O ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência da República Romeu Zema (Novo) tem alterado o eixo de sua atuação política ao intensificar críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), em movimento que marca uma mudança em relação ao foco anterior, centrado no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao PT. A guinada ganhou força nas últimas semanas e se reflete no aumento de declarações e publicações direcionadas à Corte.
Levantamento feito pelo Estado de Minas mostra que, desde 1º de abril até a manhã dessa sexta-feira (24/4), Zema fez 90 publicações em seu perfil no Instagram, rede social na qual concentra seu maior público, com quase 3 milhões de seguidores. Desse total, 49 postagens apresentam menções críticas ao STF, reunindo conteúdos como trechos de entrevistas, discursos e imagens produzidas com o uso de ferramentas de inteligência artificial.
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As manifestações integram uma estratégia de comunicação estruturada pela equipe do pré-candidato, sob o título “Os Intocáveis”, expressão utilizada por Zema para se referir aos ministros do Supremo Tribunal Federal e, em alguns momentos, também a outras autoridades.
As demais publicações variam entre críticas ao governo Lula, embora em menor proporção, além de vídeos de tom mais descontraído, registros de agendas de pré-campanha e conteúdos voltados à apresentação de sua trajetória política, com ênfase na construção de sua imagem como “outsider” e na defesa de medidas adotadas durante sua gestão em Minas Gerais.
A intensificação das críticas também ocorre em meio à repercussão de um pedido do ministro Gilmar Mendes para que Alexandre de Moraes inclua Zema no inquérito das fake news, após o compartilhamento de um vídeo com sátira aos integrantes do STF. Desde então, o ex-governador subiu o tom e a frequência das manifestações contra o Judiciário, especialmente nas redes sociais. Durante a semana, eles trocaram farpas a distância.
Em alguns momentos, Zema chegou a afirmar que é o único pré-candidato a enfrentar de forma mais contundente o Supremo Tribunal Federal (STF), além de sustentar que tem sido alvo de perseguição do Judiciário. Em vídeo publicado nas redes sociais no dia 4 de abril, o ex-governador reforçou esse posicionamento ao destacar a intensidade de suas críticas e diferenciar sua atuação da de outros nomes no cenário político.
“Você não vai ver nenhum outro político e até mesmo pré-candidato criticando tanto esses absurdos que estão acontecendo no Supremo como eu tenho feito. Eu não tenho rabo preso. [...] Agora eu estou vendo muitos pré-candidatos omissos e calados. Será que estão concordando com isso? O Partido Novo tem sido o que mais tem batido nessa questão. Até porque nós fazemos tudo certo. Os nossos candidatos são gente do bem, gente competente, que não tem rabo preso. O Brasil está precisando de gente que faça o correto e denuncie esses absurdos”, ponderou.
A estratégia ocorre em um cenário de disputa pelo eleitorado mais crítico à atuação do Judiciário. Ao apostar nesse discurso, Zema tenta se diferenciar no campo da direita e ampliar sua base entre eleitores que demonstram insatisfação com decisões e posicionamentos da Suprema Corte.
Até o fim do ano passado, Zema concentrava suas críticas principalmente na condução da política econômica do governo federal, dentro de um discurso alinhado ao antipetismo. Embora mantenha ataques à gestão petista, o conteúdo de suas falas e publicações nas redes sociais passou a assumir um novo direcionamento, voltado ao embate com o Judiciário no contexto de sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto. Desde o lançamento de sua pré-campanha, Zema também tem elencado temas como segurança pública e corte de benefícios como temas centrais em seus discursos, embora com menor destaque recente.
Interlocutores ligados à pré-campanha afirmaram à reportagem que a ênfase nas críticas ao STF não deve ser exclusiva ao longo da corrida eleitoral. A campanha também prevê um avanço na apresentação de propostas econômicas nas próximas etapas.
PLANO DE GOVERNO
A análise do movimento também dialoga com o conteúdo de um documento extraoficial que reúne diretrizes de seu plano de governo. Lançado em 16 de abril, em São Paulo, estado escolhido para o anúncio de sua pré-candidatura em agosto do ano passado, o material indica o STF como eixo central das propostas apresentadas. Outro ponto que chama atenção é a ausência de menções nominais ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT ao longo do texto.
O documento se concentra na apresentação de propostas e diretrizes, como o combate à corrupção e a privilégios, a redução do chamado “Custo Brasil”, medidas voltadas à segurança pública, o enxugamento do Estado, a flexibilização de leis trabalhistas e mudanças no Judiciário, sem citar diretamente adversários políticos ou legendas.
Apesar disso, as imagens que ilustram o plano “O Brasil sem intocáveis” foram, em sua maioria, produzidas com o uso de inteligência artificial e trazem referências visuais as figuras políticas de Lula e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, ainda que não os retratem de forma literal.
No que diz respeito ao STF, o texto propõe limitar o poder da Corte, com medidas como o aumento da idade mínima para indicação de ministros para 60 anos, a proibição de decisões monocráticas que suspendam leis e a transferência de competências nas áreas criminal e tributária para outros tribunais.
O material também defende o que classifica como “moralização” do Judiciário, com a vedação de conflitos de interesse, como casos de ministros com parentes atuando como advogados na mesma Corte ou ligados a empresas, além do fortalecimento das atribuições do Senado na fiscalização e no julgamento de integrantes do Supremo.
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Apesar de reunir as principais linhas defendidas pelo pré-candidato, o documento ainda não é oficial. Segundo o partido, o material deve passar por reformulações e receber novas contribuições, inclusive da sociedade.
