As telas e a saúde mental das crianças e adolescentes
Enquanto a pulsão de vida trabalha para juntar, expandir e criar complexidade, a pulsão de morte opera para separar, desorganizar e silenciar as tensões da vida
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Um adolescente comentou um post de uma amiga, a Luciana Lopes (@lulopes.oficial), pedagoga que trabalha com a prevenção de abusos contra crianças e adolescentes. Ele escreveu: “Eu vejo vídeos reais de suicídio todos os dias querendo que tivesse sido eu ao invés dele”. Era um comentário real, de alguém em sofrimento, que talvez não estivesse sendo ouvido. São muitos os adolescentes que têm ideação suicida, e o assunto ainda é um tabu.
A verdade é que sentir vontade de morrer faz parte da natureza humana, assim como a vontade de viver. Freud escreveu sobre isso no texto “Além do princípio do prazer”. “Se nos for permitido supor, como uma experiência sem exceção, que tudo o que é vivo morre por razões internas, retorna ao inorgânico, então só nos resta dizer: a meta de toda vida é a morte, e, remontando o passado, o inanimado esteve aqui antes do vivo.” Ele chamava de pulsão de vida e pulsão de morte. A pulsão de vida é o que nos movimenta, não apenas o que dá certo, mas também o que dá errado.
Na psicanálise freudiana, nosso funcionamento mental é movido por duas forças fundamentais e opostas: a pulsão de vida e a pulsão de morte. A pulsão de vida é a energia voltada para a criação, a autopreservação, o amor e a união, impulsionando-nos a construir laços sociais, gerar novos projetos e manter a integridade do corpo e da mente.
Já a pulsão de morte é uma força que tende à desconexão, à destruição e ao retorno a um estado anterior, sem tensões. O que muitas vezes se manifesta na nossa tendência à repetição de comportamentos autodestrutivos, na agressividade ou na busca por um alívio absoluto do sofrimento. Em suma, enquanto a pulsão de vida trabalha para juntar, expandir e criar complexidade, a pulsão de morte opera para separar, desorganizar e silenciar as tensões da vida.
No nosso funcionamento mental, existe uma espécie de cabo de guerra interno. De um lado, temos a nossa consciência, que tenta manter o controle e seguir as regras do dia a dia. Do outro, temos as pulsões, que são como uma energia ou um impulso interno constante, empurrando a gente para buscar satisfação a todo custo.
A internet não atua como uma causa única e direta da ideação suicida, mas funciona como um fator de amplificação e aceleração de vulnerabilidades psicológicas que o adolescente já possui. Jovens em sofrimento psíquico tendem a buscar comunidades online onde encontram identificação.
O risco surge quando esses espaços, em vez de oferecerem suporte e acolhimento, passam a romantizar ou normalizar a dor. A exposição repetida a relatos detalhados de automutilação ou ideação suicida pode gerar um efeito de contágio social (historicamente conhecido na psicologia como “efeito Werther"). O jovem passa a enxergar o comportamento autodestrutivo como uma linguagem legítima ou uma saída válida para o seu próprio sofrimento.
A internet impõe padrões irreais de felicidade, estética e sucesso e, para um adolescente em fase de construção da identidade, a comparação constante com essas vidas "perfeitas" pode acentuar sentimentos de inadequação, rejeição e baixa autoestima. Quanto mais tempo eles passam imersos nas conexões virtuais, mais eles tendem a se isolar dos vínculos afetivos reais (família, amigos, escola), que são os principais fatores de proteção contra o desamparo psíquico. É por isso que o monitoramento do uso de telas é importante para garantir a proteção desse grupo.
Os adolescentes não irão verbalizar os pensamentos suicidas, mas eles darão sinais que muitas vezes não serão observados, ou serão negados e invalidados pelos adultos. Além, é claro, de construir canais de diálogo e escuta sem julgamento em família e na escola.
Se você perceber que há algo com seu/sua adolescente, acolha. Diga: "Eu estou aqui com você", não julgue, porque não cabe julgamento para uma dor que não está cabendo no peito.
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Existem canais de apoio emocional gratuito e sigiloso disponíveis a qualquer hora, como o Centro de Valorização da Vida (CVV) no Brasil (basta ligar 181 ou acessar o site https://cvv.org.br).
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
