INICIATIVA

Premiar para revelar novos caminhos para a literatura

Em artigo, o escritor e gestor cultural Henrique Rodrigues reflete sobre como lançar nomes no mercado literário

Publicidade
Carregando...

Henrique Rodrigues - Especial para o Estado de Minas

Fique por dentro das notícias que importam para você!

A cena literária brasileira é permeada por contradições. Se por um lado vivemos um tipo de boom literário, com muitos eventos literários se multiplicando pelo país, além da ideia de que “ler está na moda”, bastante alardeada pelas redes sociais, o número de brasileiros que se declaram não-leitores é maioria pela primeira vez, segundo a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Nós, que estamos no front, escrevendo livros e criando projetos para estimular a leitura e a escrita, acompanhamos esses movimentos e somos, também, responsáveis por esses números. 

Estive recentemente na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e na festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), dois eventos importantes que registraram recordes de público. Acaba de acontecer a Bienal do Livro de São Paulo, com idêntica superlotação. Tenho batido, insistentemente, na tecla de que a política pública precisa chegar junto e promover políticas efetivas de formação de leitores, um flanco que está bem aberto no setor. É como se o mercado promovesse churrascos festivos a cada um ou dois anos, mas o dia a dia fosse marcado pela subnutrição.

Leia Mais

Se leitores não brotam em árvores, o mesmo não ocorre com escritores. No meio dessa euforia dos livros, notamos que, nas últimas décadas, tem surgido uma infinidade de novos nomes. Outro paradoxo: a literatura é uma expressão artística pouco valorizada moral e financeiramente, sobretudo na frase repetida ad eternum quando se fala no assunto: livro no Brasil é caro. No entanto, uma infinidade de gente quer ser escritor e respeitado por essa atividade. 

Os blogs e impressão por demanda

Quando comecei a escrever e sonhar com publicação, ainda nos anos 1990, a literatura era uma arte produzida por grandes nomes, ocultos nos seus claustros e com quem, para se ter um contato, era necessário enviar uma carta para a editora, sem saber se a missiva chegaria ao destinatário.

Com o avanço das tecnologias de impressão, e o advento da internet, a coisa começou a mudar. Minha geração, que surgiu nos anos 2000, foi marcada pela publicação de textos literários em blogs (ai que saudade que eu tenho!) e nas revistas literárias on-line. Em paralelo, tornou-se possível que as pessoas imprimissem seus próprios livros, em quantidades menores, a fim de jogar ao mundo seus escritos. Daí que tenhamos no Brasil mais de mil editoras ativas e menos de três mil livrarias, numa equação bem esquisita. Ou seja, o grosso da produção literária impressa não segue todas as etapas da cadeia produtiva convencional, com processos de edição, revisão, diagramação e, sobretudo, distribuição e vendas. 

Em parte, a compra direta de sites e o comércio on-line ajudam, ainda que práticas comerciais como a da Amazon sejam questionáveis, pois são vendidos livros com valor muito abaixo do mercado para sufocar sites concorrentes (inclusive da própria editora), contribuindo fortemente para o fechamento de livrarias físicas. 

E como ficam os autores?

Bem, nesse contexto, muita gente faz das tripas coração para divulgar seus livros, seja nas redes sociais, em vaquinhas virtuais, seja bancando suas participações em eventos para vender seu peixe. Recebo muitos livros de iniciantes e inúmeros pedidos de ajuda para publicação. Mas uma coisa é certa: o que todo autor quer mesmo é ver o seu livro bonito, trabalhado seriamente e circulando até chegar aos leitores.

Nesse quadro, algumas questões me vêm: como distinguir nesse universo o que é bom? Como dar espaço a quem realmente precisa? 

Ainda que tenhamos muitos clubes de leitura e outras atividades para a promoção da literatura, falta no Brasil um processo amplo de mediação literária, que faça a ponte entre o que é escrito e o que é lido. Não é o mercado que vai resolver isso. Mesmo porque as editoras, de todos os portes, naturalmente dizem que seus livros são excelentes, os autores idem. Os canais de crítica literária estão cada vez menores, chegando ao ponto de escritores, de novos a famosos, se debaterem como peixes caso alguém diga que sua produção não é genial. Enquanto as políticas públicas não chegam para resolver esse meio de campo, algumas ideias surgem.

Em busca de um caminho

Um deles, que tive desde 2002 na instituição em que trabalhava para promover literatura, é selecionar autores unicamente pela qualidade do texto. E colocar esse livro numa grande editora. Essa proposta, apesar de simples, é radical e subversiva, pois o acesso às grandes casas editoriais sempre se deu por indicações, apadrinhamentos e outros atalhos a que a maioria não tem acesso. Isso de forma criteriosa e democrática, a fim de trazer, de qualquer lugar do país, um novo nome para as nossas Letras. 

Esse formato não só deu certo, como serviu de base para outros projetos. E hoje conseguimos dar mais um salto com o Prêmio Caminhos de Literatura. Quem vencer terá seu romance publicado em três editoras muito importantes: Dublinense, no Brasil, Kacimbo, em Angola. E a novidade é que o livro também sairá em Portugal, no Grupo Infinito Particular, que publica por lá nomes como Carla Madeira, Socorro Acioli e Raphael Montes. 

Com o passar do tempo, esse formato acaba arejando a literatura brasileira, dando protagonismo a nomes que, sem a premiação, dificilmente teriam alcançado reconhecimento na área. Fico feliz de ter trabalhado nesses anos para revelar nomes como Bethânia Pires Amaro, Luiza Geisler, André de Leones, Juliana Leite, Airton Souza, além das recentemente reveladas pelo Prêmio Caminhos, a paraense Izabella Cristo e a mineira Paula Novais. 

Há muitas barreiras entre quem quer ser escritor e ver o seu livro circulando, sobretudo nesse triângulo lusófono Brasil-Angola-Portugal. Esperamos contribuir para quebrar um pouco esse obstáculo e, de quebra, promover o intercâmbio cultural entre os três países. A literatura e os leitores merecem!

HENRIQUE RODRIGUES é escritor e idealizador do Instituto Caminhos da Palavra, que tem como objetivo revelar novas autorias da ficção brasileira contemporânea

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Sobre o Prêmio Caminhos de Literatura

O Prêmio Caminhos de Literatura é uma iniciativa do escritor e produtor cultural Henrique Rodrigues, idealizador do Instituto Caminhos da Palavra. O projeto tem como objetivo revelar novas autorias da ficção brasileira contemporânea, buscando contribuir para a renovação da literatura nacional e apostando na importância da bibliodiversidade literária. A premiação é aberta a escritores e escritoras de todo o Brasil que estejam concorrendo com seu primeiro romance. As inscrições são gratuitas e vão até este 15 de setembro. A obra vencedora será publicada em três países: Brasil, Angola e Portugal. 

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay