“O desejo de renovar a literatura, de ampliar seu repertório de linguagens, era declarado entre os escritores que, nascidos nos anos 1930, floresceram durante os anos 1960 e 1970”, lembra Rodrigo Lacerda, no posfácio da edição especial de “A festa”. “Não era fácil produzir algo equivalente à poderosa tradição de modernidade das letras mineiras. Como dar um rosto novo aos temas nacionais e atingir o mesmo nível de excelência formal das gerações imediatamente anteriores?”, pergunta o escritor, tradutor e editor, no texto “Reflexos do globo espelhado”.

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Pois Ivan Angelo encarou o desafio e o superou com “um espírito livre, crítico, mas não sem coração, que preside o conjunto e se diverte, explorando a própria liberdade e propondo uma série de jogos ao leitor”, afirma Lacerda, autor de romances como “Outra vida” e “O fazedor de velhos”, atualmente coeditor da coleção Fábula, da editora 34. Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP, ele destaca a pluralidade de vozes como “característica permanente” do romance, que se vale também de diversos “dispositivos antimonotonia”, como colagens de citações e a costura de macro e micro-histórias “com uma agilidade acrobática”.

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Em entrevista ao Pensar, Rodrigo Lacerda analisa “A festa” e volta a destacar aspectos abordados em seu ensaio, como a vivacidade e o espírito lúdico do livro. “O romance de Ivan Angelo obedece ao princípio do prazer”, observa. “Sem deixar de ser um livro político, ‘A festa’ é mais do que isso. Oferece uma visão menos firme e direta da realidade, porém mais ampla e complexa. Acima dos condicionantes históricos estão sua ousadia estética e sua curiosidade – crítica e generosa – pela imensa rede de conexões e desencontros que são a matéria da vida, em qualquer tempo”, finaliza.

Que lugar “A festa” passou a ocupar na literatura brasileira ao ser publicado em 1976?

De saída, não foi dos lugares mais auspiciosos. “A festa” foi um dos livros lançados em plena ditadura militar que, por tratarem de temas políticos e sociais, eram vistos como fortes candidatos a ter sua circulação proibida. Mas no caso de “A festa”, por sorte, a ditadura cochilou, o livro saiu, foi distribuído e ganhou o prêmio Jabuti de Melhor Romance. Então acho que, num primeiro momento, a leitura que se fez do livro enfatizava esse caráter político, de afirmação de todo um universo moral e social que não se submetia aos ditames do regime militar.

O que o distinguia de outros romances lançados em plena ditadura militar?

Há distinções estruturais, formais e, digamos assim, de “atitude”. Neste último aspecto, a principal diferença é que o romance procura dar voz a todos os personagens, os que são contra e a favor da ditadura. O livro é ainda maior do que a leitura que se fez dele inicialmente. Há um esforço por não idealizar nenhum personagem, e por enxergar a todos como seres cheios de defeitos e virtudes, mesmo quando os defeitos predominam e as virtudes são reduzidas ao mínimo. O romance tem, nesse sentido, uma atitude generosa, digna dos grandes artistas, que, em vez de serem prescritivos, dizendo à sociedade como ela deveria ser, têm humildade e grandeza suficientes para “apenas” mostrar como a sociedade realmente é.

Até que ponto o fato de Ivan Angelo ser também jornalista influenciou a construção do livro e na “visão abrangente da realidade brasileira”, como você aponta no posfácio?

Ao contrário de outros escritores seus contemporâneos, como por exemplo o João Antônio, em cuja obra o jornalismo se funde com a narrativa literária, dando origem aos chamados contos-reportagem, na obra do Ivan a influência do jornalismo não é tão evidente, pelo menos para mim. Talvez esteja no texto enxuto, nada beletrista; talvez nos cortes secos, produzindo fragmentos condensados que dizem muito com poucas palavras; talvez ainda na estrutura não-linear da narrativa. Mas o que eu vejo de mais jornalístico no livro é a amplitude do mosaico que ele faz da sociedade brasileira. Uma sociedade multifacetada, com forças predominantes, sim, mas também com outros mil e um vetores apenas aparentemente secundários, e com entroncamentos pouco óbvios entre tudo isso. De certo modo, como o retrato da sociedade que emerge quando lemos os jornais.

