Imagine acordar com o Sol nascendo sobre um mar que parece espelho, sem uma alma além da sua família e dos golfinhos que passeiam preguiçosos. Ou sentir o cheiro de ostras frescas misturado ao sal da brisa, enquanto uma avó manezinha conta, baixinho, a história das bruxas que viraram pedras por ousarem desafiar o diabo numa festa proibida. Essa é a Florianópolis que não aparece nos outdoors turísticos — a que os manezinhos protegem como um tesouro de família.

Em Floripa, "manezinho" (ou simplesmente "mané") não é xingamento como em boa parte do Brasil, onde significa tolo ou desavisado. É um apelido carinhoso, cheio de orgulho: vem do diminutivo afetivo de "Manuel" (Mané, Manoelzinho, Manezinho), nome super comum entre os colonizadores açorianos que chegaram à ilha por volta de 1700 e formaram a alma da cidade. Com o tempo, virou sinônimo de nativo florianopolitano — aquele jeito tranquilo, hospitaleiro, com sotaque cantado e rápido, raiz no falar ilhéu dos Açores. Ser manezinho é carregar a identidade da Ilha da Magia: o amor pelo mar, as tradições preservadas, o "tem, não tem?" e o "mô quirido" que só quem é lá entende de verdade. É motivo de festa no Dia do Manezinho (primeiro sábado de junho) e de orgulho eterno.

Em 2026, a ilha respira mais forte do que nunca: estimativa do IBGE 2025 aponta que a população da ilha está rumo aos 600 mil habitantes. A economia não para: PIB municipal na casa dos R$ 31,2 bilhões (uma das maiores do país), com tecnologia respondendo por 25% do faturamento e o turismo batendo recordes — a prefeitura projeta 3 milhões de turistas na temporada 2025/2026 (novembro a maio), quase cinco vezes a população fixa. Mas enquanto o agito domina Jurerê e a Beira-Mar, os manezinhos fogem para seus cantinhos secretos: praias de águas cristalinas onde as crianças brincam sem medo, vilas com sotaque português antigo, lagoas que refletem o céu e histórias que fazem o coração bater mais forte.

Destinos escondidos

Praia Mole com suas águas transparentes e areia escura Daniel Vianna/Mtur
Casario colonial português mostra a influência açoriana em Florianópolis Daniel Vianna/Mtur
Praia de Campeche é famosa pelo pouso de Saint-Exupéry no local Caio Vilela/Mtur
Praia dos Ingleses com cerca de 5 km de extensão Daniel Vianna/Mtur
Praia da Daniela é um paraíso escondido em Floripa TripAdvisor
Passeio de barco pela Lagoa da Conceição Carlos Altman/EM
Praia da Joaquina é a preferida dos surfistas Daniel Vianna/Mtur
Pedras na Praia em Santo Antônio de Lisboa são cercadas de misticimo Carlos Altman/EM
Desconhecida de muitos turistas, Praia da Daniela é um paraíso intocado no litoral Norte de Floripa TripAdvisor

Enquanto o agito concentra-se nas praias badaladas, os locais guardam seus tesouros: praias tranquilas, vilas centenárias e histórias que transformam a ilha em verdadeira “Ilha da Magia”. Conheça os cantinhos que os moradores realmente frequentam. São nesses lugares que a ilha revela sua alma verdadeira —Praia da Daniela como uma piscina infinita para as famílias, Ingleses, Joaquina e Mole pulsando com ondas e energia jovem, a Lagoa da Conceição como coração eterno da ilha, Ribeirão da Ilha e Santo Antônio de Lisboa respirando Portugal (e as pedras das bruxas ainda vigiando o mar), e Campeche carregando o eco do avião de Saint-Exupéry, que pousou na areia e deixou por lá um pedacinho do Pequeno Príncipe para sempre.

“Piscina natural” de 2 km

Praia da Daniela é um paraíso escondido em Floripa

TripAdvisor


Localizada no extremo Norte, na península de mesmo nome, a Praia da Daniela tem cerca de 2 km de areia fina, dunas baixas e mar calmo, quase sem ondas — ideal para crianças. As águas são transparentes, com temperatura mais quente que as praias de mar aberto. Atrás fica uma vila residencial tranquila, com poucas casas, supermercados e restaurantes simples. Os locais vão cedo para caminhar, praticar stand-up ou simplesmente ficar na sombra dos quiosques. Há piscinas naturais no Pontal da Daniela e observação de aves marinhas. Dica manezinha: chegue antes das 10h para pegar sombra e evite fins de semana de alta temporada. É o refúgio perfeito para quem quer praia tranquila.

