Por IRIS AGUIAR e RAPHAEL PATI

No campo de batalha do mercado digital, os oponentes devem escolher a melhor arma para conquistar o terreno fértil e disputado da internet e das redes sociais. Nesse contexto, a inteligência artificial acelerou o processo de inclusão de novos vendedores em um ambiente já saturado pela infinidade de conteúdos sobre os mais diversos temas. Para ter sucesso, especialistas e outros agentes que atuam nesse segmento explicam que não basta apenas utilizar chatbots e prompts de qualquer forma. É necessário ter conhecimento para aplicar as melhores estratégias. 

Nos últimos dias 10 a 12 de setembro, a capital mineira foi palco do maior encontro de marketing digital da América Latina, promovido anualmente pela startup brasileira Hotmart, no Expominas. O evento, que reuniu 140 palestrantes e mais de 10 mil participantes, serviu para apresentar diversas novidades em um mercado que ainda está em crescimento. Novas tendências para a IA, como a criação de softwares, a personalização de conteúdos e o uso de resumos feitos com a tecnologia foram divulgados durante os três dias do Hotmart Fire 2026.

A promessa dos desenvolvedores de novas tecnologias é garantir que os serviços entregues pelas plataformas de gestão sejam cada vez mais fáceis de usar e reduzam o tempo gasto para realizar as tarefas diárias, como montar planilhas, elaborar cronogramas e, até mesmo produzir os próprios conteúdos totalmente com a IA. A Hotmart, por exemplo, apresentou durante o Fire, uma tecnologia batizada de Launchpad, que, na explicação do próprio fundador e CEO da empresa, João Pedro Resende, (veja entrevista abaixo) seria um “produto para criar produtos”.

O objetivo da Hotmart com o Launchpad, na visão do executivo, é capacitar que os usuários da plataforma tenham acesso ao desenvolvimento de softwares a partir, apenas, de uma frase utilizada como “prompt”, aos moldes dos chatbots já utilizados, com a diferença que o sistema, além de transcrever o código, ele já entrega um sistema pronto para ser usado e que pode ser ajustado diversas vezes até o cliente ficar satisfeito. É possível criar, por exemplo, sites de vendas, aplicativos para web e até jogos interativos. 

“Com um botão você publica, e ele está disponível. Com outro, se você quiser, você passa a vender ele. Define o preço, fala: ‘É uma assinatura, é um pagamento único, e aquilo está no ar para ser vendido no mundo inteiro’. Então, a gente encurtou muito o caminho entre você imaginar uma coisa, um produto digital, um software e você transformar isso num negócio”, disse Resende, que durante a palestra de abertura do evento comentou que o futuro do marketing digital está não mais em entregar somente um conteúdo, mas um software pronto, apenas com a inteligência artificial.

João Pedro Resende, CEO da Hotmart, apresenta inovações e tendências de IA durante o evento Hotmart Fire 2026Divulgação/ Hotmart Fire

Nova mentalidade já é realidade no mercado

No último mês de junho, o desenvolvedor de produtos com inteligência artificial Marcos Sei lançou uma empresa com o objetivo de ser ‘AI first’, ou seja, priorizar o uso da IA para todos os trabalhos que o cliente executar. “É uma empresa onde a gente muda o modo de trabalho das pessoas, onde as pessoas param de acessar sistemas em botões e executar o trabalho manualmente e elas começam a ter agentes que fazem isso para elas”, explica o fundador da Sphere AI – uma plataforma paga feita para reunir todas as tarefas de um negócio sob a espécie de um “gestor” que nada mais é do que uma IA.

Sei acredita que o futuro do mercado digital passa pelo uso cada vez mais frequente da tecnologia e que os brasileiros ainda estão com um “pé atrás” em produtos que entregam diversas soluções com IA. “A gente está em um momento onde todo mundo tem um pé atrás ainda. Então é uma mudança de mentalidade que as pessoas precisam. Então acho que esse é o principal desafio do mercado hoje, é realmente as pessoas aceitarem esse novo modo de trabalhar”, acrescenta o desenvolvedor.

Para o publicitário e especialista em inteligência artificial Paulo Aguiar, um dos principais desafios de quem começa a utilizar a tecnologia está justamente no excesso de opções. Com milhares de ferramentas disponíveis, tentar acompanhar todas elas pode fazer com que o usuário perca de vista o que realmente importa: entender o problema que precisa resolver e saber como comunicá-lo à máquina.