O romance começou a ser concebido antes do golpe de 1964 e foi retomado anos depois. Acredita que essa longa gestação aparece nas páginas? De que forma?

Essa longa gestação se deveu a vários fatores: ao golpe de 64, que botava em risco a chance de o livro circular e ser como precisava ser; a mudança de Ivan Angelo para SP; sua entrada na equipe original do Jornal da Tarde e o fato de, durante anos, ter canalizado para o jornal sua força criativa. Reiniciado em 1973, terminado em 1975, o livro foi bastante reescrito. Mas a grande diferença é que em sua versão original, interrompida em 1963, o livro era sobre a sociedade mineira, enquanto que a versão mais madura fala da sociedade brasileira como um todo, ainda que a partir da mineira. Há uma expansão do objeto do livro, a meu ver, e o tempo que se passou entre o início e o fim da escrita, bem como as novas experiências em São Paulo e no jornalismo, certamente contribuíram para isso.

A festa anunciada pelo título não é narrada diretamente: vemos sobretudo o antes e o depois. O que essa ausência produz na leitura?

Há trechos em que “o escritor” – que aparece e discute o romance de dentro dele – dá amostras de como imaginava recriar a festa. Seria como se uma câmera fosse entrando por um salão cheio de gente e captando frases ditas aqui e ali, gestos ocasionais, fragmentos de conversa, enfim, uma simultaneidade de trocas mais fácil de se reproduzir com imagens e com o burburinho de vozes, mas muito difícil, quase impossível, de se recriar com palavras no papel. A decisão de eliminar a narrativa da festa, além de resolver o problema técnico, permite ao imaginário do leitor, a partir das informações laterais que lhe são fornecidas, compor mentalmente a sua visão da festa. Num livro em que o narrador se recusa a ser onisciente, e a dar tudo mastigadinho para o leitor, é um recurso bastante apropriado e funciona perfeitamente.

Sem um protagonista único, o livro distribui o foco por personagens de diferentes origens e posições sociais. Que retrato do Brasil emerge desse mosaico?

Um retrato complexo, cubista, em que vários pontos de vista são representados ao mesmo tempo. O leitor avança e completa a leitura do livro com a sensação de ter diante de si um mosaico da sociedade, mas que ele não consegue visualizar por completo. O leitor enxerga algumas tramas, alguns cruzamentos entre personagens, áreas do grande mosaico, mas ele intui, sempre, que o que vê está inserido num contexto maior, um conjunto tão amplo que é impossível abarcar todos os seus componentes ao mesmo tempo. Mesmo assim, ele sabe que está tudo lá.

Qual aspecto do livro considera menos explorado pela crítica e mais decisivo para compreender o romance?

Não sei dizer um só, ficaria com três, entre os menos explorados. Acho muito rica a maneira com que Ivan explora as fronteiras entre a matéria histórica e a matéria ficcional. Acho incrível o teor de humanidade que ele é capaz de impregnar em seus personagens. Acho o senso de humor latente em todo o livro de uma sutileza e de uma inteligência raras.

Consegue identificar diálogos estabelecidos por Ivan com obras de autores, brasileiros ou estrangeiros, publicadas antes de ‘A festa’? Quais os mais notáveis?

Consigo pensar em algumas: Talvez “Zero”, do Ignácio de Loyola Brandão, pela experimentação formal; “Galvez, imperador do Acre”, do Márcio Souza, pela iconoclastia no uso do material histórico; “O jogo de amarelinha”, do Julio Cortázar, pela ordem flexível de leitura; “Pantaleão e as visitadoras”, do Mario Vargas Llosa, por usar estratégias narrativas variadas ao longo do livro. São alguns exemplos que, tenha o Ivan lido ou não lido esses livros na época, mostra o quanto ele estava afinado com a prosa de ficção mais experimental.

