Oficialmente, Venda Nova e o Barreiro são distritos de Belo Horizonte. Na prática, mais se parecem com cidades de médio porte. No primeiro, a população é de 270 mil pessoas. No segundo, 281 mil. Boa parte dos moradores, agora, integra a chamada nova classe média. Resultado: tanto Venda Nova quanto o Barreiro foram invadidos por
megarredes do varejo nacional, bancos de diferentes bandeiras e shoppings. As antigas feiras populares, claro, continuam faturando. A expansão do crédito nas duas regiões é confirmada pela quantidade de financeiras ao longo das vias principais. As duas regiões são o tema da segunda reportagem da série Fora do eixo, que o Estado de Minas publica desde ontem.
O comércio explodiu em Venda Nova. O preço dos imóveis foi à altura. Grandes redes de magazines e lojas de departamento correram para lá. A principal rua do comércio vive apinhada de gente. A oferta de empregos é altíssima. Esse é o novo retrato da região, que exibe uma economia pulsante, agitada por uma população de 270.418 habitantes e 10.884 empresas. Somente no ano passado, a inauguração do Shopping Estação BH levou investimentos de R$ 215 milhões para a área. Entre as lojas âncoras que abriram as portas na Rua Padre Pedro Pinto, a principal do conglomerado de 42 bairros, estão Ricardo Eletro, Magazine Luiza, Marisa, Casas Bahia, Leader, Pernambucanas, Drogaria Araujo e Lojas Rede. Bons ventos também sopram em direção à economia do Barreiro.
A expansão da atividade comercial em Venda Nova foi impulsionada pela entrada da nova classe média no mercado e pelo anúncio da construção da Cidade Administrativa. Com o crescimento vigoroso, a população local, que antes era obrigada a ir ao Centro de BH para fazer compras, anda preferindo gastar o seu rico dinheirinho perto de onde mora. A diretora escolar aposentada Maria da Consolação Santos, a dona Neném, explica que nem sempre as pessoas compravam em Venda Nova.
“O pessoal não dava valor para as coisas daqui. Agora é diferente. Outro dia fui ao Centro de BH, estava vazio. Ao contrário, quando voltei, as ruas do Venda Nova estavam lotadas”, recorda. Por causa do grande movimento provocado pelas clínicas médicas que foram abertas na rua onde ela mora, dona Neném foi obrigada a aumentar a largura do portão de sua garagem. “É para facilitar a entrada. A via fica tão cheia de carros que é quase impossível entrar com o nosso”, explica a senhora, cliente dos grandes mazagines da região.
Só a Ricardo Eletro tem quatro lojas no distrito. A mais nova está no Shopping Estação BH. São, no total, 85 funcionários. De janeiro para cá, a estimativa é de que o fluxo de clientes está aumentando, em média, 12,5% ao mês. Segundo o presidente da bandeira Ricardo Eletro, Vinícius Hamzi, o Vetor Norte é hoje a região que apresenta maior crescimento em BH: “A nossa presença visa contribuir para o crescimento e desenvolvimento, gerando empregos e acesso mais fácil da população a bens de consumo antes restritos às regiões mais centrais da cidade”.
No ano passado, o empresário Elias Tergilene, proprietário do Uai Shopping, investiu
R$ 22 milhões na aquisição de um espaço reservado pela prefeitura aos camelôs. O local foi reestruturado e recebeu 280 boxes, mas já passa por ampliação e será novamente reformado, numa mexida que vai custar R$ 15 milhões. No piso inferior estão sendo abertas 180 lojas. No de cima, será instalada uma praça de alimentação para 16 restaurantes. O estacionamento também está sendo aumentado de 300 para 1,2 mil vagas. Isso sem contar a nova expansão, planejada para 2014, que deverá dobrar o tamanho do centro de compras.
