DECISÃO COMPARTILHADA

Atualização na vacinação infantil nos EUA reacende debate sobre cobertura

Decisão dos EUA retira seis vacinas do calendário infantil oficial e levanta preocupações médicas sobre proteção das crianças

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O anúncio feito pelas autoridades de saúde dos Estados Unidos sobre a atualização do calendário de imunização infantil gerou debate entre especialistas, especialmente pelo potencial de repercussão dessas mudanças na confiança e na cobertura vacinal em diferentes países, ainda que o movimento não represente, por si só, uma tendência global.

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O novo modelo mantém como rotina para todas as crianças a proteção contra doenças como sarampo, caxumba e rubéola, poliomielite, coqueluche, tétano e difteria, além de Hib, doença pneumocócica, HPV e varicela.

Mas parte das imunizações deixa de aparecer como recomendação universal e passa a ser classificada como decisão clínica compartilhada ou voltada a populações de maior risco. Entre elas estão vacinas como a da gripe, hepatites A e B, rotavírus, Covid-19 e meningococo, além de estratégias de proteção relacionadas ao vírus sincicial respiratório em situações específicas.

Para a doutora em Biologia Molecular e Genética Humana pela Fiocruz Patrícia Vanderborght, responsável pelo setor de Imunização Humana da Rede D'Or/Richet Medicina e Diagnóstico, o movimento pode ser interpretado como uma abordagem individualizada, desde que acompanhado de responsabilidade e boa comunicação com a população.

“Essa decisão reflete uma movimentação de personalização da vacinação focada em grupos de alto risco e também na decisão compartilhada com profissionais de saúde e famílias. Isso pode ser visto como uma abordagem individualizada”, destaca.

Na avaliação do patologista clínico Helio Magarinos Torres Filho, diretor médico do Richet, a alteração representa uma inflexão relevante de política pública e muda o peso da responsabilidade coletiva. “Vacinas universais cumprem um papel importante na proteção indireta, a chamada imunidade de rebanho, especialmente para lactentes, crianças imunossuprimidas e populações com menor acesso a serviços de saúde. A substituição da recomendação universal por um regime de decisão compartilhada altera o modelo de decisão e relativiza a responsabilidade do órgão regulador de saúde pública, além de pressupor um sistema com acesso amplo, contínuo e qualificado a profissionais de saúde, alto nível de letramento em saúde por parte das famílias, condições que nem sempre se verificam de forma homogênea, mesmo em países desenvolvidos.Se levarmos em consideração ainda todo tipo de divulgação de notícias falsas antivacinas, a situação tende a ser pior, dando maior espaço para este tipo de conduta”, alerta.

Patrícia Vanderborght ressalta que, diante do debate, a confiança pública na vacinação deve ser tida como prioridade. “Essa decisão não reflete uma tendência global. É importante continuar reforçando a segurança e eficácia das vacinas, que continuam sendo a prioridade na prevenção de uma série de doenças”, diz.

Os especialistas também recomendam cautela ao comparar calendários entre países e lembram que contextos diferentes exigem estratégias distintas. “Países com calendários mais enxutos geralmente compensam isso com vigilância epidemiológica rigorosa, forte atenção primária e alta adesão vacinal, o que nem sempre é diretamente transferível para outros contextos, como o norte-americano, marcado por maior heterogeneidade socioeconômica e acesso desigual à saúde. Quando há rigor no controle epidemiológico é possível medir a necessidade de reintrodução de vacinas ao calendário com maior agilidade e eficácia”, explica Helio Magarinos.

No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, mantém como referência para a vacinação de rotina o Calendário Nacional de Vacinação, que orienta as doses por faixa etária e público e contempla, na rotina dos serviços, 19 vacinas ao longo do ciclo de vida.

Além dessas, o PNI inclui ainda imunizantes indicados para grupos e condições clínicas específicas, como bebês prematuros, pessoas imunossuprimidas e povos indígenas, e estratégias direcionadas conforme risco e cenário epidemiológico, somando ao todo 47 imunobiológicos ofertados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sendo 30 vacinas, 13 soros e 4 imunoglobulinas.

