Destino de Inverno

Refúgio nas montanhas: Campos do Jordão vive o encanto da temporada fria

Entre temperaturas baixas, gastronomia afetiva, música clássica e paisagens cercadas por araucárias, a cidade mais alta do Brasil recebe milhares de visitantes

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A neblina avança lentamente pela Serra da Mantiqueira, envolvendo as araucárias e apagando, por alguns instantes, os contornos das montanhas. O frio desenha fumaça sobre os telhados, as luzes começam a se acender e, ao longe, o som de uma lareira crepitando parece anunciar a chegada da noite.

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Em Campos do Jordão, o inverno não entra em cena discretamente. Ele ocupa a paisagem, transforma o ritmo da cidade e desperta uma coleção de sensações: o aroma do chocolate quente, o vinho servido à mesa, o calor que envolve depois de um dia gelado e o silêncio das montanhas quando a neblina toma conta da serra.

A cerca de 1.700 metros de altitude, na cidade mais alta do Brasil, milhares de visitantes chegam em busca dessa atmosfera que mistura natureza, cultura, gastronomia e o imaginário dos Alpes. Conhecida como a “Suíça Brasileira”, Campos do Jordão se revela, durante a alta temporada, como um cenário onde cada detalhe parece cuidadosamente composto.

Celebração de afetos

Campos do Jordão foi o local escolhio para comemorar o aniversário da farmacêutica mineira Claudineia Faustino em família
Campos do Jordão foi o local escolhio para comemorar o aniversário da farmacêutica mineira Claudineia Faustino em família Júlia Alfa/Arquivo Pessoal

A atmosfera de Campos do Jordão também transforma viagens em família em lembranças que permanecem. Foi o que viveu a mestranda em Letras Júlia Alfa, que escolheu a cidade para celebrar o aniversário da mãe, Claudineia Faustino, ao lado do pai, Robson Faustino, e de Augusto Faustino.

Campos do Jordão foi um cenário perfeitamente mágico para a comemoração do aniversário da minha mãe. Estávamos todos encantados e felizes, aproveitando muito o chocolate quente e o frio congelante da Serra da Mantiqueira. Tenho certeza de que foi um aniversário que minha mãe nunca esquecerá, assim como o restante da família”, conta Júlia.

Entre paisagens envoltas pela neblina, noites geladas e os sabores que marcam a temporada, a viagem ganhou um significado ainda mais especial. Mais do que conhecer um dos destinos de inverno mais procurados do Brasil, a família encontrou em Campos do Jordão o cenário ideal para celebrar afetos, compartilhar experiências e transformar uma data importante em uma memória inesquecível.

Festival de inverno

As ruas no entorno da Vila Capivari se enchem de famílias, casais e viajantes que encontram no clima gelado o convite perfeito para desacelerar e aproveitar os pequenos prazeres do inverno. Nas cafeterias e restaurantes, o aroma do chocolate quente se mistura ao perfume das lareiras acesas. Fondue, vinhos, queijos e receitas que valorizam a gastronomia de montanha fazem parte de uma experiência que vai muito além das baixas temperaturas. À noite, quando os termômetros caem ainda mais, o frio se torna parte do cenário e transforma cada passeio em uma lembrança especial.

A arquitetura inspirada nos Alpes, as construções em estilo enxaimel, as araucárias e as montanhas cobertas pela neblina ajudam a explicar por que Campos do Jordão recebeu o apelido de “Suíça Brasileira”. Mas a cidade também possui identidade própria e, durante o inverno, reforça sua vocação cultural com o tradicional Festival de Inverno de Campos do Jordão.

Considerado um dos mais importantes eventos de música clássica da América Latina, o festival leva concertos e apresentações a diferentes espaços da cidade, aproximando o público de grandes músicos e transformando praças, auditórios e palcos em encontros entre arte, cultura e natureza.

