O governador Mateus Simões (PSD) admite que a presença do senador Cleitinho (Republicanos) na disputa pelo governo de Minas coloca em risco o seu próprio desempenho porque drena votos orgânicos do bolsonarismo, que tracionam o campo da direita. Para além desse desafio, contudo, Simões segue reiterando que não acredita na candidatura do senador ao governo. “A minha compreensão é de que Cleitinho é um homem inteligente. Acho que a maioria das pessoas, por conta da forma simples dele, acha que ele não é uma pessoa inteligente. Como um homem inteligente e muito verbal, ele não tem nenhum interesse em disputar uma eleição em que, se for derrotado, para ele será muito ruim politicamente e, se ganhar, será para ele muito ruim politicamente. Minas Gerais é um estado com muitas restrições orçamentárias, ele conhece plenamente as restrições orçamentárias e teria muita dificuldade de colocar em prática qualquer uma das grandes medidas disruptivas que defende publicamente, como, por exemplo, o fim dos pedágios.”
Com ou sem Cleitinho na disputa, contudo, Mateus Simões se projeta no segundo turno da eleição, em trajetória semelhante à de Fuad Noman em 2024: o campo lulista não conseguiu se organizar e expandir o seu leque de alianças à direita. Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, Mateus Simões comenta o desempenho da candidatura de Romeu Zema (Novo) ao Palácio do Planalto, as dificuldades de composição com o PL em Minas após o estremecimento entre Zema e Flávio Bolsonaro, como a composição de sua chapa está atrelada ao cenário nacional e as disputas entre os pré-candidatos ao Senado Marcelo Aro e Carlos Viana. Confira os principais pontos da entrevista.
Leque de alianças e indefinição da Federação União Progressista
“Tenho, além de PSD e do Novo, o compromisso de União Brasil e PP, tanto nacionalmente, quanto no estado. Também PRD e Solidariedade. E ao lado deles ainda DC, Mobiliza e Podemos. São nove partidos. A gente mantém conversas com outros partidos de centro-direita, mas esses são os nove que já estão ajustados nessa caminhada. Desde que meu nome foi colocado para o governo, ainda no ano passado, o primeiro conjunto de partidos a se juntar ao PSD e ao Novo foi exatamente União-PP. Um único pedido foi feito: que Marcelo Aro (PP) fosse o meu candidato ao Senado. E esse compromisso é um compromisso que ninguém me tira, é conhecido do senador Carlos Viana (PSD), como também é conhecido por todos os envolvidos nisso. Meu desejo é que a gente possa ampliar a coligação na direção de PL, com compromisso também público, assumido pelo ex-presidente Bolsonaro comigo e por mim com ele, de permitir que Domingos Sávio (PL) seja o segundo candidato ao Senado nessa chapa, junto com Marcelo Aro. Agora, não acontecendo essa união com PL, a gente tem a possibilidade de duas vagas. Se o PL não vier, tem mais espaços aí para a gente discutir. A gente ainda tem outras composições possíveis. A certeza que eu tenho nesse momento é que o meu candidato ao Senado é Marcelo e essa decisão é uma decisão conhecida pelo PSD inclusive.
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Disputa pela sobrevivência entre Marcelo Aro e Carlos Viana
Se Marcelo Aro e Carlos Viana disputam o segundo voto, juntos eles ainda poderiam ter muito mais do que a Marília Campos (PT) e o Domingos Sávio (PL) isolados, que têm um teto de 30% do primeiro voto, de qualquer forma, que não existe nem para Marcelo, nem para Viana, numa eleição que é de 200%. Então eu não concordo com a matemática de que seja impossível os dois vencerem juntos. É claro que para os dois é melhor que o outro não seja candidato. Os dois têm dito publicamente, e eu entendo que eles estão na defesa do interesse próprio, é que eles não querem que o outro seja candidato. E não que o outro não esteja na mesma chapa que ele, porque esteja na mesma chapa ou não, você disse bem, eles brigam pelo mesmo voto.