Cinquenta anos depois da publicação, o que um leitor de hoje percebe em “A festa” que talvez não estivesse tão evidente para o público em 1976?

Acho que o leitor de hoje pode até se assustar ao ver o quão ousado, na estrutura e na linguagem, um romance de cinquenta anos atrás pode ser. Me parece que, em comparação com ‘A festa’, muito do que produzimos hoje é bastante careta, conservador e previsível. É essa modernidade radical que torna o livro tão espantoso hoje quanto foi décadas atrás.

Trecho de “A festa”

“O Jovem Escritor é um dos mitos efêmeros da cidade. O principal: ele é a Esperança. Os ex-jovens-escritores municipais que não conseguiram ser federais têm inveja e Fé. Ali pode estar o novo Carlos Drummond, o novo Guimarães Rosa, e eles não querem, mais tarde, estar entre os fariseus, entre os que não acreditaram. Depois de uns três anos de Fé, a cidade começa a cobrar milagres, transformações de água em vinho, sequência natural daquele primeiro livro, a Anunciação. Um dois três anos de esquivas, insinuações de Iluminação nos suplementos — mas nenhum milagre. Começa o declínio da Fé, os velhos escritores e os de meia-idade já o tratam com mais intimidade, daí a pouco vão abraçá-lo como a um irmão da Congregação.


O jovem escritor de plantão naquele ano de 1963 fugiu da cidade antes do abraço. (Acabava de desfazer-se, dispersa, mais uma geração literária mineira.”

Sobre o livro

“Estruturado sobre fragmentos que dialogam entre si, fragmentos entretecidos por vozes, linguagens e estilos múltiplos, ‘A festa’ é a tentativa de dramatização de um mal-estar. Como insiste o escritor-personagem do livro, não é a história de uma geração, mas a de ‘várias gerações que um dia se encontram no 1970 brasileiro’.”

Regina Dalcastagné, professora e pesquisadora, autora de “Uma história da literatura brasileira contemporânea: a narrativa”


“Um escritor que soube transformar o cotidiano em espelho crítico do país. Em ‘A festa’, romance seminal, Ivan desmonta a narrativa tradicional e esculpe um mosaico de vozes, silêncios e contradições — como se dissesse que o Brasil não cabe numa história só.”

Frei Betto, escritor, autor de “Batismo de sangue” e outros livros

“É de uma atualidade que quase poderíamos lamentar”


Luís Henrique Pellanda

Especial para o EM

De 50 anos para cá, a literatura produzida no Brasil se ramificou e enriqueceu como poucas literaturas nacionais tiveram a capacidade de fazer. Isso é fato. E apesar disso, “A festa”, de Ivan Angelo, conseguiu preservar todo o frescor de sua forma fragmentada e cinematográfica, divertida e experimental, meio século depois de sua concepção. Ivan soube criar e combinar, com perfeição e originalidade, todo um leque de personagens profundos, trágicos ou tragicômicos, que ainda nos representam enquanto brasileiros contemporâneos. E não só isso. Além de sua indiscutível exuberância estética e artística, além do hibridismo harmonioso de seus gêneros textuais (do histórico ao humorístico, do biográfico ao jornalístico, do paródico ao vanguardístico), “A festa” manteve intacta a sua relevância política. É de uma atualidade que quase poderíamos lamentar. Basta lermos, hoje, esse genial entroncamento de narrativas que o autor elaborou com brilhantismo ao buscar retratar e compreender este nosso país tão complexo, para sabermos que estamos mais uma vez a caminho daquilo ao que o livro (sem spoilers) nos conduz: uma última festa.

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“Letra em Cena – 50 anos do livro “A festa”
• Conversa com Ivan Angelo e sessão de autógrafos do autor.
• Leitura de textos por Eduardo Moreira
• Curadoria de José Eduardo Gonçalves
• Próxima terça-feira (20/10), às 19h
• Sala Multimeios do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes, BH)

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