Um castelo entre as montanhas 

Desde 1943, o casarão de estilo bávaro, onde se encontra o Hotel Ort, guarda histórias no coração da Serra da Mantiqueira
Desde 1943, o casarão de estilo bávaro, onde se encontra o Hotel Ort, guarda histórias no coração da Serra da Mantiqueira Carlos Altman/EM

Em uma área preservada, cercado por uma extensão generosa de verde, o Berg Hotel Ort surge como uma interpretação contemporânea do refúgio de montanha. Sua arquitetura, marcada por referências aos castelos e chalés europeus, cria uma presença imponente sem se afastar da paisagem. Ao contrário: o hotel parece ter sido construído para dialogar com ela.

Entre jardins, árvores e caminhos que conduzem a diferentes experiências, o olhar encontra novas perspectivas a cada percurso. A imponência da construção contrasta com a delicadeza do entorno, enquanto o verde preservado cria uma sensação de isolamento — mesmo estando a poucos minutos do movimento da cidade.

É um lugar onde a hospedagem deixa de ser um intervalo entre passeios e assume o papel principal da viagem. A chegada é marcada por uma mudança de ritmo. O som da cidade fica distante, a paisagem ganha espaço e o tempo parece seguir outra lógica. Não há urgência. Há o convite para permanecer.

Pela primeira vez em Campos do Jordão, o artista plástico mineiro Aluízio Figueiredo se encantou com a estrutura do Hotel Ort: “é um refúgio de silêncio no meio da natureza. Sem contar que cada canto do hotel, seja na parte externa ou no jardim, nos deparamos com uma obra e arte. Sinto que estou visitando uma versão mini do Instituto Inhotim. Um paraíso que encanta pelo olhar, pela gastronomia requintada e onde respiro o ar puro. Com certeza, vou voltar sempre”, admira Aluízio.

Pela primeira vez em Campos do Jordão, o artista mineiro Aluízio Figueiredo se encantou com as obras de artes espalhadas pelo Hotel Ort
Pela primeira vez em Campos do Jordão, o artista mineiro Aluízio Figueiredo se encantou com as obras de artes espalhadas pelo Hotel Ort Carlos Altman/EM
 

Uma história que começa em 1943

Na recepção do Hotel Ort, o aconchego começa antes mesmo do check-in
Na recepção do Hotel Ort, o aconchego começa antes mesmo do check-in Carlos Altman/EM

No coração da Serra da Mantiqueira, em plena Área de Proteção Ambiental de Campos do Jordão, o Berg Hotel Ort une tradição europeia, natureza exuberante e hospitalidade contemporânea. O empreendimento ocupa cerca de 40 mil m² de área, com araucárias centenárias, jardins cuidadosamente desenhados, hortas e até um vinhedo experimental (Weinberg), formando um verdadeiro refúgio de montanha.

A história do hotel remonta a 1943, quando foi inaugurado como Orotour. Naquela época, a Segunda Guerra Mundial impedia as elites brasileiras de viajar para a Europa. Campos do Jordão, a cidade mais alta do Brasil e uma das mais frias de São Paulo, ganhou impulso como polo turístico de estética e clima europeus. O casarão em estilo bávaro alemão — com telhados inclinados, madeira e pedras — tornou-se um dos endereços tradicionais de hospedagem na região.

Décadas depois, o imóvel foi arrematado em leilão em 2020 pelo empresário Fábio Burg. Entre aquisição e reforma, o investimento chegou a cerca de R$50 milhões. A revitalização (concluída entre 2020 e 2021) preservou a essência arquitetônica original e o patrimônio ambiental, ao mesmo tempo em que modernizou os interiores com design contemporâneo, tons sóbrios e conforto de alto padrão. Nascia o Ort, que resgatou o charme histórico e o elevou a um destino de lifestyle, wellness e gastronomia.

