"Minas será um estado pequeno e dependente da União se essa proposta (de renegociação da dívida) vingar"

crédito: Túlio Santos/EM/D.A Press

“Existe vida inteligente entre os extremos.” Com frases como essa, o deputado federal por Minas Gerais Aécio Neves (PSDB) se posicionou contra a polarização que marca o embate político entre lulistas e bolsonaristas durante o “EM Minas”, programa de entrevistas exibido pela TV Alterosa. Aécio também traçou as metas para o PSDB nas duas próximas eleições, avaliou o desempenho do governador Romeu Zema (Novo) e propôs nova alternativa para a renegociação da bilionária dívida do estado com a União.

“Em 2026, vamos ter uma proposta clara para dizer ao Brasil que nós não merecemos e que nossos filhos e nossos netos não merecem viver eternamente nesta polarização pobre, rasa e radical, que só interessa aos dois polos, que se retroalimentam”, declarou. Aos 64 anos, Aécio Neves tem 37 de carreira na política. Ocupou cargos de governador de Minas, de 2003 a 2010, e de senador, de 2011 a 2019. No mesmo ano, retornou à Câmara dos Deputados, onde também esteve de 1987 a 2002. 

Como o senhor avalia as propostas feitas para a renegociação da dívida de Minas Gerais?
A proposta apresentada até agora para renegociar a nossa dívida, e a que mais avança, é uma proposta de lesa-pátria, porque estamos transferindo para a União – e o governador Zema está acatando e aceitando – a posse da Cemig, constituída aqui na década de 1950; da Copasa, constituída na década de 60; e da Codemig, do início da década de 70. Essas empresas fazem parte da história da construção econômica e cultural do estado. E hoje, o único recurso disponível líquido que Minas tem para fazer investimentos em todas as regiões do estado vem, principalmente, da Codemig. A proposta não é de negociação, mas sim de submissão absoluta de Minas ao governo federal, e isso não faz parte da nossa tradição. Eu tenho batido contra isso.

O senhor também apresentou uma proposta?
Esta semana, entrei com um projeto de lei que muda os parâmetros de pagamento da dívida, portanto, muda os critérios do Regime de Recuperação Fiscal. O mais grave é que não há nenhuma articulação por parte do governo de Minas junto aos estados que têm o mesmo perfil de dívida que o nosso – como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Goiás – nem com outros que estão em situação difícil, para que o governo federal possa se sentir pressionado e venha a fazer uma negociação que atenda ao interesse de Minas Gerais. Esse meu projeto tem esse objetivo, sensibilizar esses governadores. Se conseguirmos fazer uma articulação – e sinto pena da ausência de Minas nesse debate – nós colocaríamos o governo para revisar, por exemplo, o débito que tem com Minas em relação à Lei Kandir. Calcula-se R$ 130 bilhões que o estado deixou de arrecadar com a desoneração das exportações. Eu diria que a União é agiota dos estados. Ela cobra juros dessa dívida, o que é vedado pela Constituição, que prevê uma relação cooperativa entre municípios, estados e União. Não é o que acontece hoje.

Quais as diferenças da sua proposta para as que estão sendo colocadas?
A proposta colocada hoje e que avança, o que é mais grave, transfere para a União a posse das nossas empresas. Calcula-se que a Codemig possa valer R$ 40 bilhões, a Cemig R$ 20 bilhões e a Copasa um pouco menos. A União receberia essas empresas e passaria a gerir sem ter qualquer expertise para isso. As empresas do setor elétrico privatizadas lá atrás foram vendidas depois na “bacia das almas”. Sobre a Copasa, o governo federal nunca administrou uma empresa de saneamento na vida. Chega a ser uma coisa esdrúxula. E nem isso resolve o problema da dívida de Minas, abate uma parcela. Na minha proposta, os dividendos pagos por essas empresas ao estado, que é o seu acionista controlador, entram como garantia para o pagamento das parcelas da dívida. Estamos alongando os 30 anos previstos no atual Regime de Recuperação Fiscal, para 50 anos. Com isso, as parcelas diminuem. Hoje, nós pagamos IPCA mais 4% e eu estou diminuindo para 2% por 10 anos e depois zerando, mantendo apenas o IPCA. A União não pode cobrar juros do estado; a União não é instituição financeira. Eu defendo ainda que o comprometimento da receita, que hoje está em 13% para o pagamento das dívidas, diminua para 8% da receita do estado. Os estados precisam promover saúde, educação, segurança, infraestrutura. Do jeito que está, a proposta acaba por inviabilizar a gestão dos estados.