Paulo Aguiar — publicitário e especialista em inteligência artificial.Divulgação/ Hotmart Fire

Segundo o profissional, mais importante do que dominar cada novo software é desenvolver repertório para reconhecer onde a inteligência artificial pode ser útil. “A verdadeira ferramenta com a qual você trabalha na inteligência artificial não é o software, é o seu vocabulário. A máquina é apenas uma caixa de diálogo, a qualidade do que sai dela depende exclusivamente da clareza com que você expressa o que precisa”, afirma. Um dos ganhos mais evidentes nesse processo é o tempo. Tarefas repetitivas podem ser automatizadas, enquanto atividades que envolvem análise, criatividade e tomada de decisão continuam dependendo da atuação humana. 

A relação entre tecnologia e mercado também passa pela capacidade de adaptação. O empresário Ícaro de Carvalho, fundador da escola de marketing digital O Novo Mercado, avalia que a chegada da inteligência artificial não representa o fim do mercado digital, mas mais uma transformação em um setor que já passou por diferentes ciclos. Para ele, formatos e ferramentas mudam, mas a necessidade de compreender o consumidor permanece. “O mercado muda, mas ele sempre cresce”, resume. A recomendação, portanto, é não encarar cada novidade tecnológica como uma ruptura definitiva, mas entender de que maneira ela pode ser incorporada à estratégia de um negócio.

Ícaro de Carvalho é empresário e fundador da escola de marketing digital O Novo Mercado.Divulgação/ Hotmart Fire

Além de entregar funcionalidades que otimizam o tempo do gestor, a inteligência artificial também promete reduzir custos para os próprios empreendedores que utilizam plataformas de terceiros para alavancar a própria marca. O CTO d’O Novo Mercado, Hericles Bezerra, explica que um dos objetivos da empresa ao lançar uma IA em um serviço para disparar e-mails, mensagens e outros conteúdos era oferecer um produto que fosse mais barato do que os tradicionais disponíveis no mercado e que não utilizam a mesma tecnologia de chatbots e prompts.

“Se a gente fosse comparar com outras plataformas, a gente sairia de um custo de R$ 10 mil a R$ 70 mil por mês para um custo de R$ 100 a R$ 200 por mês com a mesma quantidade de disparos, contatos e tudo mais”, afirma Bezerra. Sobre o futuro estar baseado nos softwares, como sustentou JP Resende durante o evento, Bezerra concorda com o CEO da Hotmart, mas acredita que, além da plataforma em si, as empresas devem pensar na personalização. 

“Não é só software por ser software. É um software que faz o que a gente precisa e o que a gente quer”, avalia o CTO, que complementa: “Não tem porque eu pagar caro por uma ferramenta se ela não faz exatamente o que eu quero e preciso. Eu fico amarrado ao que ela me entrega hoje. Muitas das ferramentas que existem para marketing digital, pessoas que trabalham com isso, são muito ‘fechadinhas’. Elas não são passíveis de personalização”.

Mais preguiçosos: IA impacta diretamente o fluxo de trabalho

Apesar de garantir mais facilidade e otimizar o tempo para a criação de conteúdo, a inteligência artificial pode gerar um efeito reverso e tornar os empreendedores menos criativos para desenvolver novas ideias, como acredita o publicitário Micha Menezes, produtor e sócio da Agência Pinguim. Segundo o especialista, isso se reflete nas próprias redes sociais, com a opção de fazer postagens com layouts menos rebuscados e, também, com menos informações.

“As pessoas não estão querendo tanto aprender mais, elas estão querendo receber coisas prontas. Então eu acredito que a pessoa, nesse processo de criação de conteúdo, que produz um conteúdo mais humanizado e ela consegue conectar isso com uma solução mais pronta, naturalmente ela vai conseguir vender, performar melhor nas redes sociais, atrair mais pessoas e fazer dinheiro com isso”, avalia Menezes. 

Um dos palestrantes do Hotmart Fire 2026 aborda as tendências de IA e o futuro do marketing digitalDivulgação/ Hotmart Fire

Em um ambiente saturado onde a concorrência pela atenção inclui desde grandes influenciadores até memes virais, a autenticidade é o que permite ao criador se destacar. Para o publicitário, muitos usuários são mais interessantes na vida real do que no Instagram por tentarem criar personagens perfeitos. A estratégia recomendada é ser "um pouco diferente", compartilhando o que acredita e o que dá certo ou errado de forma natural, sem a necessidade de “câmeras de cinema”. “A gente está competindo com os grandes influenciadores, com o meme do gatinho, porque está todo mundo disputando a atenção no mesmo lugar. Então eu só preciso ser um pouquinho diferente para poder conseguir chamar a atenção dessa pessoa”, acredita.

