcaça que se tinha no início. Nos Estados Unidos, por exemplo, essa taxa gira em torno de 40%, que significa que a cada ano a massa do plantel daquele país cresce 40%. No Brasil, esse índice está em 20%. Por isso, os americanos conseguem produzir praticamente a mesma quantidade de carne que o Brasil tendo metade do nosso plantel. Marcelo Martins relata que, nos últimos 30 anos, o Brasil melhorou esse índice em cerca de 7%, enquanto os americanos mantêm sua eficiência em alto nível há anos.
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SOBRETAXA CHINESA
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A China anunciou na última quarta-feira (31/12) a adoção de medidas para restringir a importação de carne bovina, protegendo assim os produtores locais. A decisão afeta diretamente o Brasil, que é o principal fornecedor de carne vermelha para os chineses. Em 2026, o Brasil terá uma cota de exportação de 1,106 milhão de toneladas. A partir desse limite, será aplicada uma tarifa adicional de 55%. Em 2025, de janeiro a novembro, o Brasil exportou quase 1,6 milhão de toneladas de carne bovina para a China, indicando que um volume considerável será afetado pela sobretaxa. A decisão terá duração de três anos.