Turismo sustentável de valor

Peça licença antes de pisar o solo sagrado de Fernando de Noronha

Em um dos santuários naturais mais preciosos do Brasil, o futuro do turismo depende menos de multidões e mais de experiências que respeitem a natureza, valorizem a cultura local e deixem benefícios para quem vive na ilha

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Há lugares em que a natureza parece falar uma língua que a gente ainda não aprendeu a traduzir. Em Fernando de Noronha, o silêncio das primeiras horas da manhã, o movimento das marés, a força do vento e a imensidão do oceano despertam uma sensação difícil de explicar: a de estar diante de algo que ultrapassa a paisagem. Para muitos, existe uma espiritualidade que atravessa o arquipélago, um convite à contemplação, ao recolhimento e à reconexão com a própria essência.

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Talvez por isso conhecer Noronha exija mais do que arrumar as malas e escolher os passeios. Exija presença, respeito e humildade. Antes de pisar esse solo, é preciso pedir licença — à natureza, à história e à energia que tantas pessoas encontram nesse território insular. Afinal, em um lugar onde a vida pulsa em equilíbrio tão delicado, viajar também pode ser um exercício de consciência.





Essa relação com o território ajuda a compreender por que o crescimento do turismo em Noronha precisa seguir uma lógica diferente daquela adotada por destinos que buscam ampliar continuamente o número de visitantes. Em um arquipélago de espaço limitado, ecossistemas protegidos e desafios próprios de uma ilha, crescer não pode significar simplesmente receber mais gente. A pergunta que orienta o futuro do turismo é outra: como transformar cada viagem em uma experiência mais significativa, capaz de gerar benefícios econômicos sem comprometer aquilo que faz do lugar um patrimônio natural tão especial?


É nesse contexto que ganha força o conceito de turismo de valor. Mais do que contabilizar chegadas, a proposta considera o tempo de permanência, a qualidade da experiência, o gasto dos visitantes e, sobretudo, a capacidade de fazer com que os recursos movimentados pelo turismo alcancem os diferentes segmentos da economia local.


Em Fernando de Noronha, essa reflexão não é apenas uma tendência de mercado. É uma necessidade. A própria legislação do arquipélago prevê que o desenvolvimento turístico considere as limitações geográficas, ambientais, logísticas e de infraestrutura. A Taxa de Preservação Ambiental (TPA), calculada de acordo com o período de permanência, tem entre suas finalidades o financiamento de ações relacionadas à preservação dos ecossistemas, à manutenção das condições de acesso aos atrativos e a melhorias para moradores e visitantes.


Para Hayrton Almeida, presidente do Fernando de Noronha Convention & Visitors Bureau (Visite Noronha), o caminho está em qualificar o turismo, em vez de perseguir o crescimento a qualquer custo.


“Fernando de Noronha tem características que exigem uma visão diferente sobre o crescimento turístico. Nosso objetivo não deve ser simplesmente receber cada vez mais pessoas, mas fazer com que cada visitante tenha uma experiência melhor, permaneça mais tempo, conheça diferentes serviços e experiências e, consequentemente, movimente de maneira mais ampla a economia da ilha. Quando qualificamos o turismo, conseguimos gerar valor para o visitante, para as empresas e para quem vive no destino”, afirma.



O verdadeiro valor de uma viagem



O impacto econômico de uma viagem a Noronha vai muito além da diária de uma pousada ou da fotografia feita diante de uma praia paradisíaca. Ele se espalha por restaurantes, bares, passeios de barco, mergulhos, serviços de receptivo, guias, transfers, comércio, artesanato e experiências ligadas à gastronomia, ao bem-estar e à conservação ambiental.


A proposta de ampliar esse valor não significa, necessariamente, encarecer o destino. Significa oferecer mais possibilidades para que o visitante conheça a ilha em profundidade, descubra outros caminhos além dos cartões-postais e consuma serviços que também fortaleçam os negócios locais.


Uma estadia mais longa, acompanhada de um roteiro diversificado, pode representar oportunidades para diferentes profissionais e empreendedores. É nessa circulação de recursos que o turismo se transforma em renda, trabalho e perspectivas para a comunidade.


Noronha tem muito mais a oferecer do que as imagens que percorrem o mundo. Há o universo submerso dos mergulhos, a riqueza da gastronomia, os passeios embarcados, as histórias de quem construiu sua vida no arquipélago e as iniciativas dedicadas à conservação de um patrimônio natural compartilhado por todos.


“Quando conseguimos fazer com que o visitante descubra que Noronha é muito mais do que suas praias mais famosas, abrimos uma série de possibilidades. Ele pode mergulhar, fazer passeios, experimentar a gastronomia local, conhecer projetos ambientais, consumir produtos da ilha e viver experiências diferentes ao longo da viagem. Isso aumenta a percepção de valor do destino e faz com que os benefícios econômicos do turismo sejam distribuídos por uma cadeia muito maior”, acrescenta Hayrton.


A experiência mais valiosa, nesse sentido, não é necessariamente aquela que custa mais. É a que cria vínculos, respeita os limites do território e permite que a viagem deixe boas lembranças para quem chega e benefícios concretos para quem permanece.


Hospitalidade também é preservar



Além das praias urbanas e selvagens, como Porto de Galinhas (eleita uma das mais belas do Brasil), o estado abriga o arquipélago de Fernando de Noronha (foto), um paraíso ecológico e destino turístico internacional.