Vice da chapa
A minha preferência para a vice sempre foi e é até o fechamento da janela partidária que Cleitinho pudesse indicar o irmão dele, o Gleidson, para vice. Porque isso atenderia a dois movimentos. O movimento do Cleitinho e o movimento do Novo, porque Gleidson estava no Novo. Com a saída de Gleidson do Novo, eu voltei a me colocar na posição que eu estou desde que fui pro PSD: a decisão vai ser do governador Romeu Zema, que é um homem cônscio. Ele não tomou a decisão ainda, porque sabe que lá na frente depende um pouco como vai estar a situação dele nacionalmente. Se ele for candidato isoladamente, provavelmente vai querer que essa vaga fique pro Novo. Se de alguma forma houver alguma movimentação nacional diferente, talvez isso entre numa composição.
Aposta que Cleitinho não concorrerá
A minha compreensão é de que Cleitinho é um homem inteligente. Acho que a maioria das pessoas, por conta da forma simples dele, acha que ele não é uma pessoa inteligente. Como um homem inteligente e muito verbal, ele não tem nenhum interesse em disputar uma eleição em que, se for derrotado, para ele será muito ruim politicamente e, se ganhar, será para ele muito ruim politicamente. Minas Gerais é um estado com muitas restrições orçamentárias, ele conhece plenamente as restrições orçamentárias e teria muita dificuldade de colocar em prática qualquer uma das grandes medidas disruptivas que ele defende publicamente, como, por exemplo, o fim dos pedágios. Ele disse que vai acabar com os pedágios imediatamente se entrar no governo. Como? Ele também diz que vai promover uma redução brutal de tributos, fala até em isenção de IPVA. Como? Ele fala sobre reajuste real para os servidores públicos. Com qual dinheiro? O Cleitinho acredita nessas bandeiras. Exatamente por acreditar, ele tem consciência de quais são aquelas que ele não consegue executar, com as restrições orçamentárias do estado de Minas Gerais. Então, se ele ganha a eleição, ele se coloca num xeque-mate de não conseguir implantar o que defende. Por outro lado, se perde a eleição, sacrifica o capital político dele por não ter conseguido chegar ao final da corrida. É por isso que eu não acredito que Cleitinho concorra. É porque eu valorizo a capacidade de leitura política de Cleitinho, que eu acho que muita gente menospreza. E ele está fazendo um movimento que é muito curioso. Falou que ia decidir no começo do ano, depois que ia decidir em março, depois que ia decidir na Copa, agora já falou ontem que me parece que vai decidir em agosto. Para mim isso é a realização desse cenário que eu estou dizendo, não faz sentido para ele.
Cleitinho coloca em risco a presença de Mateus Simões no segundo turno
Eu acho até que o Cleitinho abrange, num primeiro turno, eleitores que talvez eu nem alcance, porque ele pesca na direita e na esquerda. Ele não é um candidato da direita. É um candidato popular. Então, ele me prejudica, mas prejudica qualquer outro player da eleição. Se for eu e Marília, ele prejudica a mim e a Marília. Se for eu e Kalil, a mesma condição.
Projeção da disputa no segundo turno
(Se concorrer), Cleitinho é candidato certo no segundo turno. Tenho também convicção de que hoje, até pela conjuntura geral, de que eu também vou para o segundo turno. Talvez, por mérito meu, talvez por incompetência dos meus adversários, ou só por acaso mesmo, o fato é que a outra faixa de votos, que são os votos da esquerda, não conseguiu se organizar. Então, eu continuo achando que é muito difícil uma eleição em que eu não vá para o segundo turno. A última pesquisa de dado completo, aberta, registrada, mostra que 75% dos eleitores ainda não decidiram o seu voto. E dos 25% que decidiram, metade está disposta a mudar o voto diante das propostas que forem apresentadas. Essa pesquisa também diz que eu sou desconhecido por 65% dos eleitores de Minas. O que significa que o retrato que a gente tem na pesquisa neste momento, em que as pessoas não estão prestando atenção no processo eleitoral estadual, é um retrato de recall. A minha expectativa é de que nós vamos ter um cenário muito parecido com o que vimos em BH com Fuad Noman (PSD). Eu estou melhor na pesquisa que Fuad estava na mesma pesquisa da mesma data. Estou numa posição bem parecida com a que estava (Antonio) Anastasia no mesmo período. A minha expectativa até não é de uso da máquina, não. É de reconhecimento público de que o caminho que a gente vem trilhando desde 2019 é um caminho que merece continuar sendo trilhado.
