A ideia sustentável de levar as compras para casa em sacolas plásticas compostáveis e biodegradáveis não é tão ecologicamente correta assim em Belo Horizonte. Estudo feito pelo Laboratório de Ciência e Tecnologia de Polímeros do Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) indica que sacolas testadas na capital apresentam o mesmo percentual de polietileno – polímero usado na fabricação de embalagens de plástico – das convencionais. Pela lei municipal, que passou a valer em abril deste ano, somente as sacolas compostáveis e biodegradáveis poderiam ser oferecidas aos consumidores em BH. Elas são feitas de amido de milho, de mandioca ou batata, mas o trabalho tampouco identificou a presença de amido na composição dessas embalagens.
Vinte sacolas foram recolhidas aleatoriamente em supermercados, farmácias e padarias de BH e de cidades da região metropolitana. De início, a coleta já permite afirmar que ainda estão disponíveis no mercado embalagens proibidas pela lei. As amostras foram distribuídas em quatro grupos: compostáveis e biodegradáveis, convencionais, oxibiodegradáveis e recicladas. Os resultados preliminares do estudo, ao qual o Estado de Minas teve acesso, não permitem distinção entre os exemplares de um mesmo grupo de sacolas ou entre grupos distintos. Apenas uma embalagem, dita compostável e biodegradável, já apresentava indícios de degradação. A pesquisa aponta também que as amostras de sacolas oxibiodegradáveis, quando submetidas à queima, tiveram teor de cinzas extremamente elevado, sinalizando para a presença de aditivos inorgânicos que podem ser poluentes.
Segundo o coordenador do Grupo de Pesquisa em Géis e Polímeros da UFMG, professor Roberto Fernando de Souza Freitas, as embalagens foram submetidas ainda a raios infravermelhos para identificar seus elementos químicos e tipo de material, e análises térmicas para definir a temperatura de fusão (130 graus) e degradação (430 graus), esmiuçando os resíduos que sobram com aditivos. A pesquisa comprova que as amostras têm entre 85% e 90% de polietileno, que é um polímero. O indicativo era esperado para as embalagens convencionais, mas foi verificado também nas outras. “Não observamos diferença na composição química das sacolas dos quatro grupos de amostra. Ao final do trabalho, poderemos emitir um laudo e encaminhá-lo às autoridades, se for o caso, sugerindo a revisão da lei”, afirma.
Resíduos De acordo com o especialista, a queima do polímero produz cinzas que são altamente poluentes porque podem conter metal, entre outras substâncias e aditivos. Os resultados iniciais mostram que as sacolas oxibiodegradáveis têm o mesmo percentual de resíduos das sacolas tradicionais. Somente a amostra de sacola compostável que apresentava indícios de degradação registrou teor de cinzas menor, de 7 a 8%. As demais tiveram 15% de resíduos poluentes. “No caso da embalagem que apresentava sinais de degradação, não sabemos quando ela foi produzida e por isso não é possível afirmar se a degradação ocorreu pelo tempo, por falhas no processamento do polímero ou ausência de aditivos na proporção usada para ampliar a vida útil da sacola”.
O professor é contrário à Lei 9.529/2008, que restringe o uso das sacolas plásticas. Ele diz que os polímeros trouxeram mais qualidade de vida à população e que a proibição dessas embalagens não resolve o problema ambiental. Na opinião dele, os esforços do poder público deveriam se concentrar na conscientização sobre a forma de descarte inadequado desse material na natureza. “Ao propor a substituição das sacolas convencionais pelas biodegradáveis, a lei gera no imaginário das pessoas a falsa ideia de que as novas embalagens poderiam ser descartadas sem qualquer dano ao meio ambiente, o que não é verdade. Essas embalagens supostamente biodegradáveis são plásticos oxidegradáveis ou fragmentáveis, que recebem aditivos químicos para acelerar o processo de degradação”, afirma Roberto.
‘Catástrofe’ De acordo com o coordenador do Grupo de Pesquisa em Géis e Polímeros da UFMG, a degradação química promove uma poluição invisível, com a quebra dos sacos plásticos em milhares de pequenas moléculas que não desaparecerão na natureza. “Elas se transformarão em resíduos, em pó, e vão parar em leitos de rio, cursos d’água e permanecerão no solo. Com isso, esses resíduos de plásticos quimicamente tratados podem ser incorporados à nossa dieta e na dos animais. Do ponto de vista ambiental, é uma catástrofe”, diz o professor.
O trabalho ainda não foi finalizado. O universo das amostras será ampliado e também estão feitos testes de envelhecimento acelerado em uma câmara que simula as condições do meio ambiente, de temperatura, luz e poluição. As sacolas plásticas ainda devem ser enterradas. O estudo deve ser concluído até meados de 2012. O resultado inicial, porém, já surpreendeu o fisioterapeuta Gabriel Cordeiro, 33 anos, que fazia compras ontem em supermercado da capital. “Nunca tinha ficado em dúvida”, disse.
FIQUE ATENTOO QUE PODE SER USADOSacola biodegradável compostável: Feita de amidos (milho, mandioca ou batata) ou do bagaço de cana-de-açúcar. Não poluente e sem resquícios de toxicidade, a sacola tem decomposição natural no prazo de 180 dias sob determinadas condições de umidade e de luz.
