Ocupação de fazenda em Uberlândia entra na disputa pelo governo de MG
Patrus, Simões, Kalil e Gabriel Azevedo se manifestaram sobre a Fazenda Bom Jardim; atuação do governador também virou alvo de representação no TRE-MG
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A ocupação de parte da Fazenda Bom Jardim, em Uberlândia, no Triângulo, por integrantes do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade, passou a mobilizar candidatos ao Governo de Minas Gerais. O grupo entrou na propriedade, localizada próxima às margens da MGC-497, no último domingo (30/8), e o episódio provocou alguns candidatos ao Governo de Minas, como Mateus Simões (PSD), Alexandre Kalil (PDT), Patrus Ananias (PT) e Gabriel Azevedo (MDB).
Simões vai ao local
O governador e candidato à reeleição, Mateus Simões, afirmou ter alterado a agenda de campanha ao chegar a Uberlândia para acompanhar a situação na fazenda. Em vídeo publicado nas redes sociais, o governador disse que a Polícia Militar havia cercado a área e afirmou que o governo não toleraria a ocupação.
“Acabei de pousar em Uberlândia, vim pra uma agenda de campanha, tem Sabatina na Globo amanhã, mas tô deslocando diretamente aqui pra estrada do Prata, onde um grupo de pessoas no final da manhã tentou invadir uma propriedade privada produtiva. Lembrando, gente, que em Minas nenhuma invasão foi bem-sucedida ao longo desses últimos sete anos e dez meses, oito meses que nós estamos à frente do governo e vai continuar sendo assim”, afirmou.
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Simões também declarou que a polícia atuaria “com inteligência e com respeito” e disse que a área havia sido cercada para impedir a entrada de novas pessoas e estruturas. “Nós, primeiro, cercamos a área pra que ninguém mais entre, pra que não entre estrutura, pra que não entrem coisas lá pra dentro, pras pessoas não terem estrutura pra continuar se organizando ali, porque estão numa invasão proibida. Em Minas Gerais, invasão continua sendo crime, não será tolerado e nós vamos agir com todo rigor, sem violência, mas com todo rigor necessário”, disse.
Uma representação protocolada pela deputada estadual Bella Gonçalves no Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais TRE-MG, na segunda-feira (31/8), sustenta que houve mistura entre atividade governamental e propaganda eleitoral. Os vídeos citados no processo foram publicados com CNPJ eleitoral, identidade visual da campanha, nome e número do candidato.
Segundo a representação, Simões afirma inicialmente que estava em Uberlândia para uma agenda de campanha e, na sequência, relata providências relacionadas à atuação do governo. Em outra passagem transcrita no processo, declara que “quem comanda a polícia de Minas Gerais é o governador do Estado”.
“Nota-se que o candidato se vale da condição de Governador, fazer referência à sua política de combate às ocupações e afirmar as medidas que, como chefe do Governo, estava determinando, como o cercamento da área, acionamento do Conselho Tutelar, disponibilização do SAMU e, com muita ênfase, a atuação da Polícia Militar, deixando expresso que ‘quem comanda a polícia de Minas Gerais é o governador do Estado’ e que todas as providências em curso se dão por sua determinação na função pública. O candidato ainda afirma que a área ‘podia ser do Lula’, seu adversário político eleitoral e que ainda assim ele agiria como Governador”, consta no documento.
A Lei das Eleições proíbe condutas de agentes públicos que possam afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos. A representação, porém, constitui uma acusação e ainda depende de análise e decisão da Justiça Eleitoral.
Patrus critica atuação do governo
Ex-prefeito de Belo Horizonte, Patrus Ananias afirmou acompanhar a situação em Uberlândia “com apreensão” e defendeu que eventuais discussões sobre reforma agrária sejam conduzidas dentro dos procedimentos previstos em lei. “Fui ministro do Desenvolvimento Agrário, sei da importância da terra para a produção de alimentos, e nunca estimulei ocupações: sempre trabalhei por uma reforma agrária justa, feita dentro da lei”, afirmou.
O candidato também citou o direito à propriedade e a exigência constitucional de cumprimento da função social. "A Constituição é clara, o direito de propriedade é garantido, e a propriedade deve cumprir sua função social. Quando não cumpre, o caminho é a desapropriação feita pelos meios legais, para assegurar os direitos do proprietários, mas também a produção de alimentos, o desenvolvimento econômico e a justiça social. Nunca a força, de nenhum lado.”
Patrus criticou ainda a forma como o governo estadual reagiu ao episódio. “O que se vê em Uberlândia é um governo que falhou em prevenir o conflito e agora quer trocar a Justiça pelo espetáculo. Desocupação se faz com ordem judicial, com mediação do Ministério Público e da Defensoria Pública, não com vídeo para internet.”
TRE mantém vídeo de Kalil contra Simões
Alexandre Kalil também entrou no debate ao publicar um vídeo cobrando uma reação de Simões à ocupação. “Pessoal, estão invadindo terra em Uberlândia? O maior centro que nós temos de agricultura em Minas Gerais? Ô governador, deixa de ser frouxo, sô! Vai lá e resolve! Nós vamos resolver isso, gente. Primeiro de janeiro isso acabou!”, afirmou.
A coligação “Minas no Caminho Certo”, de Simões, entrou com uma ação no TRE-MG pedindo a retirada imediata do conteúdo. A campanha alegou que as declarações seriam ofensivas à honra e à imagem do governador e apontou ainda possível irregularidade no impulsionamento da publicação.
Na noite de segunda-feira (31/8), o juiz auxiliar Mauro Ferreira indeferiu o pedido de retirada imediata. Em análise preliminar, o magistrado considerou que o vídeo constitui crítica política protegida pela liberdade de expressão e destacou que o conteúdo não apresenta referência explícita ao pleito, aos cargos em disputa ou pedido de voto.
Conforme a decisão, “o debate político deve ser protegido de intervenções judiciais desnecessárias, preservando-se o pluralismo democrático e a livre manifestação de pensamento”. A representação continua em tramitação e ainda será julgada definitivamente. A coligação de Simões pode recorrer da decisão liminar.
Gabriel pede informações ao Incra
Gabriel Azevedo adotou outro caminho e protocolou nesta terça-feira (1º/9) um pedido de acesso à informação no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para esclarecer a situação fundiária e agrária da Fazenda Bom Jardim.
O pedido foi registrado sob o número 21210.009369/2026-20 e aparece no sistema como cadastrado. O prazo inicialmente informado para a resposta é 21 de setembro. Advogado e professor de Direito, Gabriel criticou o que classificou como “oportunismo eleitoreiro” na reação de adversários e afirmou que a definição sobre a propriedade deve seguir as competências previstas na legislação.
“Eu não ensino uma coisa dentro da sala de aula para fazer outra aqui fora. Governador não expede mandado de reintegração, movimento social não faz reforma agrária e ocupação não transfere propriedade. Cada instituição tem uma competência e a lei precisa valer para todos”, afirmou Gabriel.
O candidato lembrou que eventual desapropriação de imóvel rural para fins de reforma agrária é competência da União, conforme o artigo 184 da Constituição. O artigo 186, por sua vez, estabelece critérios para o cumprimento da função social da propriedade, entre eles aproveitamento racional e adequado, preservação ambiental, relações de trabalho e bem-estar.
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“Não é candidato, governador nem movimento social que simplesmente declara uma terra produtiva ou improdutiva. Essa análise exige documentos, fiscalização, processo e vistoria. É aí que entra o Incra”, afirmou.