Reza a lenda que, em uma cidade do interior de Minas Gerais, existe a fonte da eterna juventude. Bastaria banhar-se em suas águas radioativas ou sulfurosas para retardar o relógio do tempo e despertar no corpo o poder milagroso de cura e renovação.
Essa cidade é Araxá, na Região do Alto Parabaíba, a apenas 370 km de Belo Horizonte. Guarda até hoje o mito de uma mulher que, no século 19, desafiou toda a sociedade conservadora da época e transformou dor em poder: Dona Beja.
Ana Jacinta de São José, a famosa cortesã, viveu em Araxá com uma beleza estonteante mesmo após os 60 anos. Invejada pelas mulheres e desejada pelos homens, ela foi chamada de bruxa, sedutora perigosa ou até divindade. Em uma época em que as mulheres deviam ser silenciosas e submissas, Dona Beja ousou. Depois de enfrentar traição, violência e preconceito, ela decidiu se vingar da hipocrisia da sociedade construindo a Chácara do Jatobá — um bordel onde escolhia homens casados e poderosos em troca de joias, favores e fortuna.
Com inteligência e determinação, acumulou riqueza e influência, alimentando a lenda de que sua pele jovem e radiante vinha das águas termais e da famosa lama negra de Araxá. Hoje, o nome dela está eternizado na cidade: dá nome ao Museu Dona Beja, a uma fonte de águas termais no Grande Hotel e até a uma cachaça típica da região.
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Empoderada
Essa história de poder feminino — de uma mulher que transformou adversidade em liberdade e protagonismo — ganhou nova vida na telinha. A HBO Max lançou em fevereiro de 2026 a novela Dona Beja, estrelada por Grazi Massafera no papel principal. A produção é uma releitura contemporânea da clássica novela exibida em 1986 pela extinta TV Manchete, que foi protagonizada por Maitê Proença e se tornou um grande sucesso da teledramaturgia brasileira da época.
A nova versão traz uma abordagem mais atual. Escrita por Daniel Berlinsky e António Barreira e direção geral de Hugo de Sousa, a novela explora o empoderamento, desejo e vingança, mostrando uma mulher que não aceitou o destino imposto pela sociedade e decidiu escrever o próprio caminho. Grazi entrega uma performance intensa, cheia de coragem e sutileza, que tem emocionado o público.
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Águas que curam e rejuvenescem
Grande Hotel e Termas de Araxá, um castelo imponente no estilo colonial, inaugurado em 1944 por Getúlio Vargas
Pouca gente sabe, mas tudo em Araxá foi moldado pelas águas. O território começou a ser explorado no século 17 em busca de ouro, mas foi por volta de 1800 que o poder medicinal de suas fontes ganhou fama. As águas sulfurosas, de origem vulcânica, são ricas em enxofre e minerais. Já as radioativas contêm radônio, um gás nobre. Ambas atraem visitantes em busca de alívio para a saúde, relaxamento e, claro, aquela sensação de que o tempo pode, sim, ser gentilmente retardado.
O grande ícone da cidade é o Grande Hotel e Termas de Araxá, um castelo imponente no estilo colonial, inaugurado em 1944 por Getúlio Vargas. Com nove pisos, salões luxuosos, jardins assinados por Roberto Burle Marx e localizado no Parque do Barreiro, o hotel abriga o maior spa de águas sulfurosas e radioativas do Brasil, além da famosa lama negra usada em tratamentos medicinais. É um convite ao relaxamento profundo em meio às serras mineiras.
Doces, cultura e facilidades para viajar
Araxá também conquista o paladar com seus doces tradicionais, feitos com doce de leite e frutas da região. A Dona Joaninha, no centro da cidade, abre as portas para visitas guiadas, onde é possível ver de perto o processo de fabricação e levar para casa uma lembrança deliciosa.
E para facilitar a chegada, a Azul Linhas Aéreas opera voos diretos de Confins (Belo Horizonte) para Araxá. A malha é ampla: de segunda a sábado, saídas às 18h de BH e retorno às 5h da manhã; aos domingos, voo noturno saindo de BH às 22h e de Araxá às 18h. Uma ótima conexão para quem quer explorar o Circuito das Águas de Minas Gerais com mais conforto. A localidade faz parte, desde 2021, do Circuito Turístico Nascentes das Gerais e Canastra.
Quem foi Dona Beja?
Dona Beja, cujo nome verdadeiro era Ana Jacinta de São José, nasceu em 2 de janeiro de 1800, em Formiga (MG). Ainda criança, mudou-se para Araxá com a mãe e o avô. Conhecida por sua beleza incomum, recebeu o apelido “Beja” do avô, que a comparava à doçura da flor do beijo.
Por volta dos 15 anos, em 1815, sua vida mudou drasticamente: ela foi raptada pelo ouvidor do rei, Joaquim Inácio Silveira da Motta, um homem poderoso fascinado por sua beleza. Durante a tentativa de resistência, seu avô foi morto. Ana Jacinta foi levada para Paracatu, onde viveu como amante do ouvidor por cerca de dois anos. Quando ele retornou à Corte, ela voltou para Araxá carregando o estigma de “mulher perdida” em uma sociedade extremamente conservadora.
Rejeitada pela elite local, Dona Beja transformou a dor em força e autonomia. Construiu a Chácara do Jatobá, acumulou fortuna, exerceu influência política (inclusive ajudando na Revolução Liberal de 1842) e viveu com independência até sua morte, em 1873, aos 73 anos, em Estrela do Sul (MG). Sua história real inspira até hoje como símbolo de resiliência e ousadia feminina em uma época de opressão.
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Se você busca um destino que une história, beleza natural, bem-estar e uma dose de empoderamento feminino que transcende o tempo, Araxá é o lugar certo. Lá, as águas curam o corpo, os doces adoçam a alma e a lenda de Dona Beja — agora revivida com força por Grazi Massafera na HBO Max — inspira a ousadia de viver com liberdade e autenticidade.