Sacolas retornáveis: Feitas de tecidos, lonas, TNT, sisal ou plásticos, com espessura mínima de 0,3 mm. São resistentes e duráveis
Sacos plásticos transparentes: Usados para embalar frutas e verduras nos sacolões e carne nos açougues, não são citados na lei porque não têm finalidade de transporte
Saco de lixo biodegradável: Produzido com amidos ou bagaço de cana, tem prazo de decomposição de até 180 dias e substitui os sacos de lixo convencionais à base de petróleo. Resíduos finais resultantes nãosão danosos ao meio ambiente
O QUE NÃO PODE SER USADOSacola de plástico convencional: Produzida à base de petróleo, é descartável e tem tempo de decomposição de até 400 anos
Oxibiodegradável: Sacola plástica feita de polímero de petróleo que contém o aditivo D2W, que acelera a decomposição. O aditivo faz a sacola se separar em partes, mas o processo não ocorre naturalmente
Biodegradável compostável sem selo : Não tem a identificação de atendimento das normas da ABNT porque foi confeccionada antes da publicação do Decreto 14.367, no último dia 12, que exige o selo
Reciclada: Sacola de plástico descartável feita com sobras de produção e de plástico reciclado oriundo de catação. Geralmente é colorida (verde, amarela, vermelha ou preta), tem impurezas e resíduos tóxicos prejudiciais para o meio ambiente.
PONTO CRÍTICOA lei das sacolas biodegradáveis compostáveis é positiva?Marcus Vinicius Polignano, ambientalista, coordenador do Projeto Manuelzão da UFMGSIM
“Desde que a lei das sacolinhas foi sancionada, milhares de embalagens plásticas foram retiradas de circulação. Nosso modelo de consumo propicia conforto e comodidade, mas pouco se preocupa com o destino dessas sacolas e isso leva à degradação do meio ambiente. O jeito mais comum de reutilizar as sacolas plásticas é para jogar o lixo fora. A gente produz, consome e joga fora. Há sacolas plásticas, pilhas, pneus e material de computador. Se queremos ter sustentabilidade, teremos que abrir mão da comodidade. A sociedade precisa evoluir. Evitar o consumo de matéria-prima e o descarte de material que não é biodegradável é um exercício de cidadania. E cada um de nós pode ter atitudes mais significativas com o meio ambiente em nosso dia a dia. A prefeitura também precisa fazer sua parte e ampliar a coleta seletiva. Outra vertente para se discutir é a fiscalização. Os órgãos de certificação precisam qualificar produtos verdadeiramente com essas características. Senão, é malandragem da indústria”.
Roberto Fernando de Souza Freitas, coordenador do Grupo de Pesquisa em Géis e Polímeros da UFMGNÃO
“A lei tem equívocos básicos e tira o conforto do cidadão, banindo certos tipos de sacolinhas plásticas, mas isso não contribui em nada para a diminuição do impacto no meio ambiente. Os sacos transparentes usados para embalar frutas, carnes e peixes continuam disponíveis no mercado e eles têm a mesma composição química das outras embalagens. Além disso, a lei passa uma ideia de que você pode descartar as sacolas no meio ambiente por elas serem ecologicamente corretas, o que não é verdade. Os plásticos invadiram nossas vidas porque são mais leves, personalizáveis, impermeáveis, fáceis de processar em qualquer forma. Paradoxalmente, o que traz facilidade traz também um problema que só se desfaz entre 100 e 500 anos. Exatamente pela sua durabilidade, ele pode ser reciclado. As sacolas convencionais serviam para seu fim e uma possibilidade era melhorar sua qualidade para diminuir seu uso. O problema não é usar a sacolinha, mas a forma como descartá-la”.
Esta matéria tem: (9) comentários
Autor: Guilherme Freitas
Sra Lacerda é proprietária da empresa que fábrica essas sacolas, que abastecem o mercado de BH. rlxxx | Denuncie |
Autor: Flávio Rodrigues
Inclusive as sacolas com dizeres de compostagem apresentavam pesos muito baixos caracterizando adulteração na fabricação por conta de adição de polietileno na fabricação, ou seja, se submeter as sacolas ao ensaio EN13432 nenhuma deve passar. | Denuncie |
Autor: Flávio Rodrigues
Em visita em Belo Horizonte pude comprovar que realmente a maioria das sacolas são falsificadas ou houveram algum tipo de adulteração em sua fabricação, para comprovar é fácil, uma sacola feita de PLA tem o peso muito mais elevado que o polietileno e as que vi tinham peso de polietileno. | Denuncie |
Autor: Flávio Rodrigues
Uma das informações que não é passada sobre o uso dos PLA de amido é que eles não são recicláveis e não é biodegradável em ambiente de aterros sanitários. Estes materiais são biodegradáveis em usinas de compostagem e necessitam de oxigênio, temperatura entre outros fatores para que ele se decomponha. | Denuncie |
Autor: Fernando Figueiredo
Alo Paula, antes de publicar o que especialistas falaram sobre d2W que aliás é uma marca comercial, Vc. deveria ter entrado em contato com os responsáveis por ela, pois não existe absolutamente nada de verídico sobre d2w na matéria, os especialistas não entendem sobre d2w, é desconhecto ou má fé del | Denuncie |
Autor: maria ribeiro
que ignorante esse José resende. Dó do mundo se as decisões do que é importante ou não dependessem dele. A lei é obviamente estúpida e infelizmente é vendida cegamente como a solução dos problemas. | Denuncie |
Autor: Gustavo BHz
Agora pagamos 0,19 por uma sacola que na verdade não é ecológica assim e é de PÉSSIMA QUALIDADE. Qdo eu compro essa porcaria, ela não dura nem o tempo de eu chegar em casa com as compras. Rasga no meio do caminho. | Denuncie |
Autor: José Resende
É muito tempo que esses funcionários DO público tem, e estrutura de laboratórios para ficar enchendo o saco (inclusive literalmente para testar as sacolas) do povo. Usassem esses laboratórios para ajudar quem precisa, era melhor. | Denuncie |
Autor: jefferson almeida
Esta é mais uma lei idiota, para nós "idiotas" de BH. E essa idiotice está espalhando pelo Brasil. | Denuncie |