Um dia depois de terminar em terceiro lugar na disputa pelo governo de Minas, com quase 800 mil votos, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe (PL), evitou cravar seus próximos passos. Em entrevista coletiva na sede da entidade, nesta segunda-feira (5/10), ele não descartou integrar o secretariado do governador eleito, Cleitinho (Republicanos), nem um eventual ministério num governo Flávio Bolsonaro (PL), que disputa o segundo turno da eleição presidencial.
"Nós estamos um dia depois da eleição. Eu tenho que avaliar", respondeu Roscoe ao ser questionado sobre a declaração de Cleitinho, que elogiou o adversário e disse ter interesse em tê-lo como secretário. O empresário afirmou que vai entregar ao governador eleito "todos os projetos que eu acho que são relevantes pra Minas Gerais" e lembrou que a federação já cumpriu papel semelhante em outra transição. "Quando o Zema teve problema com o Pimentel, a Fiemg forneceu todos os dados que ele não conseguia tirar do governo. A gente tem aqui capacidade pra auxiliar qualquer pessoa."
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Questionado se havia conversas sobre um posto no Ministério da Indústria, caso Flávio Bolsonaro vença, Roscoe não confirmou nem negou. "O Flávio sempre falou: 'Flávio, eu quero você junto comigo em qualquer situação'. A conversa é essa", disse. "Eu estou à disposição do Flávio pra o que ele precisar. Já falei isso com ele, conversei com ele hoje, conversei com ele ontem." Em seguida, ponderou: "Esse estudo de cargo é tudo negociação. E eu não tô brigando por cargo". Na campanha presidencial, disse que vai atuar "enquanto cidadão": "Vou pedir voto pra quem eu acredito, vou fazer trabalho voluntário se for o caso. Mas não mais como candidato".
Enquanto o futuro político não se define, Roscoe quer usar os últimos meses à frente da Fiemg para emplacar uma agenda com o governador Mateus Simões. Ele contou que já havia tratado do assunto antes do resultado das urnas. "Falei: 'Mateus, vamos fazer coisas que eu acho que são de grande impacto'. E ele concordou. Agora eu tenho que sentar com ele novamente e ver se ele está disposto a fazer essas ações, que teriam um legado muito grande pra Minas Gerais e já deixariam parte do trabalho que eu acho que o Cleitinho vai ter que fazer pelo menos encaminhado."
A pauta central é a simplificação de normas e a redução da burocracia estadual. "Minas Gerais já quebrou. Nós estamos quebrados de novo. E fazer mais do mesmo não vai mudar", afirmou. Segundo ele, o governo Zema começou uma agenda nessa direção, mas ela "morreu" no segundo mandato. "Esse negócio de norma, burocracia, é igual unha: se você não corta todo dia, eles criam 100 por hora." Para ilustrar, citou a exigência de validade para certidões de óbito. "O único cara que eu conheço que ressuscitou foi Jesus Cristo. Quer coisa mais definitiva que a morte?"
Roscoe reassumiu a presidência da Fiemg nesta segunda e fica no cargo até 31 de dezembro, quando termina o mandato. Ele afirmou ter deixado cerca de 40 inaugurações do Sistema Fiemg, entre prédios, escolas e clubes, para depois da eleição, a serem feitas nos próximos 90 dias. "Vocês vão ver que eu sou um político diferente. O político inaugura até placa antes", disse, acrescentando que pretende entregar a entidade com R$ 4 bilhões em caixa e mais de R$ 2 bilhões em investimentos no período.
"Vocês estão de brincadeira"
Na coletiva, Roscoe voltou a atacar os institutos de pesquisa. Segundo ele, os levantamentos internos da campanha o mostravam com 15% a 16% das intenções de voto até a quarta-feira anterior à eleição, já em terceiro lugar e "chegando perto do Patrus" (PT), que terminou em segundo. Os números desses trackings não foram divulgados.
"As pesquisas não apontaram hora nenhuma, o que é um absurdo. Eu cheguei a ter pesquisa, quando eu estava dando no tracking 14%, dando a gente 1,8%. Era menor do que eu tinha antes de ser candidato", afirmou. "Teve pesquisa uma semana antes que deu a gente com 1,8%. Eu quase tive um filho. Falei: 'Uai, vocês estão de brincadeira'."
Para o candidato derrotado, os institutos "influenciam a eleição" e precisam ser revistos. "Falam que é ciência, mas não é ciência, porque os parâmetros são muito elásticos. Você tinha pesquisa com resultado completamente diferente", disse. Ele sugeriu ainda que sua candidatura não interessava a nenhum dos adversários: "Era a candidatura que podia crescer. E, curiosamente, é a candidatura que ficou muito abaixo de todas as pesquisas a todo momento".
Roscoe atribuiu a perda de fôlego na reta final à estratégia da campanha de Cleitinho, que passou a pedir voto útil para evitar um segundo turno com o PT. "A gente tem que elogiar quando a estratégia é bem colocada. Eu só não entendo que ela fez bem pra direita", avaliou. "Houve uma desidratação de todos os candidatos. E eu acredito que a candidatura que mais desidratou foi a nossa, porque nós éramos a candidatura da direita."
Traições
O desabafo mais duro foi reservado ao próprio partido. Roscoe afirmou que parte dos deputados do PL endossou o discurso do Republicanos na reta final, pediu voto publicamente para Cleitinho e chegou a estampar o número 10 no lugar do 22 nos santinhos, com liberação da legenda. "Na hora que você vê um deputado do PL dar uma declaração pública dizendo que votar no PL era igual a votar no PT, claro que minha candidatura vai sofrer", disse.
Para explicar o episódio, recorreu a uma metáfora. Lembrou que o PL passou um longo período tentando uma aliança com Cleitinho, que acabou não se concretizando. "Como o namoro não deu certo — e, diga-se de passagem, não deu certo porque o Cleitinho não quis —, a noiva foi largada no altar. Aí chegou outro noivo, que no caso fui eu. Você casa com a noiva que foi largada no altar, e aí parte da noiva resolve que não." E completou: "É muito complexo, estando casado com comunhão de bens, você pagando as despesas da casa. Na minha campanha, o PL não botou nenhum real". Segundo ele, a campanha foi financiada com doações e recursos próprios.
Mesmo assim, Roscoe disse que pretende continuar no partido. Ele poupou Flávio Bolsonaro, o senador Rogério Marinho e os deputados Nikolas Ferreira e Bruno Engler, que, segundo ele, o apoiaram desde o início. "Todo partido tem infidelidade. Na política, eu acho que a regra é a infidelidade, não é a fidelidade", afirmou. "O cara xinga o cara de manhã, está dando beijinho nele de noite. E o eleitor fica ali, preso nessa confusão mental."
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Para o presidente da Fiemg, quem saiu perdendo foi a própria direita. "O segundo turno mantém a eleição quente, mantém a eleição ativa", argumentou. "Eu acho que o Flávio Bolsonaro estava muito melhor se hoje tivesse um segundo turno entre Cleitinho e nós aqui."