Mas existem ainda outras vacinas aprovadas pela Anvisa e indicadas pelo Ministério da Saúde e por sociedades científicas que ficam fora do SUS. Essas estão disponíveis na rede privada, incluindo opções com maior cobertura de sorotipos e, em alguns casos, reforços adicionais ou esquemas mais individualizados conforme o perfil de risco e o objetivo de proteção, como ocorre com recomendações envolvendo meningocócicas ACWY e B e pneumocócicas conjugadas de diferentes valências.

Para Patrícia Vanderborght, independentemente do desenho do calendário, a prioridade deve ser evitar retrocessos em doenças já controladas e fortalecer a vigilância. “Ao reduzir ou modificar o calendário vacinal infantil, há o risco do ressurgimento de doenças que estavam controladas. Por isso a vigilância epidemiológica, especialmente para quem viaja, será ainda mais importante neste momento”, reforça.

“Em um cenário de desinformação crescente, essa mudança pode reduzir a adesão vacinal e ampliar riscos coletivos. Doenças que poderiam estar erradicadas a partir de 2030 podem retornar com força total, representando risco para crianças, adultos, idosos e pessoas com comorbidades”, afirma o infectologista Guenael Freire, do Laboratório São Marcos.

Preocupação médica com repercussões silenciosas

O maior risco não está nos efeitos imediatos da decisão, mas no impacto gradual sobre a confiança nas vacinas — um processo que pode se traduzir, ao longo do tempo, no retorno de surtos de doenças antes controladas.

“As consequências não aparecem da noite para o dia, mas surgem meses ou anos depois, na forma de casos graves de meningite, bronquiolite e gastroenterite em crianças. A lógica da saúde coletiva é diferente da lógica individual do consultório. Políticas públicas existem para proteger inclusive quem não pode escolher. Em tempos de desinformação acelerada, o papel do Estado como voz clara em defesa das vacinas é mais necessário do que nunca”, explica o infectologista Alberto Chebabo, dos laboratórios Bronstein e Sérgio Franco. O médico ressalta que, apesar da decisão do governo norte-americano, a Academia Americana de Pediatria manteve a recomendação destas vacinas.

Essa preocupação é ampliada pelo risco de aprofundamento das desigualdades em saúde. Para a infectologista e consultora em vacinas na Dasa, Rosana Richtmann, decisões como essa tendem a impactar de forma mais severa as famílias com menor acesso à informação qualificada.

“Quem tem acompanhamento médico consistente continuará protegido. Já as populações mais vulneráveis perdem a principal mensagem pública de cuidado coletivo. Parece uma mudança administrativa, mas o impacto é profundamente desigual”, aponta.

As seis vacinas no centro do debate

1. Influenza - a vacinação contra gripe reduz formas graves da doença que podem levar a complicações como pneumonia e internações hospitalares. Crianças menores de cinco anos estão no grupo de risco para quadros graves. Além disso, a imunização infantil ajuda a diminuir a circulação do vírus na comunidade.

2. Hepatites A e B

Hepatite A: protege contra surtos relacionados à água e alimentos contaminados, especialmente em ambientes coletivos como creches e escolas.

Hepatite B: previne infecções crônicas que podem evoluir para cirrose e câncer de fígado - um dos maiores avanços da medicina preventiva nas últimas décadas.

3. Meningococo - vacina contra a meningite bacteriana, que progride rapidamente e pode levar à morte em questão de horas ou deixar sequelas graves, como surdez e danos neurológicos. É crucial para proteger crianças pequenas, que são as mais vulneráveis.

4. Rotavírus - previne casos severos de gastroenterite e desidratação, que continuam sendo uma das principais causas de internação infantil em locais com baixa cobertura vacinal. Em bebês, a desidratação pode evoluir rapidamente para intercorrências fatais.

5. Vírus Sincicial Respiratório (VSR) - principal causa de bronquiolite em bebês, o VSR é um dos maiores motivos de hospitalização no primeiro ano de vida. Sua vacinação reduz internações pediátricas e evita a sobrecarga de UTIs.

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“Muitas vezes não percebemos o impacto dessas doenças porque elas foram controladas pelo sucesso das vacinas. Mas elas continuam sendo uma ameaça real. Vacinação não é só proteção individual, ela é a base de qualquer sistema de saúde eficiente”, orienta Guenael.

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