Lar que acolhe

Denize Oliveira é uma apaixonada pela natureza e ajudou no conceito de bem-estar do Hotel Ort
Denize Oliveira é uma apaixonada pela natureza e ajudou no conceito de bem-estar do Hotel Ort Carlos Altman/EM

Essa transformação é vividamente lembrada por Denize Oliveira, moradora de São Paulo e apaixonada pelo lugar desde os tempos do antigo Orotour. Frequentadora fiel, ela costumava passar o Ano-Novo e o mês de julho (quando comemora o aniversário) no hotel, além de outras visitas ao longo do ano. A gerente de projetos de uma grande construtora relembra o momento em que percebeu a necessidade de mudança:

Eu já frequentava o Orotour antigamente, e no final de 2019 passei o Ano-Novo aqui e percebi que estava muito mais decadente. As coisas estavam piorando bastante, o hotel já estava velho, precisando de reforma… havia um certo desleixo, digamos assim. Eu senti que as coisas estavam bem largadas naquele Ano-Novo. Não foi bom como os outros”.

“Logo em março de 2020 começou a pandemia e a gente perde um pouco o fio da meada das coisas. Mas quando chegou julho, já havia lockdown, e precisa sair de São Paulo e ir para um lugar seguro. Aí liguei aqui na época, falei: ‘olha, eu quero ir’, porque meu aniversário é no começo de julho e eu costumo passar aqui também. Eu vim… ainda estava em reforma, ainda tinha umas finalizações, porque eu nem sabia. Eu sabia que tinha sido vendido, mas o Fábio já tinha entrado reformando tudo. Quando eu cheguei, ainda estavam finalizando essas reformas e eu falei…”

A paixão de Denize pelo Hotel Ort transcende as mudanças físicas. Ela destaca o bem-estar de estar cercada pela natureza exuberante da Serra da Mantiqueira e o carinho do atendimento que recebe a cada visita. Para ela, o local continua sendo um refúgio onde o tempo desacelera, a paisagem acalma e o acolhimento faz a diferença. 

Hóspede frequente, Denize conhece o local desde antes da mudança de gestão, conta como a transformação foi decisiva. Ela conta que, ao conversar com Fabio Burg, pôde apontar deficiências que vivenciava como visitante assídua: falta de lugares para sentar no jardim, aquecedores, cobertinhas e melhor iluminação. “Ele não é orgulhoso, não acha que sabe tudo. Ele escuta o que as pessoas falam, o que os hóspedes gostam, o que faz as pessoas felizes, e também os próprios funcionários quando dão boas ideias. Ele acata essas ideias”, relata. Para ela, a melhoria foi de 100%: o que estava “muito surrado e velho” ganhou vida nova, especialmente o jardim, antes subaproveitado.

Na minha opinião, é o jardim mais bonito de Campos do Jordão, sem dúvida nenhuma. Eu conheço toda essa cidade. A gente não tinha lugar pra sentar, eram poucos bancos, à noite fechava, não tinha muita iluminação. Passou a ter conforto, aquecimento, lugares pra sentar, poder beber, acender uma fogueirinha, um fogo de chão. Pra mim, meu amor por esse jardim foi maravilhoso, como ganhar um presente. É o lugar que eu mais gosto de ficar no mundo”, afirma com entusiasmo.

O Hotel Ort é o tipo de lugar que conquista hóspedes fiéis como Denize: pessoas que voltam não apenas pela estrutura, mas pela sensação de pertencimento, pelo contato genuíno com a natureza e pelo cuidado humano que transforma a estadia em memória afetiva. Um clássico que renasceu sem perder a essência — e que continua a encantar quem, como Denize Oliveira, carrega o Ort no coração.



Acomodações: do clássico aos chalés privativos

O complexo oferece cerca de 60 acomodações no edifício principal e sete chalés privativos Berg Haus, com até 180 m². Os espaços combinam estilo rústico-chique com sofisticação: madeira, lareiras (em várias unidades), piso aquecido nos banheiros, aquecedor de toalhas, roupas de cama importadas, climatização, televisores e automação em alguns ambientes. 

