Em um misto de divagação de sua infância, reflexões sobre seu país de origem, a Angola, e descrições a respeito das crianças que protagonizam as histórias presentes no romance "Bom dia, camaradas" – de 2001 e que ganhou uma nova versão brasileira pela Companhia das Letras em março de 2026 –, o escritor Ondjaki, de 49 anos, recorda ter sofrido de "saudades crônicas". "Mas poderia ter dito melancolia crônica. Ou, usando um espanholismo, um 'desplazamiento' (deslocamento) crônico. Trabalho isso há anos: há uma permanente (para não dizer aflitiva) inquietação que me visita e que me perturba, como se eu não estive nunca no momento certo da minha vida. Ou, como se estivesse ‘deslocado’. Mas pertencemos ao tempo que nos calhou. E a mim calhou-me ser nascido (a frase foi intencional) em 1977. Em Luanda. Em Angola", relata ao Pensar.
O mote para o comentário que emana uma dose de nostalgia, como ele admite, foi a indagação a respeito das características do núcleo de crianças que "pinta" grande parte do mosaico narrativo do livro, calcado na realidade (ou nas realidades) de jovens e adultos angolanos durante a década de 1980, em um período de transformações, incluindo uma guerra civil, após se tornar independente de Portugal em 1975.
O teor político está inserido ao longo da história por meio de diálogos, cenários e personagens. Mas são as relações entre amigos, familiares e professores que funcionam como ponto chave para as cores da saudade de uma atmosfera em que, como Ondjaki destaca, "tudo que tinha de mais valioso na (minha) vida eram as pessoas". "A família nuclear; a família ‘da rua’ (vizinhança) e a ‘família da escola’. Posso mesmo morrer feliz e dizer que 'tive amigos com os quais celebrei a vida de modo muito belo'. E isso para mim é uma grande fortuna. É normal que eu sinta falta deles ou dos dias em que todos nós fomos outros e fomos aqueles. 'Bom dia, camaradas' também foi escrito para eles e aos professores cubanos e angolanos."
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A narrativa é recheada de divertidas histórias envolvendo crianças e mestres das salas de aula, o que ilustra bastante as pinceladas nostálgicas do autor – inspiradas em sua infância, porém longe de serem restritas a ela –, e alcança episódios embasados em diferentes realidades de outras personagens. É o caso do camarada Antônio, um senhor que tem uma forte ligação com o garoto e protagonista do livro. Ambos, aliás, representam, como enfatiza Ondjaki, um "antagonismo de opiniões" com relação às transformações que aconteciam no país. "Fiz isso com a consciência de contribuir para um debate ainda em aberto: o lugar das heranças coloniais, sejam conscientes ou inconscientes. Que o ‘confronto de opiniões’, seja entre um adulto e uma criança, também aponte para certas pistas humanas e literárias que foram opções desse tal autor chamado Ondjaki. Mas o mais importante é a vida."
Outro componente que acrescenta uma camada diferente à obra é uma tia do protagonista. Angolana que vive em Portugal, ela avista cenas e locais com um olhar de "surpresa" quando visita o país africano. Em uma das passagens do romance, o menino a alerta a não tirar fotos no aeroporto, o que poderia render a ela problemas com a polícia. Personagens oriundos de uma mesma raiz, mas de vivências, gerações e culturas diferentes. "A personagem da tia é usada para elevar esse contraste de visões entre os que lá moravam em Luanda e os que vinham de visita. Esse tipo de contraste, com o qual toda a literatura trabalha, é muito útil para dizer coisas sem recorrer às forçadas pedagogias. Há coisas que ganham intensidade justamente por serem simples e cruas. Como, por exemplo, as nuances no olhar de uma criança", diz o escritor.
Nova edição
Duas décadas e meia depois de seu lançamento, "Bom dia, camaradas" ganha uma versão nacional com posfácio assinado por Rita Chaves, professora-docente de literaturas africanas de língua portuguesa na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).
Quem é Ondjaki
Nascido Ndalu de Almeida, o autor adotou o nome Ondjaki, ou seja, "guerreiro", dentre vários outros significados na língua umbundo, do Sul da Angola. Natural de Luana, teve seus livros traduzidos a vários idiomas, como espanhol, alemão, inglês, francês, italiano, sérvio e sueco.
O autor transita por gêneros literários como poesia – vide "Dentro de mim faz sul seguido de acto sanguíneo" (2010) –, romances e novelas – "O assobiador" (2002) e "Uma escuridão bonita" (2012) – e contos "Vou mudar a cozinha" (2022).
Membro da União dos Escritores Angolanos, foi agraciado com prêmios como Sagrada Esperança em 2004; José Saramago em 2013; e Vergílio Ferreira (Universidade de Évora, Portugal) em 2023, pelo conjunto da sua obra. Também já faturou um Jabuti, na categoria melhor livro juvenil, em 2010, por "Avó Dezanove e o segredo do soviético" (Companhia das Letras).