Candidatura Zema e dificuldades de composição em Minas
Eu falei numa entrevista que seria mais conveniente para mim que Zema e Flávio tivessem numa mesma chapa. Conveniência não é desejo. Mas para mim seria mais fácil, é só isso. Porque se a gente tivesse no cenário nacional uma reunião da frente bolsonarista com a proposta de Zema, em qual lógica ou ordem fosse, aqui a eleição, na minha opinião, estava resolvida: nós, políticos de centro-direita, representamos a maior parte da população do estado de Minas Gerais. Os partidos de centro-direita têm 804 prefeituras no estado. Os partidos de esquerda têm 49 prefeituras no estado. Então, o problema é que esse cenário não existe hoje por conta da candidatura presidencial do governador. Eu não tenho nenhum desejo de que o Romeu Zema recue. Eu só digo que teria uma vida muito mais fácil aqui se eles compusessem lá.
“A direita é maior do que o bolsonarismo”
Nós podemos entrar numa discussão que você vai gostar, que é a de ciência política, porque bolsonarismo não é campo político. Campo político é direita e esquerda. O governador é um homem de direita e o bolsonarismo é uma escolha de um líder. O governador não é bolsonarista. O governador é um político de direita. Ele não é um político bolsonarista. Eu acho que isso é importante dizer, porque quando falo que gostaria de me reunir ao bolsonarismo, não estou dizendo que gostaria de me transformar em bolsonarista. Eu nunca fui bolsonarista. E acho que o governador Romeu Zema tem posições parecidas com as minhas, com uma diferença: ele teve uma relação pessoal com o presidente Bolsonaro, ao longo de todos os anos, o que eu nunca tive. Tenho uma relação de respeito com o presidente Bolsonaro, mas nunca tive uma relação direta com ele. Curiosamente, hoje, o governador Romeu Zema é visto mais como um antagonista do Bolsonaro do que eu, em que pese a proximidade histórica deles seja muito maior. Mas acho que a marcação política do governador Romeu Zema é a mesma do Ronaldo Caiado (PSD) e a mesma do Renan Santos (Missão). Nenhuma das terceiras vias colocadas conseguiu se mostrar ainda viável. Acho só que está cedo para a gente descobrir se alguma delas vai se viabilizar, mas que o presidente Lula tem conseguido até aqui manter a posição dele e Flávio derreteu menos do que o resto da direita imaginava que derreteria. Acho só que nós não vimos ainda o final desse filme porque o PT não fez nenhum ataque frontal ainda a Flávio. Todo o derretimento de Flávio até aqui decorre das ações do próprio Flávio.
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Estremecimento de Zema e Flávio e relação com o PL em Minas
(A posição de Zema no caso Dark Horse) interrompeu as conversas com o PL. A gente vinha conversando. Tenho uma relação muito positiva com o Nikolas Ferreira (PL), muito boa com o Domingos Sávio (PL), apesar de entender que Domingos tem preferência clara pela candidatura do Cleitinho, porque isso ajudaria candidatura dele. Mas isso nunca prejudicou a nossa relação direta, que é também com o Zé Santana e com o próprio Zé Vítor. Eu converso pelo menos uma vez por dia com algum dos interlocutores do PL. Só que não mais sobre junção de palanque aqui. Vamos esperar um pouco para ver onde é que o cenário nacional vai se acomodar. É a minha leitura do Nikolas, do Domingos: vamos esperar um pouquinho, talvez isso se acomode em Brasília de alguma forma. Caso se acomode, o carro está parado no mesmo lugar que ele estava, quando a gente parou essa conversa há 60 dias.
