Ana Luísa Nardin e Gabriel Marchesini Palma - Especial para o Estado de Minas

Em período eleitoral, quando o presente disputa consigo mesmo o direito de existir e as redes sociais transformam cada instante em campo de batalha, dois amigos se voltam para a literatura. Não para escapar do mundo, mas para desconfiar dele. Há livros que oferecem respostas; outros, mais traiçoeiros, abrem frestas para mundos improváveis e nos fazem suspeitar de que a realidade é apenas uma entre tantas ficções que aprendemos a habitar. Foi nesse espírito que os autores deste artigo se debruçaram sobre “Os imortais”, da brasiliense Paulliny Tort, publicado pela editora Fósforo, vencedor do prêmio literário da Biblioteca Nacional para o melhor romance publicado em 2026.

Em outras palavras, este artigo nasce de uma conversa que nos levou a especular sobre os neandertais, imaginar seus modos de existência, suas relações e suas maneiras de habitar o mundo. Ao nos aproximarmos desses outros, separados de nós por milhares de anos e por perguntas ainda sem respostas definitivas, as fronteiras entre sapiens e neandertais começam a se borrar. Afinal, quem traçou essa linha que nos separa e o que nos autoriza a mantê-la? Tort nos sugere que especular sobre os neandertais é também encontrar outras maneiras de olhar para nós mesmos. Assim, sua literatura transforma o passado em território de possibilidades e devolve ao presente o mistério daquilo que julgávamos conhecer.

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É nesse território que encontramos grupos humanos cuja sobrevivência exige negociar, a cada dia, com a fome, as doenças e as intempéries. Entre deslocamentos, encontros e conflitos, conhecemos personagens que, privados de nomes próprios, parecem existir sob a forma de figuras quase arquetípicas: o Homem, a Mulher, o Velho, a Velha, a Menina, o Estrangeiro e o Pequeno, entre outros. Ademais, essas designações nos convidam a pensar nas posições que cada um ocupa em um mundo no qual os vínculos, as diferenças e a própria sobrevivência estão permanentemente em jogo. O Pequeno, em particular, talvez seja capaz de irritar qualquer leitor atento às exigências e aos dilemas da sociedade contemporânea. Mas o que há nele, e nos demais integrantes do clã, que nos inquieta tanto? 

Talvez a resposta esteja na distância que nos separa desses personagens ou na suspeita de que ela seja menor do que imaginamos. Enquanto inventam maneiras de sobreviver, eles também inventam modos de falar, desejar, cuidar e ferir. O romance nos conduz, assim, a uma pergunta tão antiga quanto a própria humanidade: em que momento as diferenças se converteram em hierarquias, os vínculos, em posse, e as disputas, em guerras? Há algo de desconcertante nesses neandertais: neles, reconhecemos não tanto um passado remoto, mas a estranheza de nosso próprio presente.

Tivemos a impressão de que o romance se aproxima da antropologia especulativa, tal como proposta por Alexandre Nodari, um exercício de imaginação que não pretende reconstruir o passado como quem decifra um manuscrito perdido, mas experimentar formas de existência capazes de lançar dúvidas sobre as certezas do presente. Ao imaginar os neandertais, Tort não apenas fabula sobre nossos parentes distantes; faz de sua diferença um caleidoscópio, no qual se multiplica em imagens inesperadas.

Os cavalos, por sua vez, não se limitam a garantir a sobrevivência do clã: sua presença põe em questão as fronteiras entre neandertais, sapiens e cavalos. Nesse ponto, o romance parece encontrar o perspectivismo ameríndio de Eduardo Viveiros de Castro, segundo o qual os seres não habitam um mundo único, visto de diferentes ângulos, mas mundos que variam conforme a perspectiva de quem os habita. Talvez o deslocamento mais radical do romance seja este: abandonar, ainda que por um instante, a convicção de que o sapiens ocupa o centro do universo e admitir que a humanidade, como certas figuras diante de um espelho, muda de forma conforme o olhar que a contempla. E se aquilo que chamamos de humano fosse apenas uma das muitas maneiras de existir?

As pedras prolongam essa vertigem e fazem do mundo uma espécie de caleidoscópio, no qual cada movimento reorganiza as relações entre as coisas e revela combinações antes imperceptíveis. É como se o romance se aproximasse das “Mitológicas”, de Lévi-Strauss, em que os elementos não existem isoladamente, mas adquirem sentido pelas transformações que operam uns sobre os outros. As pedras, então, deixam de ser apenas matéria inerte e passam a participar de uma trama de relações que desafia nossas divisões entre natureza e cultura, vida e matéria. O que parecia imóvel começa a deslocar o próprio lugar de quem observa. E talvez seja esse o desconcerto, descobrir que o mundo não muda apenas quando o transformamos, mas também quando aprendemos a enxergá-lo por outras combinações e relações.

Por outro lado, há também algo de profundamente trágico na percepção de que somos capazes de destruir aquilo de que dependemos. Quando grupos rivais não conseguem compartilhar uma mesma caverna, reconhecemos uma história que continua a se repetir. Mudam as circunstâncias, os instrumentos e os discursos, mas a dificuldade de compartilhar o mundo permanece. Construímos cidades, instituições e tratados diplomáticos, mas seguimos tropeçando na convivência com a diferença.

Musicalmente, imaginamos, durante a leitura, tambores como os de “Cabeça dinossauro”, dos Titãs, ou os de “Roots”, do Sepultura. Mas o romance parece ter sua própria música, composta pelos sons da natureza, pelos corpos em movimento, pelo fogo e pelos passos que atravessam uma paisagem narrada. Até que surge a flauta, capaz de fascinar personagens e leitores, como se, em meio à luta pela sobrevivência, alguém descobrisse que o mundo também pode ser escutado. A cena nos lembra que a experiência estética não é um luxo posterior à sobrevivência: talvez seja justamente uma das maneiras pelas quais inventamos sentidos para a existência e descobrimos outras formas de compartilhar o mundo.

Ao fim, voltamos à pergunta que nos acompanhou durante a leitura: o que mudou dos neandertais até nós? Talvez muita coisa, talvez menos do que supomos. Ao nos convidar a imaginar a vida desses outros humanos, Tort nos faz desconfiar da distância que acreditamos nos separar deles e olhar para nós mesmos como se também fôssemos personagens de um passado ainda por escrever. Em tempos de disputas eleitorais acirradas e de incertezas políticas que parecem ocupar todos os espaços da vida cotidiana, a literatura pode ser uma espécie de fuga, não para abandonar o mundo, mas para regressar a ele com a estranheza de quem o vê pela primeira vez. 

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Foi também esse movimento que permeou o debate sobre “Os imortais”, no clube de leitura da Livraria Jenipapo, em Belo Horizonte, realizado no último mês de outubro: encontrar na literatura uma pausa no ruído político sem, contudo, deixar de escutá-lo. Afinal, imaginar a vida dos neandertais talvez seja uma maneira de estranhar a nossa própria existência. Como quem encontra, numa fresta do tempo, vestígios de mundos possíveis, descobrimos que o presente, por mais familiar que pareça, guarda o mistério de tudo aquilo que ainda poderia ser.

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