Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, indicam que o banqueiro pediu reiteradamente ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que recorresse ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para conter o avanço das investigações sobre a instituição financeira. Os diálogos, obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo, se estenderam até poucas horas antes da primeira prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025.
Conforme as mensagens, o primeiro pedido explícito para que Moraes atuasse junto à cúpula da PF e do Ministério Público ocorreu em 30 de outubro de 2025. Naquele dia, Vorcaro afirmou ser necessário “reforçar” com Andrei Rodrigues e Paulo Gonet a orientação para que “ninguém de baixo” fizesse “uma sacanagem” contra o Banco Master.
À época, o banco estava prestes a anunciar uma suposta venda para o consórcio formado pela Fictor Holding Financeira e por investidores dos Emirados Árabes Unidos. Cerca de 20 dias antes da primeira prisão, Vorcaro também enviou ao ministro uma relação com quatro delegados e três procuradores da República envolvidos nas apurações preliminares.
As mensagens mostram que a preocupação do banqueiro aumentou à medida que se aproximava a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero. Em 15 de novembro, dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes se seria possível reverter o avanço das investigações. “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”, escreveu.
No dia seguinte, às 16h57, Vorcaro voltou a pedir a intervenção do ministro. Questionou se Andrei Rodrigues teria condições de adiar o cumprimento das medidas cautelares que, segundo ele, estavam próximas de ocorrer. “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, afirmou.
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Na avaliação de investigadores, o conteúdo das conversas indica que o banqueiro tinha conhecimento prévio de que a Polícia Federal poderia deflagrar uma operação contra o Banco Master. Menos de 24 horas antes da prisão, Vorcaro voltou a questionar Moraes sobre a possibilidade de segurar a atuação da PF. “Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei dá pra segurar?”, escreveu.
Comunicação por mensagens de visualização única
A forma como Vorcaro e Moraes trocavam mensagens dificultou a recuperação integral da conversa. Os dois utilizavam o recurso de visualização única, com capturas de tela de textos redigidos no aplicativo de notas do celular.
Dessa maneira, os investigadores conseguiram recuperar as imagens enviadas pelo banqueiro, mas não as respostas de Moraes. O material, portanto, registra os pedidos e comentários de Vorcaro, mas não permite, segundo as informações fornecidas, reconstruir o teor das manifestações do ministro.
Em 4 de novembro, o banqueiro escreveu que não sabia exatamente qual investigação estava em andamento e perguntou se não seria possível “segurar” a atuação de órgãos como o Banco Central e o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) ou encaminhar a questão a Paulo Gonet.
No dia seguinte, voltou a dizer que estava “um pouco perdido” por desconhecer qual inquérito poderia atingi-lo. Vorcaro afirmou que seus advogados Pierpaolo Cruz Bottini e Roberto Podval haviam conversado com Gonet, mas que ainda não havia sequer um número de inquérito definido.
“Não vou fazer nenhum movimento”
As mensagens também mostram Vorcaro consultando Moraes sobre a estratégia jurídica a ser adotada por seus advogados. Em determinado momento, afirmou que não tomaria nenhuma iniciativa sem a aprovação do ministro.
“O Pierpaolo tava querendo fazer uma petição nos órgãos pra nos colocar à disposição e pra ter conhecimento se existem inquéritos. Acha que vale a pena? Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo”, escreveu.
Na mesma mensagem, afirmou que Gonet havia dito que acompanhava pessoalmente o caso e que não haveria “sacanagem”, mas que um episódio ocorrido na véspera havia elevado o nível de preocupação. “Uma ação desmedida coloca em risco milhões de clientes”, disse o banqueiro.
Prisões e avanço da Compliance Zero
Os esforços relatados por Vorcaro nas conversas não impediram o avanço da investigação. A Operação Compliance Zero chegou a dez fases, e o banqueiro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando estava prestes a embarcar para Dubai.
Vorcaro foi solto em 29 de novembro por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Em 4 de março, voltou a ser preso por determinação do ministro André Mendonça, relator da investigação no STF, e permanece detido no 18º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha.
O Banco Master é investigado por suspeitas de emissão de títulos de crédito sem lastro real, manipulação de ativos e uma fraude financeira estimada em R$ 12 bilhões. Mendonça, que é o relator do caso, pediu que a Procuradoria-Geral da República se manifeste sobre o conteúdo das mensagens.
Em outra conversa, registrada em 30 de outubro, pouco depois de pedir a Moraes que acionasse Rodrigues e Gonet, Vorcaro fez elogios ao ministro e afirmou acreditar que ambos poderiam sair fortalecidos da situação.
“Tudo de importante fica no seu colo! Impressionante! Mas seu legado pro Brasil será eterno”, escreveu. Na sequência, afirmou ver uma “chance real de sair ainda mais forte” e disse que isso poderia contribuir para o país. “Juntos em tudo. Muito obrigado por tudo”, concluiu o banqueiro.
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Moraes, Rodrigues, Gonet e a defesa de Vorcaro foram procurados pela reportagem do Estadão para que se manifestassem sobre o conteúdo das mensagens, mas até a publicação desta matéria não haviam se pronunciado.
