Flávio Bolsonaro destinou emenda a miliciano condenado no caso Marielle
PF encontrou conversas entre Robson Calixto, o Peixe, e assessora do senador sobre repasse de quase R$ 200 mil; TCU apontou indícios de desvio
compartilhe
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) destinou uma emenda parlamentar de quase R$ 200 mil a um projeto esportivo após pedido de Robson Calixto, conhecido como Peixe, miliciano condenado por envolvimento no assassinato da ex-vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
A negociação ocorreu em 2023 e foi intermediada por Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar no gabinete de Flávio no Senado e descrita pela Polícia Federal (PF) como "interlocutora direta" de Peixe. Mensagens encontradas no celular do miliciano mostram que ele pediu ajuda para obter recursos e foi orientado pela assessora a reforçar pessoalmente a solicitação com o senador.
Segundo a PF, Flávio destinou R$ 199.999,79 ao Ministério do Esporte, que firmou um termo de fomento com o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (IFOP). O dinheiro deveria financiar o projeto "Jogadores do Futuro", voltado a crianças de Taquara, na região de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
A PF investiga indícios de desvio dos recursos. Um relatório técnico do Tribunal de Contas da União (TCU), produzido em 2025, também apontou suspeitas de irregularidades na aplicação do dinheiro. As conversas sobre a emenda foram reveladas inicialmente pelo jornal O Estado de S. Paulo e pela revista piauí.
Flávio afirmou, por meio de sua assessoria, que a emenda foi destinada "dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte". Segundo o senador, cabe à entidade beneficiária responder pela execução dos recursos.
Pedido de ajuda
As mensagens foram encontradas pela PF no celular de Peixe, apreendido quando ele passou a ser investigado pela morte de Marielle, em 2024. Em 24 de outubro de 2023, Peixe procurou Maria de Fátima. "Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar", escreveu. A assessora respondeu: "Manda a solicitação meu amigo. Um e-mail ou um ofício".
Leia Mais
Peixe encaminhou, então, um arquivo identificado como "Ofício nº 002_2023". Na sequência, a assessora perguntou quando ele iria a Brasília. O miliciano respondeu que viajaria em novembro e voltou a questionar se o senador poderia ajudá-lo.
Dois dias depois, Maria de Fátima perguntou a Peixe se ele ainda estava com o então deputado federal Chiquinho Brazão. Após receber uma resposta afirmativa, a assessora mencionou um evento e orientou: "Vc vai tbm [também] e já reforça o pedido com o senador".
Ela também encaminhou um convite para Brazão participar de uma cerimônia de entrega de 396 coletes balísticos à Polícia Militar do Rio e acrescentou: "Leva o deputado". Para a PF, o evento, cujo convite era extensível a Peixe, poderia servir como uma "ocasião em que o pedido de recursos poderia ser pessoalmente reforçado" com Flávio.
Peixe voltou a procurar a assessora em 30 de outubro para perguntar se havia "notícias boas". Em 6 de novembro, insistiu no pedido. "Bom dia, amiga não esquece do IFOP não, vê se o Senador consegue nos agraciar, para não terminar o nosso projeto", escreveu. "Pode deixar", respondeu Maria de Fátima. Dias depois, ainda em novembro de 2023, a emenda foi destinada ao instituto.
TCU apontou indícios de irregularidades
Em relatório elaborado em 2025, o TCU identificou indícios de desvio dos recursos destinados ao projeto. Entre os pontos levantados está a contratação, pelo IFOP, da Romulo Alves - Sociedade Individual de Advocacia para coordenar o projeto de treinamento esportivo. Segundo o tribunal, a atividade da empresa consistia em "serviços advocatícios", sem relação com a coordenação de atividades esportivas.
O TCU também apontou que o responsável pela empresa contratada era o próprio presidente do IFOP, entidade responsável pela contratação. A apuração da PF identificou ainda novos contatos entre Peixe e a assessora do senador depois da destinação da emenda. Em janeiro de 2024, Maria de Fátima pediu ao miliciano quatro ingressos para o desfile das campeãs no camarote Arpoador, no Sambódromo do Rio.
Segundo a PF, Peixe procurou um terceiro para obter as entradas e "atender à solicitação de vantagem indevida formulada pela assessora do Senador Flávio Bolsonaro". As mensagens analisadas pelos investigadores não indicam quem utilizou os ingressos.
Em março de 2024, Peixe voltou a cobrar recursos. "Consultamos as destinações parlamentares e não tinha nada do nosso Senador, porém estamos no aguardo", escreveu. O relatório da PF não registra resposta da assessora.
Condenação no caso Marielle
Peixe foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em fevereiro deste ano, a nove anos de prisão e à perda do cargo de policial militar reformado. Ele foi acusado de atuar como elo entre os executores do assassinato de Marielle e Anderson e os apontados como mandantes do crime, os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio e ex-deputado federal, respectivamente.
Os diálogos fazem parte de uma investigação sigilosa que tramita no Supremo sobre supostos desvios de emendas destinadas a entidades ligadas aos irmãos Brazão. A apuração cita recursos enviados por diferentes deputados federais, além da emenda de Flávio Bolsonaro.
O que diz Flávio Bolsonaro
Em nota, Flávio afirmou que a destinação dos recursos seguiu a legislação e os critérios técnicos do Ministério do Esporte. O senador disse ainda que a entidade responsável pelo projeto apresentou notas fiscais e devolveu valores que não foram utilizados.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
"A responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei", afirmou.