ELEIÇÕES 2026

‘Câmara vira trampolim quando o projeto é eleitoreiro’, diz Aurea

Ex-deputada avalia estratégia da direita nas câmaras municipais, aponta distorções no papel da oposição e diz que disputa pelo Senado será decisiva

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Ao analisar o avanço da extrema-direita em Minas Gerais, a ex-deputada federal Áurea Carolina (Psol) diz que esse não é fenômeno isolado nem recente, mas parte de um movimento mais amplo, com raízes internacionais, que encontrou terreno fértil também na política local. Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, nesta terça-feira (10/2), a pré-candidata ao Senado faz uma distinção entre trajetórias políticas baseadas em construção coletiva e o uso da Câmara Municipal como um trampolim eleitoral, associado, segundo ela, a projetos pessoais e interesses econômicos.

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Para Áurea, o crescimento da extrema direita precisa ser entendido dentro de um contexto global. “A ascensão da extrema direita não pode ser lida só no nosso contexto de Minas Gerais. Primeiro é um fenômeno mundial”, afirmou, ao citar exemplos como os Estados Unidos e a volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Na avaliação dela, trata-se de um movimento que se alimenta do medo, da insegurança e da desinformação. “A extrema direita tem uma capacidade de vender gato por lebre, de contar a realidade de uma forma completamente mentirosa”, disse.

No Brasil, Áurea aponta o ex-presidente Jair Bolsonaro como um dos principais catalisadores desse processo. Segundo ela, mesmo sendo um político de longa trajetória, Bolsonaro conseguiu se apresentar como alguém de “fora do sistema”. “Ele se apresentava como um outsider e isso colou”, afirmou.

Para a ex-deputada, discursos machistas, racistas e autoritários encontram eco em uma cultura que ainda reproduz essas práticas, especialmente quando legitimadas por figuras públicas. “Quando vem isso sendo legitimado por pessoas de projeção pública, acabam achando que não está errado", afirma.

Esse ambiente, segundo Áurea, ajuda a explicar o surgimento e a projeção de lideranças da extrema direita em Minas, inclusive em Belo Horizonte, muitas delas com passagem pela Câmara Municipal. Questionada sobre trajetórias semelhantes, como a dela e a do deputado federal Nikolas Ferreira (PL), Áurea rejeita a ideia de equivalência.

Para ela, o ponto central não é o cargo ocupado, mas o projeto político que orienta essa ocupação. “A Câmara Municipal pode ser sim um trampolim nesse sentido mais negativo quando o projeto é eleitoreiro”, afirmou. Segundo ela, há casos em que o mandato é usado como meio para acumular poder político e econômico. “É um projeto de usar o poder político para se dar bem”, disse, ao criticar a transformação da política em instrumento de interesses privados.

Por outro lado, Áurea afirma que a Câmara deixa de ser trampolim quando integra uma trajetória consistente. “Não é trampolim quando isso faz parte de uma trajetória de muito embasamento, de muito compromisso e de integridade", destaca.

Na avaliação da ex-deputada, o eleitor precisa olhar para além da performance digital. “Não é gente que fica fazendo espetáculo de rede social, gravando vídeo, ofendendo os outros”, afirmou. Para ela, o excesso de conflito e a política baseada em ataques tendem a desgastar a população. “Eu não aguento mais isso. E eu acho que as pessoas estão de saco cheio também", reforça.

Áurea foi escolhida por 162.740 eleitores em 2018. Antes, havia sido vereadora de Belo Horizonte por dois anos. No pleito de 2016, ela foi a parlamentar municipal com melhor desempenho da história da capital mineira, com mais de 17 mil votos – o recorde foi batido, quatro anos depois, por Duda Salabert (PDT) e Nikolas Ferreira (PL). 

Perguntada sobre o movimento de partidos da extrema direita, especialmente o PL, de ocupar espaços tradicionalmente associados à esquerda, como o papel de oposição ao Executivo, Áurea avalia como uma ação de cálculo político. “O PL hoje é um partido muito forte porque conta com estrutura de financiamento partidário e eleitoral”, disse. Segundo ela, essa estrutura é usada para projetar lideranças e ampliar poder político e econômico.

Um dos pontos que mais chama a atenção de Áurea é a forma como esses partidos lidam com a participação feminina. “Existe um apelo para que mais mulheres sejam candidatas”, afirmou, mas destacou que isso nem sempre vem acompanhado de compromisso real com os direitos das mulheres. “É porque tem uma obrigação de cumprimento da cota eleitoral.” Segundo ela, há casos de candidaturas femininas usadas apenas para atender exigências legais, sem apoio efetivo. “Esses partidos também são aqueles que apresentam candidaturas laranjas", acusa.

Áurea argumenta que há interesses comuns entre mulheres, mesmo com divergências políticas. “Nós mulheres temos muito mais em comum quando a gente fala das necessidades de cuidado”, afirmou. Ela relata que, durante sua atuação institucional, o diálogo entre parlamentares mulheres era, em geral, mais produtivo. “Com os homens não era possível, porque era uma política muito mais agressiva.” Segundo ela, episódios de violência política partiam, em grande parte, de homens ligados à extrema direita. “Trogloditas, agressores, que não sabem conversar", disse.

Ao tratar da política municipal, Áurea avalia que Belo Horizonte vive um cenário complexo, marcado por gestões formadas por alianças heterogêneas. Ela cita dificuldades na atual administração do prefeito Álvaro Damião e aponta a discussão sobre a Tarifa Zero como exemplo. Segundo ela, houve hostilidade ao debate e ausência de diálogo com movimentos sociais e parlamentares. “Que jogo de cena é esse?”, questionou, ao criticar a adoção parcial da gratuidade sem enfrentar o modelo de financiamento do transporte.

É nesse contexto que Áurea explica sua decisão de retornar à política e disputar uma vaga no Senado em 2026. Após não concorrer à reeleição em 2022, ela passou um período dedicada à maternidade e à atuação na sociedade civil. “Eu decidi não concorrer à reeleição para cuidar do meu filho pequeno e para elaborar sobre essa experiência”, afirmou. Durante esse período, atuou em organizações voltadas à mobilização social e ao enfrentamento da violência política de gênero e raça.

A volta, segundo ela, está diretamente ligada ao papel estratégico do Senado. “O Senado está na mira da extrema direita”, disse. Para Áurea, há um projeto explícito de ocupar a Casa para fragilizar a democracia e atacar instituições como o Supremo Tribunal Federal. “Eu me senti no dever de retornar e dar a minha contribuição para essa eleição que vai ser muito decisiva", declarou.

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Aos 42 anos, Áurea afirma estar em um momento diferente da vida. “Eu me sinto mais inteira, mais fortalecida, mais preparada”, disse. Ao rebater críticas de que sua pausa teria sido uma desistência, foi direta: “Encarar como desistência é uma incompreensão de trajetória.” Para ela, a política não é uma linha reta nem um projeto individual. “A gente vai, a gente volta", resume.

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