Não é novidade que os dados ligados à saúde mental não são positivos no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde, o país lidera o ranking mundial de transtornos de ansiedade, com quase 20 milhões de brasileiros afetados. Além disso, depressão também é uma preocupação crescente, agravada pelas consequências da pandemia da COVID-19, que levou a um aumento de 25% nos casos de transtornos mentais no país, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Ou seja, em 2026, a saúde mental permanece como um dos grandes desafios globais e nacionais. Parte dos diagnósticos de transtornos mentais podem ter relação com fatores genéticos, no entanto, as influências externas, como o estilo de vida e o meio que está inserido, são igualmente, senão mais relevantes para o diagnóstico e tratamento.
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Por isso, crises sociais, políticas e econômicas que se acumulam ao longo dos anos, somadas às desigualdades estruturais, aos impactos das redes digitais, às guerras, aos fluxos migratórios forçados e a um novo ciclo eleitoral no Brasil, produzem um cenário de adoecimento crônico.
Para compreender esse cenário, a reportagem fez uma pergunta comum a psicólogos, psiquiatras e profissionais ligados ao tema: “Para você, quais desafios ligados à saúde mental se destacam em 2026?”. A partir dela, cada especialista também respondeu a uma segunda questão de acordo com sua área de pesquisa e atuação, ajudando a entender sobre os múltiplos fatores que atravessam o sofrimento psíquico na sociedade contemporânea.
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Confira as entrevistas:
- Dalcira Ferrão, psicóloga clínica e social
Para você, quais desafios ligados à saúde mental se destacam em 2026?
Desde o período pós-COVID, os aspectos relacionados à saúde mental estão em alta e continuam como uma das maiores preocupações de saúde pública, global e no Brasil. Mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo vivem com transtornos de saúde mental, como depressão e ansiedade, que seguem como causas significativas de incapacidade e sofrimento, especialmente em contextos de vulnerabilidade social.
Quando olhamos para a saúde mental a partir do recorte racial, que desafios seguem sendo invisibilizados em 2026?
O maior desafio permanece sendo a escolha histórica e política de não reconhecer o racismo como produtor de sofrimento psíquico. O sofrimento da população negra segue sendo lido de forma individualizada, descolado das experiências de discriminação, violência e exclusão. Persistem a subnotificação, o subdiagnóstico, a violência institucional e o despreparo profissional.
Crianças e adolescentes negros continuam sendo mais rapidamente associados a diagnósticos de transtornos de comportamento, sem que se investiguem os contextos de racismo escolar, violência territorial e desigualdade social. O racismo estrutural impacta o sofrimento psíquico de forma contínua, cumulativa e profunda, da infância à vida adulta.
- Helian Nunes, psiquiatra epidemiologista e professor da UFMG
Problemas como depressão, ansiedade e esgotamento continuam aumentando. Muitas pessoas vivem sob pressão constante, com dificuldades financeiras, trabalho instável e pouco tempo para descanso, o que gera um cansaço emocional acumulado, intensificado pela pandemia.
O cuidado em saúde mental ainda chega tarde para muita gente, com pouco investimento em prevenção e acompanhamento contínuo. O acesso permanece desigual, e fica cada vez mais claro que saúde mental não é apenas um problema individual, mas ligado à forma como a sociedade está organizada.
Quais sinais de alerta aparecem no dia a dia e como o cansaço e a insegurança contribuem para o sofrimento?
Os sinais aparecem no cotidiano:
- Cansaço constante
- Irritação
- Alterações no sono e na alimentação
- Perda de prazer
- Sensação de vazio
A insegurança financeira, o medo de perder o trabalho, a solidão e a falta de apoio aprofundam o sofrimento. Dessa forma, o risco de suicídio muitas vezes se manifesta de forma indireta, por meio do isolamento, do abuso de álcool ou da sensação de inutilidade, reforçando a importância de falar sobre saúde mental e fortalecer redes de apoio.
O cuidado em saúde mental ainda chega tarde para muita gente
- Julia Buenos, psicóloga, especialista em redução de danos e escritora do livro “Nas esquinas do cuidado: Brenda Lee e a redução de danos”
Os desafios representam o aprofundamento de processos que já vinham acontecendo há anos. A demanda por cuidado cresce, mas a rede pública segue sobrecarregada, com poucos serviços e dificuldade de garantir acompanhamento continuado. Persiste a tendência de tratar o sofrimento como um problema individual, quando ele é produzido por condições sociais concretas.
Entre populações historicamente marginalizadas, que desafios específicos de saúde mental ganham força em 2026?
Entre populações historicamente marginalizadas, o sofrimento psíquico não pode ser separado da violência cotidiana. Isso já está amplamente documentado por estudos no Brasil e fora dele. Pessoas trans, negras, indígenas, periféricas, pessoas em situação de rua, pessoas que usam drogas ou vivem com HIV/Aids enfrentam mais sofrimento mental porque vivem mais expostas à exclusão, ao racismo, à transfobia e à negação de direitos.