Além das praias urbanas e selvagens, como Porto de Galinhas (eleita uma das mais belas do Brasil), o estado abriga o arquipélago de Fernando de Noronha (foto), um paraíso ecológico e destino turístico internacional. Divulgação Governo de Pernanbuco


Em um destino cuja principal riqueza está na natureza, qualidade turística e responsabilidade ambiental precisam caminhar juntas. O cuidado no atendimento, a segurança, a infraestrutura, a informação oferecida ao visitante e a profissionalização dos serviços são elementos que influenciam a percepção de qualidade e a competitividade de Noronha.


Mas existe uma dimensão que vai além do conforto: a consciência de que visitar um ambiente protegido exige responsabilidade. Respeitar as regras dos atrativos, seguir as orientações dos profissionais, evitar interferências na fauna e compreender a fragilidade dos ecossistemas fazem parte da experiência.


Essa preocupação também está presente na gestão das áreas protegidas. Em 2025, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) avançou na adoção de instrumentos voltados à qualificação da visitação e à melhoria da experiência nas unidades de conservação federais. No Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, pesquisas periódicas de satisfação ajudam a acompanhar a percepção dos visitantes, incluindo levantamentos realizados em 2025.


A infraestrutura de chegada também integra esse esforço de qualificação. Inaugurado em maio de 2026, o novo terminal do Aeroporto de Fernando de Noronha recebeu cerca de R$ 63 milhões em investimentos privados. A área passou de aproximadamente mil para mais de 2,8 mil metros quadrados, com melhorias nos espaços de check-in, embarque, inspeção de segurança e restituição de bagagens.


Em 2025, o aeroporto movimentou mais de 376 mil passageiros, considerando embarques e desembarques. O número dimensiona a relevância do turismo para a ilha e reforça a necessidade de conciliar a circulação de pessoas com planejamento, infraestrutura adequada e proteção ambiental.


Uma ilha, muitas experiências



Além dos portugueses, os holandeses, franceses e italianos visitaram a ilha. Portugal só mostrou interesse novamente por Fernando de Noronha em 1737.

Além dos portugueses, os holandeses, franceses e italianos visitaram a ilha. Portugal só mostrou interesse novamente por Fernando de Noronha em 1737. Divulgação Governo de Pernanbuco


Para que o turismo de valor se torne realidade, a promoção do destino também precisa acompanhar essa mudança de perspectiva. É necessário apresentar Noronha não apenas como cenário de praias extraordinárias, mas como um conjunto de experiências, serviços, histórias e encontros que merecem ser descobertos com tempo e respeito.


Nesse trabalho, o Fernando de Noronha Convention & Visitors Bureau (Visite Noronha) busca aproximar os diferentes segmentos da cadeia turística, fortalecer a promoção do arquipélago e ampliar o relacionamento com agentes de viagens, operadores, imprensa e mercados emissores.


As iniciativas incluem capacitação, participação em feiras, roadshows, relacionamento com o trade e divulgação dos produtos e serviços oferecidos pelas empresas locais. A intenção é ampliar o conhecimento sobre a diversidade da ilha e estimular uma comercialização que valorize experiências capazes de prolongar a estadia e distribuir os benefícios econômicos entre mais negócios.


Para Hayrton, essa mudança exige também uma nova maneira de medir o sucesso do destino.


“Durante muito tempo, o turismo brasileiro celebrou principalmente o número de visitantes. Claro que o fluxo continua sendo um indicador importante, mas, para Noronha, precisamos olhar além. Quanto tempo esse turista fica? Quantas experiências ele vive? Quantos negócios são beneficiados por sua viagem? Como ele avalia o destino e com que percepção retorna para casa? É esse conjunto de indicadores que pode nos mostrar se estamos crescendo de maneira saudável”, destaca.


Antes de chegar, é preciso compreender



Tubarão-lixa

Fernando de Noronha (PE) Global_Pics de Getty Images Signature


Fernando de Noronha desperta o desejo de conhecer, fotografar e compartilhar. Mas talvez sua maior lição esteja justamente naquilo que não cabe em uma imagem: a compreensão de que a natureza não existe para atender a todas as nossas vontades e de que certos lugares exigem uma relação mais cuidadosa com quem os habita.


Pedir licença antes de pisar esse solo sagrado é reconhecer que a beleza da ilha não é um recurso inesgotável. É entender que o turismo só faz sentido quando a experiência do visitante não se sobrepõe à preservação ambiental nem apaga a importância da comunidade local.


O futuro de Noronha pode estar menos na quantidade de pessoas que atravessam o arquipélago e mais na qualidade das relações que cada viagem estabelece. Um turismo que valoriza a permanência, fortalece a economia local, respeita os limites ambientais e transforma a visita em uma experiência de consciência e pertencimento.


Talvez seja esse o maior aprendizado que a ilha oferece: diante de tamanha beleza, não somos donos da paisagem, mas convidados a contemplá-la. E todo convite exige respeito.


Porque conhecer Fernando de Noronha é um privilégio. Ajudar a mantê-la extraordinária é uma responsabilidade compartilhada.




Sobre o Visite Noronha

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O Fernando de Noronha Convention & Visitors Bureau (Visite Noronha) é uma iniciativa de promoção turística do arquipélago. Atua na divulgação dos atrativos naturais, culturais e das experiências oferecidas pela ilha, além de fortalecer o relacionamento com o trade nacional e internacional. Com foco em sustentabilidade, qualidade dos serviços e hospitalidade, trabalha em parceria com empresas e lideranças locais para posicionar Fernando de Noronha como referência em turismo responsável durante todo o ano.


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