Micha ainda aconselha que a produção de conteúdo deve ser tratada como um trabalho sério, com 30 minutos diários dedicados a essa tarefa, independentemente da motivação pessoal. Ele enfatiza que a consistência é o que desenvolve a "musculatura" necessária para perder a timidez e progredir. O encorajamento final baseia-se na persistência, sugerindo que o criador foque no mantra de descobrir o que pode acontecer se ele simplesmente não desistir de seus objetivos.

De uma sala em BH a uma operação internacional

A trajetória da empreendedora Rafa Xavier mostra como essas ferramentas podem ser usadas para resolver problemas concretos de um negócio. Antes de trabalhar com produtos digitais, ela começou a trançar cabelos na sala da casa da avó, em Belo Horizonte, enquanto cursava História e buscava uma renda extra. O trabalho acabou se aproximando da própria pesquisa acadêmica sobre estética afro-brasileira e a história do cabelo negro no Brasil. Durante um período de maior adesão às tranças, devido à alta nas transições capilares, Rafa passou a produzir conteúdo sobre esses temas e ganhou espaço entre outras profissionais da área.

A experiência também revelou uma nova demanda. Outras trancistas começaram a perguntar como ela conseguia atrair clientes e organizar o próprio trabalho. Rafa passou, então, a produzir conteúdos sobre empreendedorismo, marketing e gestão para profissionais que trabalhavam com tranças. Vieram os primeiros produtos digitais e, durante a pandemia, o crescimento do perfil impulsionou ainda mais esse negócio. Com o aumento do número de mensagens, clientes e alunas, surgiu um novo desafio: como manter o atendimento sem precisar ampliar a equipe na mesma proporção?

A metodologia criada por Rafa, a Trancista Academy, nasceu em 2019 e parte de uma ideia que vai além do ensino da técnica. O objetivo é ajudar profissionais a transformar a habilidade de trançar cabelos em uma fonte de renda, incluindo conhecimentos de gestão, marketing e posicionamento.

A proposta ganhou outra dimensão diante do perfil de parte das alunas, muitas delas mulheres negras e periféricas com pouco acesso a conhecimentos sobre tecnologia, marketing e gestão. Por isso, Rafa e sua equipe procuram traduzir termos comuns do mercado digital para uma linguagem mais acessível, permitindo que esses profissionais compreendam os conceitos e consigam aplicá-los nos próprios negócios. “Nosso objetivo de fato é que essas pessoas consigam pegar essa habilidade que elas possuem e transformar em renda”, afirma.

Participantes e especialistas do mercado digital compartilham visões sobre IA e empreendedorismo durante o evento Hotmart Fire 2026Juliana Russano

A história também ajuda a mostrar por que a tecnologia, sozinha, não é suficiente para criar um negócio. Antes das ferramentas, havia uma habilidade, uma necessidade identificada e conhecimento sobre o público. A inteligência artificial e as automações entraram depois, como um recurso para ampliar o que já existia diante de um gargalo enfrentado.

Foi nesse momento que a automação passou a fazer parte da operação. Ferramentas como a ManyChat ajudaram a organizar respostas e processos que antes dependiam exclusivamente do atendimento manual. Para uma empreendedora que ainda não tinha estrutura financeira para manter uma equipe grande, a tecnologia passou a ser uma maneira de ganhar tempo sem deixar de se comunicar com o público.

Hoje, Rafa trabalha com diferentes produtos e atende pessoas também fora do Brasil. A diferença de fusos horários trouxe outro problema que precisou ser resolvido com tecnologia. “Imagina se eu tivesse que ter uma pessoa para responder às minhas alunas em cada fuso horário que eu atuo. Seria quase inviável”, explica.

Nesse caso, a automação não substituiu a experiência construída pela empreendedora. Ela passou a assumir parte da operação, enquanto a equipe pôde concentrar esforços em outras atividades e na manutenção da qualidade do atendimento. “A tecnologia veio justamente para facilitar essa jornada, para que eu consiga automatizar uma parte do atendimento, mas sem perder a humanização. Porque, no final das contas, as pessoas querem ser atendidas por pessoas, querem sentir que existe alguém ali. Então, a gente usa a tecnologia para facilitar esse processo, mas sempre mantendo essa parte humana”, finaliza. 

ENTREVISTA | João Pedro Resende, fundador e CEO da Hotmart

Redes sociais viraram redes de “interesse”

Além de mudar a forma como as empresas vendem seus produtos, a inteligência artificial também foi responsável por revolucionar a forma como as pessoas consomem as redes sociais e estas, por sua vez, transmitem conteúdos que sejam consideradas de interesse dos usuários. Líder de uma das empresas mais bem sucedidas do Brasil, João Pedro Resende, ou somente “JP”, acredita que plataformas como Instagram, X (ex-Twitter), YouTube e TikTok não podem mais ser consideradas como “sociais”, e sim, “redes de interesse”, por estarem cada vez mais saturados de publicações de fora do círculo social.

Em entrevista ao Estado de Minas e Correio Braziliense, o CEO da Hotmart considerou estar otimista com os avanços da inteligência artificial e acredita que o uso contínuo, por si só, dessas ferramentas não deve ser considerado um problema a se temer. “Você pode usar uma faca para cortar seu bife ou você pode usar uma faca para atacar outra pessoa. Com a IA é a mesma coisa”, comparou JP. Na conversa, o empresário ainda comentou sobre a crise moral com as instituições brasileiras e o sucesso do Fire, que chegou a 11ª edição. Confira os principais trechos da entrevista: 

Qual é o objetivo atual da Hotmart em relação a IA? Existem mais novidades além das anunciadas no evento?

A gente vê inteligência artificial como uma tecnologia que nos ajuda a construir coisas para servir melhor nosso cliente. No final das contas é o tempo inteiro focado em como eu atendo o meu cliente melhor, com mais qualidade, mais velocidade, com mais possibilidades. Mais especificamente na Hotmart, desde um ou dois anos atrás, a gente começou a construir as primeiras coisas com IA. A primeira solução que entregamos foi o tutor da Hotmart. Então, é muito legal porque a gente hospeda milhares de cursos online, vídeo, etc. E em cada curso online deste, o dono do curso, pode apertar um botão e ele ganha um tutor que fica 24 horas por dia, 7 dias por semana respondendo perguntas sobre o curso para os alunos. Essa foi a primeira coisa que fizemos com IA e as pessoas usam muito. Depois a gente fez mais alguns agentes: tem um agente de cobrança, agentes de vendas, tudo para ajudar nosso cliente a ter mais resultado. A grande novidade foi a que eu anunciei: uma ferramenta de IA que ajuda você a construir produtos. Então, um novo produto da Hotmart, cujo objetivo é criar produtos para os nossos clientes. A ideia é encurtar o máximo possível a trajetória entre alguém ter uma ideia e transformar ela num negócio. Esse caminho estamos achatando através do Launchpad, que é a nossa ferramenta nova.

Quais foram as principais necessidades que vocês enxergaram no mercado antes de lançar o Launchpad? 

O que a gente viu é que a IA é muito boa em gerar código, então tem modelos, inteligências artificiais excelentes para isso. A capacidade, hoje, de você construir um software, é muito acelerada por causa disso. A velocidade de criar código é muito absurda comparado ao que era anos atrás. Só que o software, ele não é só código. Ele envolve uma série de outras coisas em volta, que é onde acreditamos ter resolvido muito bem para os nossos clientes. Então, quando você cria um código de um software, você precisa integrar aquele software num banco de dados. Depois você vai precisar colocar aquele software para rodar num servidor. Depois você vai precisar, eventualmente, colocar vídeos dentro do software, então você precisa de uma ferramenta de streaming. Depois você vai precisar enviar e-mails com software, depois você vai precisar vender esse software, então tem que entregar ele com o meio de pagamento. Aí para garantir que só quem comprou acessa o software, você precisa de um mecanismo de autenticação integrado com meio de pagamento. Então tem um monte de coisa em volta do software que as IAS não fazem automaticamente. E a gente consegue fazer porque a gente tem todo o ecossistema aqui na Hotmart. Então, os aplicativos, os softwares, tudo que você cria com o Launchpad, ele já consegue usufruir de todo esse sistema da Hotmart e é por isso que a gente consegue ser uma ferramenta não só de criar um software, mas de criar um produto pronto para ser vendido. Então, você vai conversar, fazer produtos ali no Launchpad. Por exemplo, eu gostaria de um software para fazer um calendário de dietas para mim, ele vai criar para você, você vai poder customizar ele do jeito que você quiser. Com um botão você publica, e ele está disponível. Com outro, se você quiser, você passa a vender ele. Define o preço, fala: "É uma assinatura, é um pagamento único, e aquilo está no ar para ser vendido no mundo inteiro". Então, a gente encurtou muito o caminho entre você imaginar uma coisa, um produto digital, um software e você transformar isso num negócio.

As mudanças no mercado também permeiam as redes sociais, em um sentido de: o Instagram e outras redes não serem mais plataformas voltadas apenas às suas funções originais?

O Instagram é um bom exemplo porque hoje em dia praticamente não existem mais redes sociais. Todas as redes hoje são redes de interesse. Você não está no seu feed, você não está recebendo o que os seus amigos publicam. Aliás, provavelmente a maioria das coisas que os seus amigos publicam você nem vê. Mas você vê o que o algoritmo entende o que é do seu interesse, então rede social é um nome que acabou ficando obsoleto, a gente ainda se refere a elas assim, mas é uma rede de interesse e o conteúdo que que você está vendo ali não é necessariamente vinculado ao gráfico social que você tem. É mais ao que você pesquisa, ao que você consome, ao que você gasta mais tempo vendo, o algoritmo entende e vai te colocar. Então, essa mudança já aconteceu e isso é muito curioso. O que eu vejo cada vez mais, sobre mudança de comportamento em rede social, é que quem cria conteúdo para rede social, vai cada vez mais ter oportunidade não só de criar conteúdo e monetizar com publi, com marcas, que é o que é mais comum ou com aqueles cliques em anúncio, mas agora fica cada vez mais fácil construir produtos próprios. As pessoas, os criadores de conteúdo vão cada vez mais enxergar a possibilidade e a oportunidade de criar produtos próprios para vender para quem os segue. E aí é que eu acho que tem a maior oportunidade para quem é creator hoje.

Existe hoje uma maturidade do público para entender esse mecanismo das redes sociais ou de interesse? De entender os algoritmos, entender como funciona, de conseguir engajar melhor os clientes? 

Os nossos clientes, em grande parte, são muito experientes nisso. Mas a verdade é que ninguém sabe como os algoritmos funcionam exatamente. Então, o que os nossos clientes fazem é uma combinação de volume de conteúdo para entender sobre o que os clientes deles se interessam mais e aí eles vão ajustando para conseguir produzir aquele conteúdo junto com a personalidade e com o estilo próprio para atender esses clientes. E são muitos testes, então você testa produzir um conteúdo desse jeito sobre esse assunto, ver o que acontece. E essas duas coisas são importantes de forma quase perene, o tempo todo você precisa dessas duas alavancas, porque o algoritmo muda todo dia, o tempo todo. Então, às vezes, algo que funcionava melhor hoje, amanhã vai funcionar um pouco pior, ou até algo que não funcionava tão bem hoje, amanhã vai funcionar um um pouco melhor, porque o algoritmo mudou. Então, você tem que estar sempre produzindo com alguma consistência e fazendo muito teste para ver o que a sua audiência está mais receptiva naquele momento.

Acredita estarmos chegando perto de um limite em relação à ética no uso da inteligência artificial? 

Eu acho que os comandos estão sendo bem direcionados para ajudar mais do que atrapalhar a sociedade de uma maneira geral. A inteligência artificial acaba sendo uma ferramenta como qualquer outra, você pode usar uma faca para cortar seu bife ou você pode usar uma faca para atacar outra pessoa. E a inteligência artificial de certa forma é a mesma coisa, e é uma ferramenta muito poderosa. A internet também é a mesma coisa. Você pode usar a internet para o bem, você pode usar a internet para fazer muito mal. A inteligência artificial é só mais uma tecnologia que o homem pode usar para um fim ou para outro. É é claro que quem está construindo modelos, ferramentas de IA, tem que se preocupar com os limites de tudo que perceber fugir do considerado ético, do que é ilegal ou qualquer coisa do tipo. A gente tem que colocar cada vez mais guardrails, cercar cada vez mais para que essas coisas aconteçam menos. Mas no final das contas, todas essas histórias que você vê sobre a IA fazer algo, na realidade a IA não fez nada, foi algum ser humano que mandou a IA fazer e aí ela obedeceu o ser humano e fez algo que foi ruim ou prejudicial. Por trás de uma IA, fazendo alguma coisa, sempre tem um ser humano que colocou intenção nela. Então, no final das contas, a melhor forma de proteger é garantir que a gente não incentive esse tipo de coisa, com legislação, fiscalização, e punir quem comete crime utilizando IA ou internet. É manter mais ou menos o formato de arcabouço que a gente tem hoje, mas as leis vão evoluir à medida que a gente vai conhecendo mais os efeitos da própria IA.

Sobre a crise institucional atual no país, isso provoca efeitos no cidadão em relação a quais são os exemplos que a gente tem no poder. Na sua avaliação, estamos em um ambiente positivo no Brasil para empreender?

A gente sabe que no Brasil é difícil você conseguir ter um negócio próprio em relação a outros países. E, o ambiente atual, é um momento de muita tensão. Tem muito escândalo acontecendo, uma crise de confiança gigantesca na alta cúpula da república. Então, é óbvio, que quem é empreendedor, quem é cidadão, fica preocupado com o futuro do país. ‘Onde isso vai dar? Será que vai ter algum tipo de punição? Será que alguma coisa vai acontecer? Será que essas investigações vão para frente?’ Tudo cria ansiedade, e do ponto de vista econômico, o país está fragilizado. A gente está com 82% das famílias endividadas, estamos com a inadimplência na maior alta histórica do ciclo inteiro, 29,9% de inadimplência, coisa que não existe. Você tem um outro tema que é importante também, que tem quase R$ 300 bilhões por ano que saíram da economia e que Então ficam circulando no universo das bets, de casas de apostas e tudo mais. 300 milhões por sinal muito maior do que o quanto a gente investe em educação pública, em bolsa família, enfim. Então tem muita coisa agredindo a economia brasileira agora. 

Então torna-se um ambiente mais desafiador para o empreendedor?

Não só para o empreendedor, assim, de modo geral acho para todo mundo, inflação alta, enfim, preços altos para caramba. Então, o momento atual da economia brasileira não é bom, na forma como eu enxergo. Agora, o empreendedor não tem a opção de escolher qual momento da economia ele vai trabalhar. Ele tem um negócio, que se o negócio dele for um negócio duradouro, ele vai ter que conseguir navegar por todos os desafios econômicos que vão surgir. E às vezes é muito difícil, a gente tem que tentar proteger o nosso otimismo mesmo nos momentos difíceis, porque, é nessas horas que a gente tem que manter a calma, ajustar o seu negócio para fazer ele funcionar e esperar a próxima grande oportunidade. Todo o negócio vai fazer isso. A gente como empreendedor, eu acho que a gente tem que focar nisso. Qual é a as coisas que eu consigo fazer dentro do meu raio de ação, é, que eu consigo, é, continuar mantendo a minha empresa saudável, que eu consigo continuar servindo bem meus clientes, mesmo diante de um desafio. E às vezes vai ser um ano onde o empreendedor não vai ter o melhor ano da vida dele, mas esses ciclos vão e vêm. Daqui a pouco, começa um um ciclo econômico melhor, as coisas se ajeitam e depois, lá na frente, vai ter um outro desafio e o bom empreendedor vai conseguir navegar por isso. Mas faz parte do trabalho, faz parte do job description você conseguir lidar com isso e a nós eu acho que que resta ter muito cuidado, muito zelo com os negócios, com os clientes para conseguir navegar todo esse cenário. 

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Qual a sua avaliação sobre o Hotmart Fire 2026? 

Eu tenho muito orgulho da história desse evento. Essa é a 11ª edição, mas ano passado foi a 10ª edição e quando chegou na 10ª edição, eu falei: "Caramba, estamos há 10 anos fazendo isso aqui". Começou com mil pessoas e 15 palestrantes e agora a gente tá falando de 10 mil pessoas circulando, 140 palestrantes, participantes de, sei lá, 30 países, seis palcos. Então, é uma história muito legal e o mais interessante é você ouvir o resultado do que as pessoas fizeram depois que saíram daqui. Tem muitos casos, eu ando aqui no evento, as pessoas chegam até mim e falam: ‘Cara, muito obrigado, esse evento mudou minha vida’. O que é isso? Você chega aqui, fica três dias em mesa resolvendo como que o que as pessoas estão fazendo agora para construir negócio, para construir sua presença digital, para conseguir navegar cenários desafiadores. Então é muito bom, porque você aprende de forma prática. Você ainda conhece muita gente, você renova o seu próprio otimismo, a sua vontade de fazer as coisas. Eu acho que o Fire é um evento muito especial por isso. Mostra muita oportunidade e reenergiza as pessoas também.

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