O aumento do consumo no distrito levou Agmar Alves de Souza, dono da Renatec, especializada em tecidos, produtos para cama, mesa e banho, papelaria e brinquedos, a ampliar o quadro de funcionários, nos últimos cinco anos, de oito para 22. Ele pondera que a dificuldade é conseguir mais mão de obra: “A oferta de emprego é tão grande que somos obrigados a continuar trazendo funcionários de fora da região”. No Supermercado Dona Amélia, na Padre Pedro Pinto, o total de empregados aumentou 40% desde 2008. “A rede conta com oito lojas, mas a de Venda Nova está entre as três que mais vendem”, comemora o gerente, Marcelo Falcão Pires da Silva.
Paulo José Corrêa é proprietário da Leugim, do ramo de calçados, brinquedos, papelaria e confecção. Ele contratou, apenas nos últimos cinco anos, 10 empregados. “A Cidade Administrativa foi importante, pois valorizou a região. Quanto mais lojas, mais o comércio cresce e as pessoas acreditam mais.” (ZF)
Tudo na vizinhança
Édson Felipe, de 30 anos, não vai ao Centro de Belo Horizonte há quatro anos. “Para que, se encontro aqui no Barreiro tudo o que preciso? Até faculdades há (PUC Minas e UNA)”, justifica o rapaz, que trabalha como vendedor na movimentada Avenida Visconde de Ibituruna, onde há uma grande concentração de redes nacionais, como Ricardo Eletro, Ponto Frio, Magazine Luiza, O Boticário, Ortobom, entre outras. Perto de lá, na Afonso Vaz de Melo, essas e outras empresas loteiam o ViaShopping, empreendimento com quatro andares, 147 lojas e cinco salas de cinema, sendo uma em 3D. Ao todo, há 9.930 empresas na região.
Assim como Venda Nova, o Barreiro foi beneficiado pela explosão da chamada nova classe média. A multidão que frequenta tanto o shopping (cerca de 12 milhões de pessoas por ano) quanto as lojas de rua oferecem um aperitivo a mais para os empresários do varejo: a região recebe grande fluxo de moradores de cidades vizinhas, entre elas Sarzedo, Brumadinho e Ibirité. Nesta última, por exemplo, mora a dona de casa Ivete Mateus Botelho, de 56. Ela e o neto Guilherme, de 13, preferem enfrentar o ônibus lotado para fazer compras no Barreiro.
“É mais vantajoso porque aqui encontro tudo o que preciso em diversas lojas, e uma próxima à outra. E todas aceitam cartão”, resume dona Ivete, enquanto observa algumas peças de vestuário na Visconde de Ibituruna. Ela também é cliente do ViaShopping, engrossando uma estatística curiosa do mall: as mulheres são o principal público do local, representando 60% do fluxo de consumidores, que gastam, em média,
R$ 42, por visita que fazem a lojas como Marisa, Americanas, Casas Bahia, Habib’s, Leitura, McDonald’s, Centauro e C&A.
Lojas de rua, como a CD Shopping, especializada em instrumentos musicais, também comemoram o avanço financeiro da nova classe média. O gerente do local, Guilherme Santos, estima aumento das vendas em 20%, no confronto entre 2013 e 2012. “Aumentamos o quadro de colaboradores em 30% ao longo dos últimos três anos. O maior poder aquisitivo das pessoas permite que os pais presenteiem os filhos com violões e outros instrumentos musicais”, avalia.
CRÉDITO A CD Shopping funciona na Visconde de Ibituruna, onde há duas financeiras no mesmo quarteirão. A presença delas reforça que o crédito anda em alta na capital mineira, onde 70% do Produto Interno Bruto (PIB) é sustentado pelo comércio e serviços. Dona Ivete, a moradora de Ibirité, disse que não precisou recorrer às financeiras, mas o vaivém de pessoas nas duas lojas sinaliza que muitos consumidores da região podem ter comprometido parte da renda com compras parceladas.
A educação financeira não é tarefa fácil. No Barreiro, motociclistas ganham a vida percorrendo as ruas com caixa de som propagandeando o crédito oferecido por financeiras. O mesmo ocorre em Venda Nova, onde, assim como no Barreiro, um dos problemas recorrentes é a presença de camelôs. O Código de Postura da cidade proíbe a atividade, desrespeitada em ambos os distritos de BH. (PHL)
