Há lugares que conquistam pela paisagem. Outros, pelo aroma que escapa da cozinha e desperta lembranças adormecidas. Em Lagoa Santa, um novo espaço promete reunir as duas experiências. De frente para a Lagoa Central, um dos cartões-postais mais encantadores da cidade, a Casa da Orla inaugura, no próximo sábado, 1º de agosto, às 10h, o Café Gamela, um convite irresistível para quem acredita que a melhor gastronomia é aquela capaz de emocionar.

O nome já revela sua essência. A gamela, tradicional recipiente de madeira presente nas cozinhas do interior de Minas Gerais, simboliza partilha, ancestralidade e encontros à mesa. É exatamente esse espírito que a cozinheira Vanda Valentim leva para o novo café: transformar cada receita em uma viagem pelas memórias afetivas.

Sua trajetória combina técnica e tradição. Vanda estudou gastronomia no Centro Europeu, uma renomada escola de Curitiba, e aperfeiçoou seu talento como assistente do chef de cozinha do Hotel Pestana, em Salvador. Mas foi muito antes da vida profissional que nasceu sua verdadeira escola: a cozinha da avó, onde aprendeu que os melhores ingredientes são o tempo, o cuidado e o amor colocado em cada preparo.

Homenagem às mulheres

O Café Gamela vai oferecer na Casa da Orla, em Lagoa Santa, bolos, roscas, quiches, broas e biscoitos caseiros

Carlos Altman/EM

Para Vanda, o novo espaço representa muito mais do que uma realização profissional. "A minha expectativa aqui na Casa da Orla é representar as mulheres mineiras que construíram essa cozinha", afirma.

Ela conta que sua relação com a culinária começou ainda na infância, observando a avó, a mãe e as amigas da família. "Desde criança eu cresci com a minha avó, com a minha mãe, com as amigas delas, cozinhando com sentidos. Quando fui estudar gastronomia, percebi que aquelas mulheres, sem saber ler ou escrever e sem conhecer técnicas acadêmicas, já faziam tudo aquilo que eu aprendia na escola."

Esse choque de realidade a fez repensar sua trajetória. "Eu não consegui me adaptar nessa cozinha moderna. Resolvi voltar para aquilo em que acreditava: a cozinha com sentidos."

Foi então que iniciou uma verdadeira pesquisa pelas raízes da culinária mineira, buscando as pessoas que ainda preservavam os saberes tradicionais. "Procurei quem fazia o melhor pão de queijo, a mulher que fazia a rosquinha, e fui pesquisando como essas mulheres conseguiram construir essa cozinha através dos sentidos."

Segundo Vanda, a essência da cozinha mineira está justamente nesse conhecimento transmitido pela experiência. "Elas observavam que, quando as mãos estavam limpas, a massa já estava no ponto. Não tinha termômetro nem relógio; quando o aroma tomava conta da casa, era porque o bolo já estava assado."

Ela acredita que essas mulheres foram as verdadeiras protagonistas da gastronomia de Minas, mas permaneceram invisíveis ao longo da história. "Eu quero mostrar para Minas, para o Brasil e para o mundo inteiro que foram elas que construíram essa cozinha. Elas ficaram esquecidas e não são representadas como deveriam."

Essa homenagem estará presente em cada receita servida no Café Gamela. "Toda semana quero trazer novidades, aquelas comidas que a gente comia antigamente. Esse é o meu propósito aqui."

Mais do que servir cafés, quitandas, broas, rosquinhas e o tradicional pão de queijo, o Café Gamela pretende oferecer uma experiência de pertencimento, onde cada sabor carrega uma história e cada receita presta homenagem às mulheres que, com sensibilidade, criatividade e afeto, transformaram ingredientes simples em uma das cozinhas mais admiradas do mundo.




Sabores de Minas

No Café Gamela, a sofisticação não aparece em pratos elaborados apenas para impressionar. Ela está na simplicidade executada com excelência. Está na broa de fubá que perfuma o ambiente, na rosca dourada que chega ainda morna à mesa, no empadão de massa delicada e recheio generoso, nas quiches artesanais, nos bolos recém-saídos do forno, nos biscoitos preparados um a um e nas quitandas que fazem parte da identidade gastronômica mineira.

O café coado na hora completa a experiência. A cada xícara servida, o visitante é convidado a desacelerar, observar o movimento tranquilo da Lagoa Central e perceber que luxo, muitas vezes, é simplesmente encontrar tempo para uma boa conversa acompanhada de sabores que contam histórias.

A proposta do Café Gamela vai além da gastronomia. O espaço nasce como uma celebração da cozinha afetiva, resgatando receitas que atravessaram gerações e valorizando um patrimônio imaterial que faz de Minas Gerais um dos destinos mais desejados do país quando o assunto é comer bem. Em um momento em que experiências autênticas são cada vez mais valorizadas pelos viajantes, o novo café surge como uma parada obrigatória para quem visita Lagoa Santa e também para os moradores que desejam reencontrar o sabor da infância.

Difícil será escolher entre tantas delícias. Mais difícil ainda será ir embora sem levar consigo a lembrança daquele cheiro de bolo assando, do café recém-passado e da sensação acolhedora de estar, por alguns instantes, na cozinha da casa da avó.

Serviço:

No próximo sábado, 1º de agosto, a partir das 10h, a Casa da Orla abre suas portas para receber o público. Avenida Getúlio Vargas, 1732, Bairro Joana D'Arc.

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