A deputada estadual paulista Fabiana Bolsonaro (PL) se pintou de marrom nesta quarta-feira (18/3), no Plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), em protesto transfóbico contra a deputada federal Erika Hilton (Psol-SP).
Hilton, uma mulher trans, assumiu a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados na última semana. Para Fabiana Bolsonaro, ela está “roubando um espaço” das mulheres cisgênero.
Então, em protesto, a deputada fez um “blackface” (quando alguém se pinta para representar uma pessoa negra) durante o tempo de debate sobre temas livres na Alesp, comparando uma suposta “transição de raça” com a transição de gênero.
Protesto transfóbico
“Agora, aos 32 anos, decido me maquiar. Me pintando de negra, sinto na pele a dor que uma pessoa negra sentiu? O racismo? Eu estou negra agora?”, questionou.
“Não adianta eu me maquiar, eu não sei as dores que vocês passaram. Não adianta eu fingir algo, eu não sei as dores”, em analogia para dizer que Hilton não poderia representar as mulheres cisgênero na Câmara. “Eu me reconheço como negra, por que eu não posso presidir a comissão sobre racismo? Por que eu não posso cuidar dessa pauta?”
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Fabiana Bolsonaro na verdade se chama Fabiana de Lima Barroso e adotou o sobrenome do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como forma de identificação política. Ela foi vice-prefeita de Barrinha, no interior de São Paulo, antes de se eleger para a Alesp.
Ela defendeu que seja criada uma comissão separada para pessoas trans: “Uma trans está tirando o espaço de uma mulher [cis]. Que crie a sua categoria, a sua comunidade. E tem muitas pessoas trans que precisam dessa defesa. Para vocês crescerem, não precisam nos engolir”.
“Crie uma comissão para cuidar das transexuais do país. A gente viu agora, essa semana, lá em Brasília que uma mulher trans, Érika Hilton, foi colocada como presidente da Comissão da Mulher. E isso me entristece muito. Não porque ela, uma trans, está como presidente. Mas porque uma trans está tirando o espaço de fala de uma mulher, assim como várias outras estão tirando”, afirmou.
Denúncia
Ao fim do discurso da parlamentar, a deputada estadual Mônica Seixas (Psol-SP), do movimento feminista antirracista SP Pretas, pediu questão de ordem ao presidente da Alesp dizendo que blackface e racismo são crimes e que havia acontecido um "problema gravíssimo" na Casa Legislativa. Mônica pediu censura às falas de Fabiana, que respondeu "censurem uma mulher mais uma vez".
A ato de pintar o rosto de preto, feito por Fabiana Bolsonaro, se assemelha à prática do blackface, no qual atores e atrizes brancos se maquiavam com tons escuros a fim de interpretar personagens negros. Isso era algo comum até a segunda metade do século passado, quando ativistas negros passaram a cobrar o fim da prática.
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Na comédia, o blackface era feito de forma a exagerar traços típicos de pessoas negras como forma de gerar uma caricatura e caçoar dessas pessoas. Contudo, a prática também era feita em outros ramos da arte para que pessoas brancas interpretassem pessoas negras e, assim, evitar que estas pessoas ocupassem espaços no mundo da arte - processo semelhante ocorreu com pessoas brancas utilizando maquiagens para interpretar asiáticos e indígenas nas artes.
