Bolsonaro criou o Pix? Entenda como nasceu o sistema de pagamentos
Lançado durante o governo Bolsonaro, o Pix começou a ser concebido ainda na gestão Temer e foi desenvolvido pelo Banco Central ao longo de mais de dois anos
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Reivindicado por aliados de Jair Bolsonaro (PL) como uma das realizações de seu governo, o Pix foi construído ao longo de diferentes gestões. Apesar de ter entrado em operação em novembro de 2020, durante o governo do então presidente Bolsonaro, o sistema de pagamentos instantâneos começou a ser desenhado anos antes e foi concebido, desenvolvido e implementado pelo Banco Central do Brasil (BC), autarquia federal autônoma, responsável pela gestão monetária do país.
O próprio Jair Bolsonaro admitiu desconhecer o projeto no mesmo mês em que teve início o cadastramento das primeiras chaves Pix e ainda cometeu uma gafe ao confundir o assunto com uma medida relacionada à aviação civil.
A ferramenta, ao contrário do que sugerem discursos da pré-campanha do "filho 01" do ex-presidente, foi resultado de um processo conduzido pela autoridade monetária, que coordenou estudos técnicos, consultas ao mercado, regulamentação e o desenvolvimento da infraestrutura para colocar a ferramenta em funcionamento.
Os primeiros passos ocorreram ainda durante o governo de Michel Temer (MDB). Em maio de 2018, o Banco Central publicou a Portaria nº 97.909, que criou o Grupo de Trabalho para Pagamentos Instantâneos (GT-PI), responsável por discutir a construção de um sistema nacional capaz de realizar transferências em tempo real, com funcionamento ininterrupto e integração entre instituições financeiras.
Naquele momento, o nome Pix ainda não existia. No entanto, os pilares da futura plataforma já estavam definidos. O documento previa uma infraestrutura centralizada operada pelo Banco Central, disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, com liquidação individual e imediata das transações.
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Segundo o próprio Banco Central, o grupo de trabalho representou a primeira etapa formal do projeto e contou com a participação de mais de 130 representantes de instituições financeiras, empresas de tecnologia, fintechs e demais agentes interessados na construção do novo sistema.
Ainda em dezembro de 2018, nos últimos dias do governo Temer, a diretoria colegiada do Banco Central aprovou o Comunicado nº 32.927, um marco para o desenvolvimento do Pix. O documento consolidou os requisitos da futura plataforma e oficializou a autoridade monetária como responsável pela implementação do sistema.
Desenvolvimento ocorreu durante o governo Bolsonaro
A fase de construção tecnológica começou em outubro de 2019, já sob o governo Bolsonaro. Coube ao Banco Central desenvolver a infraestrutura operacional, definir regras de participação, regulamentar o funcionamento do sistema e coordenar sua implantação junto às instituições financeiras.
Em fevereiro de 2020, a autoridade monetária apresentou oficialmente a marca Pix. Segundo o Banco Central, o nome foi inspirado em conceitos ligados à tecnologia, transações digitais e pixels, representando a comunicação instantânea entre os agentes do sistema financeiro.
O cadastramento das primeiras chaves começou em outubro de 2020. Poucas semanas depois, em 3 de novembro, o sistema entrou em operação restrita para testes. A inauguração oficial ocorreu em 16 de novembro daquele ano.
Hoje, o Pix é o principal meio de pagamento utilizado pelos brasileiros. Segundo dados do Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas físicas já utilizaram o serviço, o equivalente a cerca de 80% da população brasileira. Até outubro do ano passado, o sistema havia movimentado mais de R$ 3 trilhões.
Ao longo dos anos, novas funcionalidades foram incorporadas à plataforma, entre elas Pix Saque, Pix Troco, Pix Agendado, Pix Automático, pagamentos por aproximação e mecanismos especiais para devolução de recursos em casos de fraude. O resultado foi uma rápida substituição de instrumentos tradicionais, como TED, DOC e boletos bancários.
Bolsonarismo quer colher os “louros” do Pix
Em ritmo de pré-campanha, aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL), herdeiro político do ex-presidente na disputa ao Planalto, intensificaram a tentativa de associar ao governo de Jair o legado do Pix. O argumento se apoia no fato de que o sistema foi lançado durante sua gestão, embora a concepção e o desenvolvimento tenham sido conduzidos pelo Banco Central ao longo de diferentes governos.
Em passagem por Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, nessa quarta-feira (3/6), Flávio Bolsonaro exibiu um cartaz com a frase "O Pix é do Brasil e do Bolsonaro". O gesto ocorreu em resposta ao presidente Lula (PT), um dia após ele aparecer em um evento segurando um cartaz com os dizeres "O Pix é do Brasil".
Na mesma data, o PL já havia publicado uma mensagem nas redes sociais reivindicando para Bolsonaro a criação do sistema, o que levou internautas a resgatarem um vídeo gravado em outubro de 2020, pouco mais de um mês antes do lançamento oficial da plataforma, quando o ex-presidente demonstrou total desconhecimento da iniciativa.
Na gravação, um apoiador parabeniza Bolsonaro pelo Pix durante uma conversa na saída do Palácio da Alvorada. O então presidente, porém, interpreta que o assunto se refere a medidas relacionadas à aviação civil. "Tem um documento aí da turma do Tarcísio (então ministro da Infraestrutura) esta semana que vai praticamente desregulamentar, desburocratizar tudo sobre aviação civil aí, carteira de habilitação para piloto", respondeu.
O bolsonarista tratou então de explicar a Bolsonaro sobre o que falava: “Esse é do Banco Central, para pagamentos." O presidente replicou: "Não tomei conhecimento. Vou conversar esta semana com o Roberto Campos (então presidente do BC)."
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A discussão voltou à tona após o governo dos Estados Unidos citar o Pix entre os argumentos utilizados para justificar a imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros. Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro se pronunciaram, defendendo o sistema de pagamentos.