LITERATURA

Escrever é vencer o tempo: homenagem a Rachel Jardim

No centenário de nascimento da escritora nascida em Juiz de Fora, os livros que marcaram a trajetória da autora que tem a passagem do tempo como maior dos personagens 

Publicidade
Carregando...

Ernane Catroli - Especial para o Estado de Minas

Fique por dentro das notícias que importam para você!

“Ficou comigo a recordação de um vulto magro, com alguns ramos de cabelos ostensiva e desafiadoramente brancos, um vestido cinza, talvez. Pensei na hora: ela se parece com as minhas tias do interior de Minas – e fui seguindo, como quem fugisse de uma presença incômoda.” (Roberto Drummond)

Numa resenha sobre “Inventário das cinzas” (1980, Prêmio Luíza Cláudio de Souza do Pen Clube do Brasil), o escritor Roberto Drummond assim se refere a Rachel Jardim (1926-2023) quando, em Belo Horizonte, deixou escapar a oportunidade de conhecer a autora ao vê-la em companhia do contista Murilo Rubião. Mesmo sentimento de espanto/respeito, do motorista de táxi que, debaixo de chuva, carrega Judite, personagem de “Inventário das Cinzas”. 

Em tom intimista, com seu estilo, deliberadamente avesso às inovações formais, lentamente, Rachel prende o leitor sob indizível atmosfera. Seus personagens de carne e osso envelhecem no curso de uma obra onde o Tempo é o supremo personagem. Mestra na manipulation and argumentation literária, Jardim se presentifica, com devido distanciamento, como eu-narrador. Na orelha de “Inventário das Cinzas” (2a. Ed. Rio de Janeiro: Salamandra, 1984), a escritora nascida em Juiz de Fora ressalta: “Narrado em primeira pessoa, posso afirmar que os fatos acontecidos não se passaram comigo, mas que se a ação do livro se processa na alma humana, essa alma podia ser perfeitamente a minha”. 

Seus primeiros contos, “As Estrelas” e “Conversa com Pedro”, com ilustrações de Santa Rosa e Bianco, respectivamente, sob o pseudônimo de Marta Gomes Jardim, foram publicados, em 1946, por Franklin de Oliveira na sua coluna Sete Dias (Revista O Cruzeiro). Data deste tempo breve afastamento de Jardim da escrita, quando se forma em Direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), se casa e ingressa na Administração Pública, registrando destaque no projeto Corredor Cultural (Lei Municipal de 17/01/1983) e na sub-prefeitura de Santa Teresa, onde teve a oportunidade de resgatar os despojos de arquitetura do Palacete Murtinho, point cultural dos anos 1920, outrora pertencente à socialite Laurinda Santos Lobo, e transformá-los no Parque das Ruínas, hoje espaço cultural dedicado à jornalista Glória Maria. 

Sobre essa experiência Rachel depõe: “Em 1946, com a morte de Laurinda, sobrinha-herdeira de Joaquim Murtinho, o casarão foi doado, segundo desejo do tio, à Sociedade Hahnemanniana, centro de estudos de homeopatia. A partir de então, numa antevisão de tudo o que aconteceria depois com o país, a casa, desapropriada pela Prefeitura, em 1979, foi saqueada, invadida, depredada, usada por traficantes. A determinação de conservar os heroicos despojos tais como restaram, autorizam ser marca e símbolo de resistência. Que permaneçam induzindo ao sonho através da história real, na qual se mesclam esplendor, agonia e redenção”. 

O retorno de Rachel à literatura dá-se com o livro “Os Anos 40: a ficção e o real de uma época” (1973), prefaciado por Franklin de Oliveira, ilustrado por Guima (João Guimarães Vieira). Ao livro de estreia seguiram-se outros: “Cheiros e ruídos” (1975), “Vazio pleno: relatório do cotidiano” (1976), “Inventário das cinzas” (1980), “A Cristaleira Invisível” (1982), “O penhoar chinês” (1985), e “Num Reino à beira do rio: um caderno poético de Murilo Mendes” (2004). 

Alguns de seus textos, tais como “Inventário das Cinzas” e o conto “As Urzes da Cornualha”, foram adaptados para o teatro. Jardim, que sempre enxergou os clássicos literários como base de sustentação de seu amor pelo Rio de Janeiro, por longo tempo, coordenou, em grupo, leituras de trechos de Machado de Assis e João do Rio, cronistas de um glorioso tempo carioca. Essa experiência literária, Rachel estendeu à revelação de Marcel Proust que, como ninguém, conhecia em minúcias. Assoma-se à vasta experiência literária os textos publicados na coleção de postais “Olhos de ver”, que destacam as belezas das ruas e paisagens cariocas, memorabília disputada por colecionadores. Luiz Eduardo Pinheiro, arquiteto, quando do falecimento da escritora, registrou: “Rachel entendeu a cidade como o real depositário da Cultura e sua dinâmica. Desbravou caminhos. Quando todos ainda tinham o conceito tradicional de preservação e proteção do patrimônio cultural, Rachel ousou pensar mais longe”.

Neste mês de setembro de 2026, quando se comemora o centenário de nascimento de Rachel Jardim, nossas reverências à memória de uma das maiores escritoras que Minas Gerais deu ao Brasil. 

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

ERNANE CATROLI é escritor, nasceu em Sant'Anna de Cataguases (MG) e mora no Rio de Janeiro. Tem contos publicados em antologias coletivas.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay