São Paulo foi sede, em 13 e 14 de maio, do AI Festival 2026. Milhares de pessoas e representantes de grandes empresas se reuniram para debater o tema central da atualidade: a inteligência artificial. Realizado pela StartSe, o evento consolidou-se como o principal espaço para discussões sobre o setor, atraindo marcas como Nvidia, Microsoft, Google, Anthropic, IBM, Oracle e dezenas de outras.
O humano assume o papel de orquestrador
Após o período inicial de euforia tecnológica, o papel humano ganha relevância renovada. O conceito de vibe coding tem avançado nas organizações: em vez de códigos fechados em linguagens complexas, o sistema gera programas, sites e ferramentas a partir de orientações diretas dos usuários.
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Se em 2025 a prioridade era o letramento básico, este ano os palestrantes mostraram a configuração de uma nova rotina que integra pessoas e agentes virtuais. Nesse cenário, o profissional deixa de ser apenas um executor de tarefas repetitivas para se tornar um orquestrador. O ciclo agora envolve planejamento, decisão e revisão, enquanto os agentes executam subtarefas e distribuem demandas pelos departamentos, permitindo que cada área entenda suas necessidades de forma mais ampla.
Ricardo D’Ambrosio, da Anthropic
Ricardo D’Ambrosio, da Anthropic, apresentou o Claude Cowork, um centro que integra ferramentas como Google Drive, Notion e Github para tornar as tarefas mais dinâmicas. Segundo D’Ambrosio, a liderança precisa ser repensada. O foco deixa de ser a eficiência isolada de cada funcionário para priorizar a qualidade da colaboração entre humanos e sistemas integrados. A Anthropic, que recentemente recebeu investimentos de 30 bilhões de dólares, reforça essa transição para o trabalho colaborativo.
A divisão entre o humano ampliado e o atrofiado
Piero Franceschi, CEO da StartSe, trouxe uma provocação sobre o comportamento social diante da tecnologia. Ele propôs uma reflexão sobre o "humano ampliado": aquele que usa a IA para potencializar suas capacidades e tomar decisões em cenários de incerteza. No lado oposto, estaria o "humano atrofiado", representado por aqueles que resistem à mudança e acabam consumidos pela rotina, permanecendo no que ele chamou de "confortável sofá" da inércia.
Franceschi enfatizou a neuroplasticidade do cérebro, que é moldado pelo ambiente. Segundo o executivo, a IA pode amplificar a ansiedade e a distração se a escolha for pela passividade. "A IA generativa pode se tornar degenerativa se permitirmos a atrofia cognitiva", alertou o CEO, destacando que a coragem, a inventividade e a presença são virtudes humanas que as máquinas não podem replicar.
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Nessa mesma linha pragmática, Priscyla Laham, presidente da Microsoft Brasil, lembrou que os objetivos de negócios permanecem os mesmos, independentemente da tecnologia utilizada. Milena Leal, do Google Cloud Brasil, reforçou a importância de usar agentes de automação em ambientes robustos, garantindo segurança e governança no crescimento das empresas. O foco das lideranças agora se volta para o retorno sobre o investimento, evitando o uso da tecnologia sem metas claras.
Casos de sucesso e o impacto na ciência
O evento também destacou empresas que já operam sob a mentalidade de priorizar a tecnologia. Andre Petenussi, da Localiza, detalhou a evolução da companhia para uma plataforma onde a IA é onipresente. Com o projeto "Movimento AI", a empresa já capacitou 12 mil colaboradores e utiliza mais de 4 mil agentes em suas demandas internas. Os resultados mostram um aumento de 200% na produtividade do time de tecnologia, e a assistente virtual "Lisa" já atua como uma especialista no atendimento aos clientes.
A ciência também teve voz com a pesquisadora Ana Triovi, do MIT FutureTech. Ela defendeu modelos de código aberto para que se possa compreender como a tecnologia chega aos resultados, trazendo a transparência necessária para o meio acadêmico. Triovi alertou sobre os riscos de artigos científicos com fontes inexistentes geradas por sistemas automatizados. Ela comparou a ciência à construção de uma casa: "Cada tijolo precisa de um lugar próprio. Quando os modelos criam referências falsas, eles quebram a base do edifício".
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O AI Festival 2026 deixou claro que a inteligência artificial não é mais uma opção, mas uma condição para a sobrevivência no mercado. O grande diferencial não será a tecnologia em si, que tende a se tornar comum, mas a capacidade humana de manter a presença e a iniciativa diante das máquinas.
