“Um concerto, uma sinfonia.” Assim Ivan Angelo definiu para a plateia do projeto “Letra em cena” a estrutura de seu romance mais celebrado: “A festa”, que acaba de ganhar edição especial de 50 anos, lançada pela Arquipélago Editorial.
Sob a mediação de José Eduardo Gonçalves, curador do projeto realizado no Centro Cultural Unimed-BH Minas, Ivan Angelo lembrou histórias da juventude em BH, contou as maiores influências do romance premiado com o Jabuti e escutou atentamente a leitura de um trecho do livro, interpretado de forma impecável pelo ator e diretor Eduardo Moreira, do Grupo Galpão.
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Radicado em São Paulo, o escritor nascido em Barbacena tem 90 anos e dois livros prontos. Um deles, de contos inéditos e outros já publicados, será lançado pela Seja Breve Editora.
O ator Eduardo Moreira, do grupo Galpão, leu trecho de 'A festa', e Ivan Angelo
O encontro com Ivan Angelo foi a penúltima edição do ano do projeto “Letra em cena”. Leia, a seguir, algumas declarações do escritor:
“Nasci em Barbacena e, com um ano, passei a morar em BH. Morei no Santa Teresa, um bairro delicioso, onde a vida era solta. Também morei no Renascença, Vila Concórdia, Graça, Floresta... Tive uma juventude intensa em BH.”
“BH era uma cidade gostosa de viver, boêmia, intelectual, todo mundo se confraternizando... Os botecos eram ótimos e não fechavam nem de madrugada, a gente que fechava eles.”
“BH é minha Dublin, o lugar desejável de viver. Não abandonei a literatura nem Belo Horizonte.”
“Clarice Lispector e Guimarães Rosa não dão filhotes. Não adianta tentar escrever como eles. Ninguém vai conseguir.”
“Escrever um livro (romance) não é bom. Toma tempo, te prende em casa, você fica até três anos amarrado naquele texto, que rouba a sua vida particular. Terminar é melhor do que escrever.”
“A festa’ fala do momento que vivíamos (ditadura militar), mas de forma simbólica. No livro não tem cena de tortura, mas as inquietações da sociedade. O livro é sobre as impossibilidades da sociedade brasileira nos anos 70. Outros livros da mesma época, como o ‘Zero’ (Ignácio de Loyola Brandão) e ‘Essa terra’ (Antonio Torres), também tinham a preocupação de mostrar um país que estava sendo ferido.”
“Fazia 30 anos que eu não lia (‘A festa’). Reli e gostei. Tirei umas vírgulas, uns excessos. Não mudei a história. Se fosse mudar, não seria o mesmo livro.”
“Romance não é apenas início, meio e fim. Tem uma dinâmica própria. E você tem que aproveitar as oportunidades que o livro dá.”
“Mais do que Cortázar de ‘O jogo da amarelinha’), penso que a estrutura de ‘A festa’ é mais próxima de ‘1919’ e de ‘Manhattan transfer’, de John dos Passos (1896-1970), que tem pequenos retratos da sociedade americana.”
“A principal influência de ‘A festa’ foi mesmo o cinema. O livro traz a minha fascinação de entrar no mundo do cinema através da literatura. É um livro cinematográfico.”
“A literatura brasileira contemporânea tem valorizado muito o extraliterário.”
“Não procuro a amizade do leitor, mas a inteligência dele.”
A última edição do ano do "Letra em cena" será realizada no dia 17 de novembro, com uma homenagem aos 70 anos de "Grande sertão: veredas."
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