No caso das pessoas trans, por exemplo, a violência não aparece só em agressões diretas. Ela está no desrespeito ao nome e à identidade, na dificuldade de acessar trabalho, saúde e educação, na burocracia que trava direitos básicos e na sensação constante de não pertencimento. Isso produz um desgaste emocional profundo, que se expressa em ansiedade, depressão, uso problemático de substâncias e, muitas vezes, ideação suicida.
Como psicóloga, é importante dizer que esse sofrimento não é sinal de fragilidade individual. Ele é uma resposta a contextos de violência contínua. Não existe cuidado em saúde mental possível sem enfrentar essas desigualdades.
- Karen Scavacini, psicóloga, pesquisadora e fundadora do Instituto Vita Alere
Entre os principais desafios estão a cronificação do sofrimento psíquico comum, o impacto dos ambientes digitais e a desigualdade persistente no acesso ao cuidado. Ansiedade, depressão, exaustão emocional e desesperança passaram a compor o cotidiano de grande parte da população, refletindo-se no aumento de desfechos graves, como o crescimento das taxas de suicídio.
A partir do cenário eleitoral e do debate público sobre políticas sociais, que impactos você observa na saúde mental da população?
Períodos de tensão política e instabilidade institucional produzem aumento de ansiedade, medo, irritabilidade e exaustão emocional. A polarização e a desinformação fragilizam redes de apoio e aumentam sentimentos de solidão, isolamento e desamparo. A saúde mental também é impactada pelo clima emocional do debate público.
- Leonardo Abrahão, psicólogo e criador da campanha Janeiro Branco
Persistem desigualdades sociais, precarização do trabalho e fragilidade das políticas públicas de cuidado, enquanto se intensificam o cansaço emocional coletivo, a ansiedade crônica e o medo do futuro.
Esse cenário revela algo muito claro: o Brasil ainda cuida mais das consequências do adoecimento do que das suas causas. Investimos pouco em:
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Prevenção
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Educação emocional
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Fortalecimento das redes comunitárias e em ambientes de trabalho, escolares e urbanos verdadeiramente saudáveis
A urgência não é apenas ampliar atendimentos, isso é fundamental, mas repensar o modelo de vida que estamos normalizando
Conflitos internacionais, guerras e crises humanitárias produzem quais efeitos concretos na saúde mental?
Esses conflitos não estão tão distantes quanto parecem. Vivemos em uma sociedade hiperconectada, atravessada por fluxos contínuos de informação, imagens de violência, discursos de ódio e narrativas de colapso. O sistema nervoso humano não foi feito para processar, diariamente, guerras, mortes, crises climáticas e ameaças globais sem algum custo psíquico. O resultado aparece no aumento do medo difuso, da sensação de insegurança permanente, da irritabilidade, do desânimo e da desesperança.
Há, sim, impacto mensurável no sofrimento psíquico: aumento de quadros de ansiedade, estresse crônico, distúrbios do sono e sensação de impotência coletiva. Além disso, essas crises globais se traduzem localmente em instabilidade econômica, encarecimento da vida, insegurança alimentar e tensões sociais, fatores que pressionam ainda mais a saúde pública e os serviços de cuidado.
Entre populações historicamente marginalizadas, o sofrimento psíquico não pode ser separado da violência cotidiana
- Marcos de Noronha, psiquiatra e psicoterapeuta
O mundo atual oferece novas formas de conexão, muitas vezes superficiais, que ajudam a explicar a solidão crescente. Estimulados pelo consumo e pelo poder, deixamos de lado necessidades fundamentais ligadas a vínculos, confiança e amparo emocional.
A polarização política e social pode ser entendida como um fator de adoecimento coletivo?
'A polarização política e social pode ser entendida como um fator de adoecimento coletivo?" A pergunta está no prólogo do meu livro "Polarização - Sintoma de uma Doença Social", onde eu arrisco afirmar que a polarização patológica é uma doença social. No ano passado, participei de um workshop sobre o tema no Congresso Mundial de Psiquiatria no Japão.
Nós saímos otimistas deste encontro, cuja plateia era composta por profissionais de diversas partes do planeta, com diversas ideologias. Mostramos ser possível, com conhecimento, identificarmos narrativas promotoras dos piores sentimentos; identificámos nossas próprias limitações quando a intensidade emocional atrapalha o raciocínio, e o bom senso, e que é possível promover a disposição para lidarmos com as divergências. Debate sim, embate não.
- Rodrigo Aquino, comunicólogo e executivo na área de felicidade e bem-estar corporativo
O Brasil segue entre os países com maior prevalência de transtornos de ansiedade, enquanto a depressão permanece entre as principais causas globais de incapacidade. Vivemos um paradoxo entre excesso de informação e perda de capacidade coletiva de reflexão. As tecnologias digitais amplificam um modelo que privilegia velocidade e indignação, empobrecendo o pensamento e as relações.
Como esse cenário afeta o bem-estar coletivo?
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A desigualdade contemporânea atravessa o acesso ao tempo, ao descanso e às condições básicas de bem-estar. A preservação da atenção tornou-se um marcador de classe. Felicidade e bem-estar precisam ser tratados como ecossistemas democráticos. Defender o direito coletivo à paz mental é proteger a democracia, a diversidade e a convivência.
