BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Governistas e aliados do presidente Lula (PT) acusam Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de articular uma interferência dos Estados Unidos no Brasil, após Donald Trump decidir classificar as facções CV (Comando Vermelho) e PCC (Primeiro Comando da Capital) como terroristas. A demanda foi levada pelo senador na última terça (26), em visita ao país.
A intenção da equipe de Lula deve ser associar a imagem do senador e pré-candidato à Presidência pelo PL à de milicianos, como forma de reagir ao fato e conseguir manter o discurso em defesa da soberania.
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"Será que os EUA também vão classificar como terrorista a milícia do Rio de Janeiro ligada aos Bolsonaro?", disse o ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral).
Sob reserva, aliados do presidente dizem ainda que a intenção é reforçar o caso "Dark Horse", sobre o envolvimento entre Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, como uma resposta à interferência do senador no processo de discussão entre Brasil e EUA sobre crime organizado.
A ida do filho mais velho de Jair Bolsonaro (PL) aos EUA ocorreu em um momento de crise em sua pré-campanha, após as revelações de seu envolvimento com Vorcaro, para quem pediu recursos para financiamento do filme sobre seu pai.
"Segurança pública é um tema fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. Crime organizado é um mal que tem que ser combatido", disse Celso Amorim, assessor especial da Presidência, responsável pelas tratativas de assuntos internacionais. "Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável."
Um integrante do Palácio do Planalto afirma que o governo também deve aproveitar para reiterar a intenção de extraditar líderes de organizações criminosas do Brasil que estão em Miami, ponto já verbalizado por Lula publicamente.
Em discursos, Lula já reforçou cobranças para que Trump ajudasse a prender o que chama de "magnatas" do crime.
Ainda para esse interlocutor, interferências internacionais não são bem recebidas pela população brasileira.
Embora aliados digam não temer, necessariamente, impacto eleitoral, há avaliação de que a decisão possa trazer impactos econômicos para o Brasil.
"A classificação dificulta investimentos americanos no país e permite interferências do governo americano em assuntos de interesse das empresas brasileiras nos EUA", afirmou Paulo Teixeira, ex-ministro do Desenvolvimento Agrário.
Outros aliados dizem ainda não estarem surpresos com a decisão de Trump e minimizam o impacto do encontro de Flávio no decreto do americano. De acordo com eles, a possibilidade de que isso ocorresse já era discutida desde o ano passado.
O líder do governo na Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), disse que esse é um atentado contra a soberania brasileira, "um precedente perigoso cujas consequências ainda desconhecemos". Ele lembra que os EUA se valeram do mesmo expediente para interferir economicamente no México e na Venezuela.
Pimenta refuta ainda a classificação de organização terrorista por não terem projeto de tomada de poder. "Se de fato houve uma participação [de Flávio Bolsonaro] foi um ato de traição à soberania nacional."
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Como mostrou a Folha, governistas já estudavam usar o encontro entre o senador e o presidente americano para reforçar a imagem da soberania de Lula. Junto a isso, atribuir a Flávio o retrocesso em negociações em curso.
