A discrepância geográfica do SUS que decide o futuro de pacientes de câncer
Dependendo do seu CEP, a chance de conseguir uma cirurgia reparadora pode cair para menos de 18%; entenda o gargalo na saúde pública
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O Brasil avançou no reconhecimento legal do direito à reconstrução mamária, mas ainda enfrenta um grande desafio para transformar esse direito em realidade no Sistema Único de Saúde. Entre 2014 e 2024, apenas 17% das mulheres que realizaram mastectomia após câncer conseguiram fazer reconstrução mamária pelo SUS, segundo dados do Datasus divulgados.
Embora a legislação brasileira garanta desde 1999 o direito à cirurgia plástica reconstrutiva da mama após mastectomia por tratamento oncológico e, desde 2013, preveja que o procedimento seja realizado no mesmo ato cirúrgico sempre que houver condições clínicas, o acesso segue limitado e desigual.
Em 2024, o percentual nacional de reconstruções após mastectomia chegou a 39,3%, o maior já registrado. Ainda assim, o resultado permanece distante da cobertura ideal em muitas regiões do país. O crescimento foi puxado principalmente por Sul, Sudeste e Nordeste. No Norte e no Centro-Oeste, os percentuais máximos em 2024 ficaram em 20,7% e 17,8%, respectivamente.
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Para o cirurgião plástico Fernando Amato, a reconstrução mamária precisa ser compreendida como parte do tratamento integral do câncer de mama, e não como uma etapa secundária ou meramente estética.
“A reconstrução mamária tem impacto físico, emocional e social. Depois de uma mastectomia, muitas mulheres convivem com uma mutilação que afeta autoestima, imagem corporal, sexualidade e qualidade de vida. Quando a lei garante esse direito, mas a paciente não consegue acessá-lo, há uma quebra importante na continuidade do cuidado”, afirma Fernando Amato.
Dificuldades vão além da cirurgia
Entre os principais obstáculos estão a falta de insumos, como expansores e próteses, a limitação de equipes especializadas, a dificuldade de organização das filas e as diferenças regionais na capacidade de resposta da rede pública.
Segundo o especialista, a reconstrução pode ser feita no mesmo momento da mastectomia ou de forma tardia, dependendo das condições clínicas, do tipo de tratamento oncológico, da necessidade de radioterapia, da disponibilidade de estrutura e do desejo da paciente. O problema é que, em muitos casos, a decisão deixa de ser clínica e passa a ser determinada pela falta de acesso.
“Nem toda paciente poderá fazer a reconstrução imediata, mas toda paciente deveria ter avaliação, orientação e um plano de cuidado. O que não pode acontecer é a mulher terminar o tratamento oncológico e ficar anos sem perspectiva de reconstrução”, destaca.
Modelo de resposta
Diante desse cenário, o Projeto Mama Minha, idealizado por Fernando, surge como uma alternativa concreta para ampliar o acesso à reconstrução mamária. A iniciativa atende mulheres com deformidades mamárias, muitas delas em fila no Sistema Único de Saúde (SUS), e busca viabilizar cirurgias por meio de doações, parcerias institucionais, recursos públicos e privados, além do apoio de emendas parlamentares e da colaboração da equipe de Cirurgia Plástica do Hospital São Paulo e da Escola Paulista de Medicina. O atendimento é centrado na paciente, com orientação sobre etapas, expectativas e cuidados no pós-operatório.
O projeto já realizou mais de 120 cirurgias de reconstrução para mulheres que aguardavam no Sistema Único de Saúde (SUS). Mais do que oferecer a cirurgia, o modelo propõe triagem, orientação, cuidado humanizado e organização do fluxo assistencial.
“O Mama Minha nasceu para mostrar que é possível construir soluções. Quando há planejamento, parceria e equipe treinada, conseguimos reduzir filas, melhorar o acesso e devolver a essas mulheres algo que vai muito além da mama: autonomia, autoestima e dignidade”, explica o cirurgião plástico.
Um direito que precisa sair do papel
O levantamento também mostra que o Brasil ainda está distante de parâmetros internacionais. A Sociedade Europeia de Especialistas em Câncer de Mama considera 40% como padrão mínimo desejável de reconstrução mamária, com meta de 60%. Nos Estados Unidos, centros de mama credenciados trabalham com taxas entre 55% e 60%.
No SUS, apenas as regiões Sul e Sudeste se aproximaram desses patamares em 2024. Para Fernando Amato, a resposta passa por organização, financiamento, capacitação e modelos replicáveis de parceria.
“A reconstrução mamária não pode depender da sorte, do CEP ou da capacidade da paciente de judicializar o atendimento. Ela deve fazer parte da linha de cuidado do câncer de mama, com planejamento desde o diagnóstico”, afirma.
Segundo o especialista, essas iniciativas podem contribuir para ampliar a cobertura ao mostrar caminhos práticos: identificar pacientes represadas, padronizar fluxos, aproximar instituições, captar recursos e envolver equipes multidisciplinares.
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“Os dados mostram que existe uma demanda reprimida. O desafio agora é transformar informação em ação. Cada reconstrução realizada representa uma mulher que consegue seguir a vida com mais segurança, confiança e qualidade”, destaca Fernando Amato.