Matéria publicada no UOL aponta que a Polícia Federal (PF) teve acesso, em uma das fases da operação Sem Desconto, deflagrada para investigar os descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS, a e-mails que indicam que o senador e candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro, teria uma conta no Banco Santander que dividia com o advogado Willer Tomaz.
Em agosto, Tomaz foi alvo de busca e apreensão da PF por suspeita de lavar dinheiro desviado das aposentadorias para o também investigado senador Weverton Rocha (PDT-MA).
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A PF acessou, na investigação sobre o INSS, documentos armazenados em conta no iCloud e encontrou e-mails trocados entre o escritório de advocacia de Willer Tomaz e o banco Santander. O tema das mensagens, segundo a apuração, era uma conta ligada à Alcazar Holdings, empresa em Portugal que tem o advogado como sócio.
Essa é uma das empresas dele listadas pela PF na investigação sobre suposto esquema de lavagem de dinheiro.
Um e-mail de 22 de maio de 2025 enviado por Fayla Zulmira Menezes, funcionária de Willer Tomaz, solicitava ao banco Santander que a conta "3219********29 - Flávio Bolsonaro” fosse desassociada do “usuário master” ligado a Tomaz. No mesmo dia, o Santander confirmou que a conta atrelada ao senador havia sido excluída.
Esse movimento se deu cerca de um mês depois que a primeira fase da operação Sem Descontos foi deflagrada.
De acordo com o site do Santander, uma conta de pessoa jurídica pode ser acessada por mais de um usuário. O banco faz a divisão entre usuário “master”, que poderia realizar todas as operações da conta, e “secundários”, que teriam funções delimitadas pelos usuários master.
“A conta identificada como Flávio Bolsonaro estava, portanto, vinculada ao mesmo contato de usuário master no qual o escritório de Willer Tomaz pedia inclusão da Alcazar, ao lado da conta pessoal do próprio Willer, até aquela data”, diz a Polícia Federal, após análise do e-mail, ao UOL.
PF recomenda aprofundar a investigação
No relatório sobre os e-mails, a PF também destaca a importância de aprofundar a investigação sobre transações e movimentações financeiras de Tomaz e suas empresas, assim como sua relação com agentes públicos como o senador Flávio Bolsonaro.
O candidato à presidência, por sua vez, afirmou em nota que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas". Segundo a reportagem, porém, Flávio já havia admitido publicamente uma relação de “amizade íntima” com o advogado, além de já ter feito um safari na África em 2025 em sua companhia. No mesmo ano, segundo o UOL, o senador também usou um jatinho de Tomaz e, em 2026, ficou em um apartamento em São Paulo do advogado durante a campanha presidencial.
Willer Tomaz também negou, em nota, qualquer relação além da amizade com o senador. "Ele jamais criou usuário em nome do senador Flávio Bolsonaro em qualquer plataforma". Também disse que a conta destacada pela reportagem “nunca lhe pertenceu”.
A PF ainda investiga Tomaz por suspeita de lavagem de dinheiro com bets – em 18 meses, ele apostou R$ 6,6 bilhões, segundo documentos ligados a uma ação de indenização contra a empresa Blaze. Entre janeiro de 2025 e julho de 2026, a sua defesa disse que ele teria vício em jogos, informou um prejuízo de R$ 188,5 milhões e solicitou à Justiça a devolução do montante enviado ao site de apostas online.
Voos internacionais
A Polícia Federal descobriu que duas empresas de Tomaz (Alcazar Holdings, da qual ele afirma ser o único sócio, e Cathedral Holdings, que ele diz ter 24%, ambas em Portugal) pagaram voos em jatos executivos para Flávio Bolsonaro e sua família entre 2024 e 2025.
Segundo a investigação da PF, a Alcazar bancou voos no Legacy 650 de prefixo PP-NLR. A empresa tem um terço do jato, outra cota pertencia à Prime You, empresa que teve Daniel Vorcaro como sócio. Flávio, sua mulher, as suas duas filhas e Willer Tomaz viajaram de Fort Lauderdale (EUA) a Brasília neste avião em janeiro de 2025.
Segundo a PF, a empresa Cathedral Holdings, que vende cotas e pacotes de horas em jatos executivos, bancou voos da NetJets. Flávio e Willer Tomaz, apenas no primeiro semestre do ano passado, de acordo com a investigação, voaram de Lisboa a Nice; e de Cascais a Nice e de Nice à Paris (com as famílias). Esses trajetos foram feitos pela NetJets.
Na investigação sobre os desvios do INSS, a PF descobriu que empresas ligadas à Tomaz eram “como verdadeiro hub financeiro, patrimonial e logístico". Segundo a reportagem, no caso que envolve Flávio Bolsonaro sobre os e-mails sobre a conta do Santander e os voos para o exterior custeados por empresas de Tomaz podem sustentar uma linha de investigação de que o senador seja um dos beneficiários que teriam à disposição o intitulado “hub financeiro”.
Outro beneficiário seria Weverton Rocha (PDT-MA). Nesse caso, a PF classificou Tomaz como “personagem de sustentação, associado a empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos".
Fayla Zulmira, que atua com Willer Tomaz e que havia enviado o e-mail ao Santander sobre a “conta Flávio Bolsonaro”, detalha, em mensagens, pagamentos milionários de contas de Rocha, incluindo compras de imóveis.
Mais ligações
Segundo registros da Receita Federal, a Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, empresa do qual o senador é sócio, é administrada por Letícia Caetano dos Reis, que teve o irmão preso na investigação sobre os desvios do INSS.
Alexandre Caetano dos Reis, o irmão de Letícia, foi alvo da PF por ter prestado serviços de contabilidade ao Careca do INSS, Carlos Camilo Antunes.
Em 2022, em entrevista à Agência Pública, Letícia afirmou ter sido apresentada à Flávio por Willer Tomaz.
Flávio nega ter mantido a conta
A assessoria de Flávio Bolsonaro enviou a seguinte nota à UOL:
"O senador nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas. Toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa. Igualmente falsa é a alegação de que o senador teria criado um usuário no sistema Rede Loto. Isso jamais ocorreu. Essas insinuações não surgem por acaso. Aparecem agora, em pleno período eleitoral, com um propósito único: espalhar fake news. É importante ressaltar que a divulgação de fake news é crime eleitoral. Os envolvidos pela divulgação de notícias falsas serão responsabilizados criminalmente”.
Tomaz diz que há apenas amizade
Já a equipe de Willer Tomaz enviou a seguinte nota à UOL:
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"O advogado Willer Tomaz repudia as informações falsas apresentadas. A conta bancária mencionada nunca lhe pertenceu. Ele jamais criou usuário em nome do senador Flávio Bolsonaro em qualquer plataforma. Entre os dois há apenas amizade, sem relação comercial ou financeira. Atribuir-lhe condutas inexistentes, com base em ilações sem comprovação, é uma grave irresponsabilidade. Em plena campanha eleitoral, fabricam-se mentiras com o evidente propósito de interferir no resultado do pleito. O advogado adotará todas as medidas judiciais cabíveis contra aqueles que, deliberadamente, divulgarem acusações falsas ou utilizarem informações obtidas ilicitamente para atingir sua honra e reputação”.