Entrevista
Você tem sido um autor que os brasileiros têm descoberto, redescoberto e se interessado por sua literatura, suas histórias e reflexões. Como chega para você a repercussão de seus livros no Brasil?
São dois aspectos, creio eu: uma coisa é a repercussão pessoal, e isso apenas diz da carreira de um autor angolano, que sou eu. Mas a repercussão coletiva de autores africanos, isso diz muito ao continente africano e, creio eu, deveria também dizer muito ao Brasil. O "modo de escrever africano" (se pudéssemos colocar assim tudo simplesmente em um saco só), ajuda a mostrar uma atitude perante os povos e a natureza. Mesmo que sejam naturezas urbanas, digamos assim. Creio que o Brasil, nos últimos anos, tem expandido seu olhar e talvez sua curiosidade. Mas conhecer a África é conhecer o Brasil, e o inverso também é verdade. Ou, se não quisermos usar a palavra "conhecer", podemos usar os termos "reconhecer" ou "celebrar". É preciso essa abertura para receber a cultura do outro. O mundo cresce quando isso acontece.
Quanto à narrativa de "Bom dia, camaradas", nos fale do papel dos cubanos naquele momento (anos 1980). O quanto foram importantes para a educação e que inclusive se tornaram amigos dos meninos e dos adultos na história.
Era uma situação muito, muito específica... Fica até difícil explicar. As aulas eram uma loucura de línguas, expressões, explicações, brincadeiras, ternura, aprendizagem e permuta (no sentido de troca justa). Foi essencialmente isso que senti que recebi daqueles professores cubanos: uma justa permuta de conhecimentos e uma outra abordagem de mundo (N.R.: aqui o autor também fala da participação real dos cubanos em Angola no período vivenciado pelo país nos anos 1980). Isso, obviamente, é marcante. Como uma cicatriz para a qual se olha, e às vezes causa ardor, outras vezes causa sorriso.
Sobre Luanda e a Angola naquele momento, há o recorte da época no livro. Como foi para você vivenciar aquele período?
Tudo o que eu disser aqui será teórico... Será já a distorção de uma lembrança. Mas posso dizer que era "tudo normal", no momento que ali estávamos. Era uma época muito peculiar. Para todos. E para as crianças também. Mas as crianças têm quase sempre pré-instalado esse recurso de imaginação e arejamento que permite driblar (ou esquivar?) algumas dificuldades e características que atrapalham as infâncias. Felizes as crianças que conseguem driblar os maus momentos. Que tristeza para aquelas crianças que, como todas as outras, nascem prontas para o riso e para o sonho, mas o que lhes cerca é um manancial de "tristezuras". Como neste momento, na Palestina ou no Sudão.
Um filme brasileiro de muito sucesso recente é "O agente secreto" (2025), em que há dois personagens angolanos que são refugiados em época de ditadura no Brasil. E eles exercem uma potência nas vezes em que aparecem. Inclusive na primeira cena. Assistiu ao filme? O que achou dele?
Mas é o que se chama de uma "pergunta infinita". Creio que esse filme é composto de muitas pinceladas e, portanto, suponho, de várias camadas. Fala de coisas difíceis quase sem falar, permite sonhar numa época em que o sonho tinha graus de autorização e de proibição. Há gente que foi torturada (no Brasil e em outros lugares, claro) quando a ditadura se instaura e investe na sua manutenção. O Brasil e outros países têm o dever de ensinar às crianças e relembrar aos adultos o que é, o que pode ser e quão facilmente de repente um país inteiro pode cair nas garras de um sistema que controla, sufoca, tortura, mata, agride e sai impune desse tipo de travessia. Nesse sentido, é um filme importante também porque põe jovens e adultos a falarem daquele período.
Muito obrigado pela entrevista. Gostaria que deixasse uma mensagem a seus fãs brasileiros.
Eu é quem agradeço pela qualidade das suas perguntas. Acho importante que algumas pessoas estabeleçam uma relação com o livro, ou determinados livros. Mas não com os autores. A mensagem que deixo é de que procurem mais nomes das literaturas menos óbvias. É preciso ler autores de Timor Leste (já leu Luís Cardoso de Noronha?), da Guiné-Bissau (já leu Odete Semedo?), de São Tomé e Príncipe (já leu Conceição Lima?). Digo isso porque autores de Cabo Verde, Angola e Moçambique têm tido mais espaço no Brasil. É preciso trazer todas essas madeiras para começar a entender o conceito de jangada...
‘BOM DIA, CAMARADAS’
Autor: Ondjaki
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 160
Preço: R$ 69,90
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