Itamaraty diz que governo Trump não respeitou 'boas práticas' ao expulsar delegado brasileiro
Após expulsão de Marcelo Ivo de Carvalho, país decide cancelar credenciais de funcionário americano que exercia mesma função no Brasil
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WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O Itamaraty afirmou, nesta quarta-feira (22), que a expulsão do delegado da Polícia Federal, Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava no ICE, serviço de imigração dos EUA, viola a "boa prática diplomática entre nações amigas, como o Brasil e os Estados Unidos, ao longo de mais de 200 anos de relação".
Ivo de Carvalho exercia a função de oficial de ligação junto ao ICE, em Miami, e chegou no Brasil na noite desta terça-feira (21). Ele foi expulso dos Estados Unidos após o caso que levou a prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), na semana passada.
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A prisão de Ramagem foi anunciada pela Polícia Federal como uma cooperação entre Brasil e Estados Unidos. Com visto vencido, mas com pedido de asilo iniciado, o ex-deputado foi solto dois dias depois.
Após a soltura, houve uma pressão de aliados bolsonaristas, como o empresário Paulo Figueiredo e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), em Washington.
Em um vídeo gravado nas redes sociais, eles afirmaram na quinta-feira (16) que o governo Lula iria sofrer as consequências pela prisão de Ramagem. Nesta terça-feira, o Departamento do Estado comunicou o pedido da saída de Ivo de Carvalho do país.
Na tarde da terça-feira, autoridades brasileiras se reuniram com uma representante dos EUA, Kim Kelly, que é a encarregada de negócios interina da embaixada e consulado, para tratar do caso. O Itamaraty confirmou em nota a reunião, promovida em decorrência de um comunicado verbal dos EUA sobre "a interrupção imediata do exercício de suas funções oficiais em território norte-americano", em referência ao caso de Ivo de Carvalho.
Segundo a pasta, "o agente brasileiro atuava com base em memorando de entendimento firmado entre os dois governos sobre a facilitação do intercâmbio de oficiais de ligação na área de segurança".
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Agora, o Itamaraty afirma que "os termos da aplicação da reciprocidade foram também transmitidos verbalmente à representante da embaixada, e envolvem a interrupção imediata do exercício de funções oficiais de representante norte-americano de área homóloga em território brasileiro".
Ainda segundo o Itamaraty, a representante dos EUA foi informada, "também verbalmente, que o governo brasileiro aplicará o princípio da reciprocidade diante da decisão sumária contra o agente da Polícia Federal, que não foi precedida de qualquer pedido de esclarecimento ou tentativa de diálogo sobre o caso".
Mais cedo, em entrevista à GloboNews, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, disse que o bloqueio ao sistema de dados da PF contra o servidor americano vai durar até que seja esclarecido o motivo que levou os EUA a tomarem as atitudes contra o agente brasileiro.
"Esse policial norte-americano, que até então trabalhava dentro de uma unidade nossa da PF, deixa de ter acesso a algumas bases de dados que nós fornecemos para essas cooperações, assim como nosso servidor lá em Miami teve", disse.
Andrei também afirmou que, até o momento, a PF não recebeu nenhum comunicado oficial sobre o ocorrido com Marcelo Ivo. "Ao chegar ao trabalho, o policial brasileiro teve a credencial de acesso ao sistema negado. Portanto, entendi que seria mais prudente mandar ele voltar ao Brasil", declarou.
O chefe da PF também considerou "risível" a alegação do governo Trump de que o funcionário teria atuado para manipular o sistema de imigração e "contornar tanto pedidos formais de extradição quanto prolongar caças às bruxas políticas em território" americano.
"Não é possível imaginar que um policial está nos EUA para enganar as agências americanas e ludibriar um processo que a própria agência que ele está lotado produz", declarou.
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Na terça-feira, o presidente Lula já havia afirmado em entrevista na Alemanha que o Brasil iria aplicar o princípio da reciprocidade.