Essa dívida tem um grande responsável?
Acho que foi o tempo. Buscou-se negociá-la com a União e ela veio crescendo de forma vegetativa ao longo dos últimos anos. Agora, se chegou a um impasse que compromete definitivamente o futuro do estado de Minas. Se essa proposta (que está em debate) vingar, Minas será um estado pequeno, sem projeção política, sem força econômica maior e dependente da União em praticamente tudo. É um momento de decisão, de Minas saber o que quer.

O senhor acredita que a bancada mineira tem culpa?
Eu acho que é responsabilidade da União. Não vamos esquecer que, dos últimos 20 anos, o PT governou o Brasil em 14. Essa responsabilidade é deles. O PT tem um discurso para Minas Gerais oposto à sua prática. Não foi feito um grande investimento importante em infraestrutura nesses anos em que governaram o país. As grandes obras foram feitas no nosso governo, como a duplicação da avenida Antônio Carlos, a Linha Verde, a Cidade Administrativa e o asfaltamento de 229 cidades que não tinham ligação asfáltica. Isso foi feito no nosso governo, com recursos do estado. A União, naquilo que era de sua responsabilidade, sempre virou as costas para Minas Gerais.

Como avalia o governo Romeu Zema?
O governador se elegeu em um momento em que nós vivíamos a demonização da política no Brasil. Então, se elegeu com um discurso de “Eu não sou político, eu sou diferente”, o que faz um mal enorme para o Brasil, e foi o que elegeu Bolsonaro também. E o que aconteceu foi que ele viu a necessidade de se fazer política, mas não aprendeu a fazer a boa política. Minas foi respeitada no Brasil até hoje pela capacidade que seus líderes tiveram de negociar em favor dos interesses do estado. Quando eu vejo as negociações acontecerem em Brasília, como a Reforma Tributária, ninguém sabe qual é a posição de Minas, foi triste a participação nos debates. E a figura central para isso é o governador do estado, que infelizmente, na minha avaliação, não compreendeu o tamanho da cadeira em que ele está sentado. Não usou da força do cargo de governador de Minas para impor uma agenda ao Brasil que interessasse a Minas Gerais. Agora está aí, prestes a ceder as nossas empresas ao governo federal sem qualquer tipo de negociação, sem qualquer esforço.

Como o senhor avalia a polarização entre Lula e Bolsonaro?
Eu acredito que existe vida inteligente entre os extremos. Nós temos a obrigação de tentar construir um projeto de oposição ao atual governo, que não é representado pelo bolsonarismo nem pelo lulopetismo. Na última eleição, se olharmos com mais profundidade o resultado, vamos ver que tirando os 30% de um lado e os 25% de outro, há uma estada no meio que votou não. Votou no Lula porque não queria o Bolsonaro e votou no Bolsonaro porque não queria o Lula. Eles não são nem PT, nem Bolsonaro. É o eleitorado que votou comigo em 2014 para a Presidência da República. O Brasil merece que as pessoas voltem a votar em favor de um projeto de inclusão, onde o radicalismo e ódio deem espaço para uma construção mais generosa.

O senhor considera disputar as eleições presidenciais novamente?
Eu tive a minha oportunidade, chegamos muito perto. Eu lamento muito. Digo com toda franqueza, o Brasil seria outro se tivéssemos ganhado as eleições, do ponto de vista de gestão, de integração com o mundo, do crescimento que nós teríamos com uma agenda liberal na economia, mas responsável e inclusiva no campo social, porque as duas pontas são convergentes e eu sempre mostrei isso aqui em Minas. Eu tive a minha chance, perdi as eleições. Acho que tem outros que virão aí, com melhores condições. Mas eu não abro mão do meu papel, de ajudar a construir um novo caminho, um caminho a favor do Brasil. Não sei se vou disputar algum outro cargo, o tempo que vai dizer. Eu já perdi aquela ambição natural dos políticos, que é legítima, de ocupar cargos. A minha carreira me deu oportunidade de ocupar praticamente todos os cargos possíveis na República. Não ocupei a Presidência por 1% dos votos.