Os Berg Haus, localizados em áreas mais privativas, funcionam como verdadeiras casas de montanha, com suítes, salas de convivência, cozinhas integradas (em alguns casos com opção de personal chef), decks, jardins exclusivos e lareiras externas. Há opções pet-friendly e unidades ideais tanto para casais quanto para famílias ou grupos.

Restaurantes e gastronomia

Robalo grelhado sobre mousseline de coco e tartare de banana do restaurante Küche, do Hotel Ort
Robalo grelhado sobre mousseline de coco e tartare de banana do restaurante Küche, do Hotel Ort Carlos Altman/EM

A proposta gastronômica é um dos pilares do Ort. O Küche, restaurante principal, serve café da manhã em formato buffet (com opções à la carte) e um cardápio inspirado na Europa Ocidental — influências austríacas, alemãs, suíças e italianas —, com pratos elaborados por chefs como Edmar Mendonça. 

A Ôpa destaca-se pelas pizzas de fermentação natural no forno a lenha e pelas puccias (sanduíches italianos da região de Puglia). Há ainda o Eins, com menu degustação de alto nível, o Bar Musik (com coquetéis, carta de vinhos e atmosfera sofisticada) e experiências como fondue, Arte de Fogo e o histórico Fogo de Chão. Não-hóspedes são bem-vindos mediante reserva.

Piscinas e bem-estar

Piscina coberta e aquecida é um diferencial do Hotel Ort, em Campos do Jordão
Piscina coberta e aquecida é um diferencial do Hotel Ort, em Campos do Jordão Carlos Altman/EM

O hotel conta com duas piscinas aquecidas: uma externa (espaço Natur, exclusivo para adultos, revestida de pedras e integrada à natureza) e outra interna coberta e climatizada (água em torno de 36 °C no inverno), acompanhada de saunas seca e úmida com vista para a piscina e hidromassagem/jacuzzi. 

O Pureté Spa (ou Berg Spa) oferece tratamentos de renovação, massagens com pedras quentes e terapias de rejuvenescimento em ambiente sereno. Completam a estrutura de wellness a academia, aulas de yoga e pilates, sound healing e áreas de contemplação nos jardins.

Passeios, lazer e experiências

Espaço Natur, exclusivo para adultos, revestida de pedras e integrada à natureza
Espaço Natur, exclusivo para adultos, revestida de pedras e integrada à natureza Carlos Altman/EM

O Ort transforma a estadia em um destino completo. Na propriedade e nos arredores da Serra da Mantiqueira, as opções incluem:

- Trilhas contemplativas (Oben e Weg) e circuitos de aventura Berg Explora (arvorismo em araucárias, tirolesas e rapel).

- Passeios de UTV, mountain bike, bicicletas elétricas e a cavalo.

- Piqueniques no mirante, jardins ou vinhedo (incluindo nascer e pôr do sol).

- Observatório astronômico (Stern Observatorium).

- Para as crianças: Indoor Park climatizado, Spielplatz ao ar livre e fazendinha Tiere (com animais e monitores).

- Quadras de tênis de saibro e society, sala de cinema (Cine Ort com sessões públicas e privadas), sala de jogos, lareiras e espaços de convivência.

Muitas atividades de bem-estar e lazer fazem parte da experiência da hospedagem, enquanto outras (como circuitos de aventura) podem ser reservadas à parte.

Serviço:

Localizado na Rua Engenheiro Gustavo Kaiser, 165 – Vila Natal (cerca de 10 minutos da Vila Capivari), o Berg Hotel Ort equilibra memória histórica, luxo discreto e contato genuíno com a natureza. É um endereço que convida a desacelerar, reunir a família ou celebrar momentos especiais sem abrir mão do conforto e da sofisticação. Um clássico de 1943 que, revitalizado, continua a escrever sua história como um dos grandes refúgios de Campos do Jordão.

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