Paulo Delgado
Paulo Delgado

Hinos nacionais: Simulacro de guerras

Os próprios hinos apontam para a busca da pacificação através do foco em outras disputas menos sangrentas. O Marrocos ganhou seu hino por causa do futebol

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Fazer um ranking dos 48 hinos da Copa é um passatempo típico daquele que se tornou o principal momento do ano da grande maioria das pessoas em vários países do mundo. Ocasião para lembrar dos países esquecidos e prestar a atenção nos muitos lembrados. Traz lições sobre como o futebol civiliza paixões que, soltas, viram pólvora.

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Há algo muito inglês na troça autodepreciativa que abre um dos comentários mais lidos desta Copa. Escrevendo para o “The Athletic”, o braço esportivo do influente “The New York Times”, um jornalista de Londres resolveu ranquear os 48 hinos do Mundial e, com toda a pompa de um juiz imparcial, coroou o pior de todos: o da própria Inglaterra. “God Save the King”, sentenciou, é uma ladainha cerimoniosa sobre “um senhor de idade”.

Rir do próprio símbolo nacional diante do mundo é esporte que poucos povos praticam com tanto gosto. A autodepreciação é o patriotismo dos que se sentem seguros de si. Mas, por baixo da galhofa, aquela lista de hinos é um curioso ensaio de política internacional. Com bandas de instrumentos múltiplos e fileiras de jogadores desafinando, a Copa coloca as nações lado a lado e cada um canta quem pensa que é.
É um dos raríssimos momentos da tolice mundial atual em que a maioria das pessoas compara países para além dos (pre)conceitos enraizados, reparando em lugares pouco lembrados, como Curaçao e Cabo Verde, e descobrindo versos centenários. O hino é a forma mais concentrada desse exercício de identidade nacional destilada.

Foi exatamente esse caldo que assustou George Orwell. Em textos seus de 1945 e 1946, Orwell cravou a frase que virou clichê porque é certeira: o esporte competitivo “é a guerra menos os tiros”. Para Orwell, as competições esportivas internacionais não acalmariam as rivalidades, mas sim as inflamariam. Seriam guerras miméticas, combustível de vaidade e rancor, “mais um efeito das causas que produziram o nacionalismo”.

Lembrando o que se passa em muitas arquibancadas: “o nacionalista não só não desaprova as atrocidades cometidas pelo seu próprio lado, como tem uma notável capacidade de sequer ouvir falar delas”.

É o torcedor que não enxerga o pênalti do seu time e trabalha com dois pesos e duas medidas sobre tudo que se passa. Os hinos carregam esse DNA: a França canta que “um sangue impuro” deve regar seus campos; a Colômbia fala de uma terra “encharcada do sangue de heróis”; a Tunísia avisa que “não há lugar para traidores”.

E, no entanto, há a outra metade da história, uma que Orwell, no calor de quem viveu as atrocidades da primeira metade dos anos 1940, talvez não pudesse antever. Depois da Segunda Guerra, boas cabeças passaram a pensar as competições esportivas internacionais como um canal alternativo: um lugar onde o instinto primitivo de confronto entre o “nós” e o “eles” pudesse ser projetado e descarregado sem que ninguém morresse.

Daniel Druckman, estudioso de gestão de conflitos, diz que patriotismo e lealdade de grupo, mostra, pela psicologia social, que essas lealdades não são um defeito a ser extirpado: são necessidades profundas, que sempre buscarão expressão. Como a política não consegue aboli-las, o jogador pode escoá-las em um estádio.

Os próprios hinos apontam para a busca da pacificação através do foco em outras disputas menos sangrentas. O Marrocos ganhou a letra do seu hino por causa do futebol, escrita às pressas após a classificação para a Copa de 1970, anos depois da independência. A Espanha aboliu a letra em 1978, três anos após a morte do ditador Franco, e até hoje não consegue combinar o que cantar, preferindo o silêncio à briga sobre o passado. A Bósnia também canta sem palavras, porque palavras poderiam reabrir feridas étnicas.

Por outro lado, a África do Sul costura cinco idiomas num só hino, tornando o esforço de reconciliação algo audível. A Alemanha, por sua vez, entoa apenas a terceira estrofe, tendo enterrado a primeira, que falava de uma “Alemanha acima de tudo”, associada à parte vexatória de sua história. Cada hino é um acordo de paz que um país assinou consigo mesmo.

O Japão, nosso estimado adversário desta segunda-feira, canta o “Kimigayo”, a letra mais antiga da Copa. Deriva de um poema de mais de mil anos que deseja ao bom imperador, uma duração de “mil, oito mil gerações”. Pudico e curtíssimo, ele só se tornou hino oficial por lei em 1999: um país que levou décadas para ressignificar um símbolo outrora associado a ímpetos imperialistas.

Por isso, que o inglês siga zombando esportivamente do próprio hino. E que o Brasil, dono de um hino mais simpático que seus jogadores, dedica a ele apenas a esperança de dribles, desarmes, defesas, passes e gols que um dia fez.

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* Aos estimados leitores: a Coluna sai de férias e volta em 9 de agosto.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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