Paraíso dos surfistas 

Praia da Joaquina é a preferida dos surfistas

Daniel Vianna/Mtur

Praia dos Ingleses (5 km de extensão) é dividida naturalmente: sul mais calmo (famílias e caminhadas), meio com estrutura e norte com ondas boas. Tem quase 100 mil habitantes no bairro e é um dos que mais gera emprego na ilha. Os manezinhos pedalam na orla ao amanhecer.

Joaquina (3 km) é icônica pelas dunas gigantes (sandboard gratuito ou alugado) e pelo pôr do sol épico no alto. Mar aberto, ondas fortes — berço do surf brasileiro. Os locais sobem as dunas no fim da tarde para ver o sol sumir atrás do Morro da Lagoa.

Praia Mole, colada à Joaquina, tem areia fofa escura (“mole” vem daí), pedras monumentais, mar forte e clima jovem. É a praia dos “sarados” e surfistas, mas também de piqueniques tranquilos no canto direito. Juntos, esses três destinos formam o “leste selvagem” que os floripanos escolhem quando querem energia sem o caos de Jurerê.

Pulmão vivo da ilha

Passeio de barco pela Lagoa da Conceição

Carlos Altman/EM


A maior laguna de água salobra da ilha (15 km²), conectada ao mar pelo Canal da Barra. Igreja de Nossa Senhora da Conceição (1750) — uma das mais antigas — e lenda de que uma grande enchente formou a lagoa. Hoje é o point dos locais: kitesurf e SUP de manhã, almoço de ostras e frutos do mar à tarde, happy hour à noite. Bairros ao redor (Canto, Barra, Costa) misturam casinhas de pescadores com restaurantes top. Os manezinhos fazem a “volta da lagoa” de bike ou barco o ano inteiro. Curiosidade: Dom Pedro II visitou em 1847! É o coração pulsante que une natureza, esporte e gastronomia.

Berço açoriano

Pedras na Praia em Santo Antônio de Lisboa são cercadas de misticimo

Carlos Altman/EM

Ribeirão da Ilha (36 km do centro, sul da ilha) é o segundo distrito mais antigo, fundado por açorianos no século XVIII. Ruas de paralelepípedo, casarios coloridos preservados, igrejas centenárias e o maior polo de cultivo de ostras do Brasil. Os locais vão para comer ostras frescas (in natura, gratinada, ao bafo) no Rancho Açoriano ou fazendas flutuantes. Ecomuseu, trilhas e pôr do sol no mar calmo completam o charme. É considerado “Capital Nacional das Ostras”.

Santo Antônio de Lisboa é ainda mais romântico: igreja branca icônica (1763), pescadores consertando redes na calçada e vilarejo com cara de Portugal. Aqui respira-se cultura açoriana pura. E é na região (praia de Itaguaçu, entre Ribeirão e Santo Antônio) que vive a famosa lenda das bruxas: segundo o folclorista Franklin Cascaes, as bruxas organizaram uma festa luxuosa na praia do Itaguaçu e esqueceram de convidar o diabo. Irritado, ele apareceu com raios e trovões e transformou todas em pedras gigantes que até hoje “flutuam” no mar azul-esverdeado. A placa oficial do “Salão de Festas das Bruxas de Itaguaçu” conta a história completa — os avós manezinhos adoram narrá-la!

Onde Saint-Exupéry pousou 

Praia de Campeche é famosa pelo pouso de Saint-Exupéry no local

Caio Vilela/Mtur

Em 1930 (e em voos entre 1929-1931), o francês Antoine de Saint-Exupéry, piloto da Aéropostale e futuro autor de O Pequeno Príncipe, fazia a rota Buenos Aires–Rio e precisou fazer escalas técnicas na praia de Campeche — uma pista natural de areia! Os pescadores o apelidaram carinhosamente de “Zé Perri”. Ele dormiu na ilha após tempestades e até pilotou com passageiros locais. Hoje existe monumento de pedra com placa, praça e Avenida Pequeno Príncipe em homenagem. É o pedaço de história mundial que aconteceu bem na nossa areia. Os locais vão à Campeche para surf, caminhada e foto ao lado do marco.

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