Em livro, Cury se compara a Jesus, Lincoln e Luther King como 'sonhador'
O candidato à Presidência tem ativos 128 International Standard Book Number (ISBNs), uma espécie de RG de livros, segundo a Nielsen BookScan
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O primeiro é o filho de Deus, que morreu pelos pecados de todos, na ótica dos cristãos. O segundo liderou os Estados Unidos durante a Guerra Civil (1861-1865) e declarou livres os escravizados daquele país. O terceiro foi um dos maiores ativistas do século 20, com papel fundamental na luta pelos direitos civis e contra a discriminação racial.
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Para o presidenciável Augusto Cury (Avante), Jesus, Abraham Lincoln e Martin Luther King, com ele próprio, compõem um quarteto de exemplares "sonhadores" com grandes contribuições para a humanidade.
É assim que Cury, de 67 anos, se apresenta no livro Nunca desista de seus sonhos (Editora Sextante, 2015), um entre as dezenas já escritos por ele ao longo da carreira de escritor, psiquiatra e empresário. Na obra, ele se apresenta como referência de quem não desistiu, apesar das adversidades, e de intelectual responsável por transformar a psicologia com suas teorias.
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Na prática, porém, as teses de Cury são contestadas por especialistas. Uma delas, a Teoria da Inteligência Multifocal, "uma abordagem revolucionária que permite compreender o funcionamento da mente humana e desenvolver estratégias eficazes para lidar com as emoções", é apresentada como método revolucionário, mas não é reconhecida por pesquisadores da área.
Outra, a síndrome do pensamento acelerado (SPA), já levou pacientes com o autodiagnóstico, inflado por celebridades, ao consultório de médicos preocupados com o fenômeno, sem Classificação Internacional de Doenças (CID) e reconhecimento pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
No livro "Ansiedade - Como enfrentar o mal do século" (Editora Benvirá, 2025), Cury cita a SPA como produzida pelo "desgaste cerebral intenso" decorrente da "aceleração do pensamento". Alguns dos sintomas seriam mente inquieta ou agitada, insatisfação e sofrimento por antecipação.
As causas seriam:
- Excesso de informação
- Trabalho intelectual
- Uso de celulares e computadores
Segundo especialistas, porém, a doença, tratada como "o novo mal do século, suplantando a depressão", só existe nas obras de Cury e seria a expressão de transtornos como a ansiedade.
A criação das teorias foi posterior à trajetória marcada pela displicência com os estudos, segundo afirma Cury em "Nunca desista dos seus sonhos". Ele relata ter sido um menino "hipersensível" que, com o tempo, "tornou-se dinâmico, arrojado, impulsivo, criativo". O período, afirma, foi marcado pela dificuldade financeira na família, com os pais e os cinco irmãos dormindo num "mesmo quarto, numa pequeníssima casa".
Na juventude, "gostava de festas e poucos compromissos" e era "um desastre" no colégio, afirma. Usava "roupas bizarras", vivia com os cabelos revoltos e "tinha obsessões". Uma delas é que não gostava da própria testa, achava-a "comprida demais".
Quando dizia que almejava ser médico, era motivo de chacota. Em um momento, porém, "parou de brincar com a vida", diz Cury sobre si mesmo. "Resolveu levá-la a sério, Não queria ficar à sombra do pai. Queria construir sua própria história. Deixou as festas, as orgias, o convívio com amigos e resolveu ir atrás dos seus sonhos".
Daí, afirma o presidenciável, rumou para a produção de obras que registrariam suas teorias, rejeitadas inicialmente pelas editoras. "Falo com humildade, mas, creio, fiz importantes descobertas que provavelmente reciclarão alguns pilares da ciência durante o século 21", diz Cury em "Nunca desista de seus sonhos".
Apesar de suas ideias, segundo estima ele próprio, terem potencial para mudar "a maneira como vemos a nós mesmos, como entendemos a nossa espécie", Cury segue sendo o mesmo desatento, segundo descreveu.
Pai de três filhas, Camila, Carol e Claudia, e casado com a dermatologista Suleima, Cury relata que, ao contar o encontro com uma amiga que relembrou o quanto era "relaxado e distraído" na juventude, as filhas "riram bastante" e comentaram "que eu não tinha mudado muito", diz em livro. "Minhas filhas e minha esposa cuidam de mim. Nunca sei combinar roupa, e se me deixarem por conta própria sou capaz de vestir uma meia de cada cor".
Cury tem ativos 128 International Standard Book Number (ISBNs), uma espécie de RG de livros, segundo a Nielsen BookScan. De acordo com dados da companhia, o número de exemplares vendidos pelo autor teve variação que saiu de +4% na semana de 17 a 23 de agosto para +135% na semana de 24 a 30 de agosto, período marcado por entrevista na Rede Globo no dia 29.
Na semana seguinte, de 31 de agosto a 6 de setembro, o volume de vendas ficou abaixo da semana da entrevista, com queda de - 44% em relação ao período anterior. Só pela Sextante, uma de suas editoras, são mais de 20 milhões de vendas desde 2002, de acordo com a marca.
Na corrida presidencial, Cury está na frente de outros candidatos que tentam ser opção ao presidente Lula (PT) e ao senador Flávio Bolsonaro (PL). Em pesquisa Datafolha feita de 8 a 10 de setembro, ele teve 6%, frente a Ronaldo Caiado (PSD), com 4%, Renan Santos (Missão), com 3%, e Romeu Zema (Novo), com 2%. Lula tem 39%, e Flávio, 35%.
O candidato do Avante vai melhor entre os jovens, grupo que menciona repetidas vezes no livro "Nunca desista dos seus sonhos". No último Datafolha, os índices são de 8% entre aqueles com 16 a 24 anos, 7% na faixa etária de 25 a 34 anos e 8% entre quem tem 35 a 44 anos. Nos dois segmentos mais velhos, o valor cai para 5% (45 a 59 anos) e 3% (60 anos ou mais).
No livro, Cury considera a juventude "despreparada para viver nessa estressante sociedade". Ela é mencionada como segmento insatisfeito, ansioso e que precisa, "urgentemente", desenvolver resistência intelectual e emocional.
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"O sistema social construído pelos adultos cometeu um crime contra a mente dos jovens. Eles perderam o apetite de aprender, são insatisfeitos, ansiosos, precisam de muito para conquistar pouco no território da emoção", afirma o presidenciável.