Quais são os planos do senhor na política?
O que me move ainda, que me faz estar na política, é a busca da construção de um caminho ao centro, que seja oposição ao atual governo federal, que continua com os mesmos vícios: gastança desenfreada, visão atrasada de mundo e solidariedade quase que irresponsável com ditaduras amigas, sem nenhum programa novo. Um governo requentado, é o que eu percebo. Somos oposição a este governo, aos métodos dele, com 40 ministérios. É um tapa na cara do trabalhador brasileiro.

E quais os planos do PSDB?
Estou ajudando na reconstrução do PSDB, para que nós tenhamos, em 2026, uma candidatura ao centro, que não se sinta representada nem pelo bolsonarismo nem pelo lulopetismo. Como eu tenho repetido, existe vida inteligente ao centro e eu tenho a responsabilidade de liderar esse caminho.

O partido vai ficar, em breve, com apenas um senador. Não está se esvaziando muito?
Outros estão vindo. Nós fizemos uma renovação na direção do partido, eu assumi a Presidência do Instituto Teotônio Vilela, que é o órgão de reformulação política, e vocês vão ouvir falar muito dele a partir de abril, quando estarei lançando em Brasília o “Farol da Oposição”, que é uma agenda crítica ao governo federal, mas ao mesmo tempo propositiva em relação ao que precisa e pode ser feito. Prefiro um partido mais enxuto e coeso hoje. Claro que preferia ter mais parlamentares e governadores, mas o PSDB cometeu um grave erro há dois anos – contra a minha vontade – e paga um preço por isso, que foi não ter tido candidato à Presidência da República, porque o partido se subordinou ao interesse de São Paulo. Foi o efeito que o “tsunami Dória” causou ao PSDB.

O PSDB é a alternativa para a polarização?
Em 2026, nós vamos ter uma proposta clara para dizer ao Brasil que nós não merecemos, que nossos filhos e nossos netos não merecem viver eternamente nesta polarização pobre, rasa e radical, que só interessa aos dois polos, que se retroalimentam. Por que volta e meia o Lula dá uma pancada no Bolsonaro? Porque é bom ele ser visto como opositor do bolsonarismo, e vice-versa. Mas será que nós merecemos isso? Não é possível. Onde estão aqueles 51 milhões de eleitores que votaram em mim em 2014? Vamos resgatar uma parcela disso e vamos apresentar um novo projeto ao Brasil. É esse hoje o caminho ao qual eu me dedico.

O STF arquivou um processo contra o senhor por corrupção passiva. Como recebeu essa decisão?
Eu fui vítima de uma das maiores armadilhas da vida pública brasileira nos últimos anos, que me custou muito, mas custou muito ao Brasil, porque me tirou do jogo político naquele momento. Todas as acusações que me foram feitas, sem exceção, foram arquivadas e a grande maioria delas a pedido da própria Procuradoria-Geral da República, que tem a responsabilidade de acusar, exatamente por eu não ter cometido qualquer ilícito nesses meus quase 40 anos de vida pública, mas o preço foi muito alto. Em 2017, havia três nomes citados para disputar a Presidência: o presidente Lula, que acabou preso; o presidente que exercia o mandato, Michel Temer, que sofreu duas denúncias; e eu, que era o líder da oposição e havia quase vencido as eleições em 2014. Nós três, de alguma forma, por mecanismos distintos, saímos do jogo porque existia por parte de alguns agentes públicos um projeto de poder em curso.

O PSDB terá candidato em Belo Horizonte?
Essa é a discussão do momento. O PSDB tem sido procurado por muitos atores na política, desde o prefeito até outros que fazem oposição. O próprio Estado de Minas publicou uma pesquisa nesta semana em que o ex-deputado João Leite aparece em segundo lugar, mas nós vamos tomar essa decisão com muita responsabilidade, pensando em 2026. A lógica do PSDB no Brasil hoje não é impor candidaturas, mas construir alianças que possam significar o embrião de um apoio para 2026. O prefeito Fuad fui eu quem repatriei. Ele estava em Brasília e veio para Minas para ser meu secretário da Fazenda no primeiro mandato e no segundo foi secretário de Obras Públicas. Foi do PSDB, tem uma familiaridade conosco, não deixa de ser uma possibilidade.