POESIA

‘Repertório selvagem’ reúne a poesia completa de Olga Savary

Tradutora de Borges e Neruda e fundadora d'O Pasquim, poeta paraense ganha reedição que reúne 15 livros de poesia e revela a amplitude de uma obra que ultrapassa o rótulo de poesia erótica

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Thaís Guimarães - especial para o Estado de Minas

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A publicação de “Repertório selvagem” pela Companhia das Letras permite ler em continuidade a obra poética de Olga Savary, escritora brasileira de trajetória múltipla e amplamente reconhecida em vida, ganhadora de mais de 25 prêmios nacionais de literatura, entre eles dois Jabutis.

Gostava de ser chamada sobretudo de poeta, mas dedicou-se também à crítica, ao ensaio e à ficção. Traduziu mais de quarenta obras de importantes autores hispano-americanos, entre eles Borges, Octavio Paz e Pablo Neruda, tendo ela própria sua poesia traduzida e publicada em diversos países. Politicamente ativa, foi uma das fundadoras de O Pasquim, atuando como redatora, por mais de dez anos, de uma coluna cultural.

Viveu os últimos dias em Teresópolis, onde faleceu em 2020, em decorrência de complicações da Covid-19.

A origem amazônica permaneceu como referência profunda de seu imaginário, reaparecendo ao longo da obra que produziu, sobretudo na presença recorrente dos rios e no uso de palavras do vocabulário tupi. Também a experiência de viver em cidades à beira-mar soma-se às diferentes águas que transitam em sua poesia.

Ao longo de quase sete décadas, construiu uma obra poética extensa, que agora pode ser acompanhada em um único volume. São quinze livros, de “Espelho provisório”, lançado em 1970, ao inédito “Lagar — Haikai e outros poemas”, concluído em 2003 e publicado pela primeira vez. O acesso a esse conjunto ilumina algumas matérias fundamentais na obra de Savary: a materialidade do corpo, a água em sua ampla simbologia e o desejo como afirmação da vida, presentes desde o início de seu itinerário poético.

Descobri Olga Savary em 1982, durante o “1º Festival das Mulheres nas Artes”, organizado por Ruth Escobar, em São Paulo. Eu tinha 21 anos e vivi ali a efervescência de um encontro que reunia mulheres artistas de várias partes do país. Foi também o ano de lançamento de “Magma”, livro que me causou forte impressão na época e que, desde então, me acompanha. O erotismo já ganhava espaço na poesia escrita por mulheres, no contexto das transformações culturais daquele período, mas Olga lhe conferiu uma centralidade rara: em “Magma”, o desejo feminino não aparece apenas em poemas esparsos, mas organiza uma obra e é assumido como expressão de um corpo que fala e escreve de si. O livro se tornou, nesse sentido, uma referência pioneira na afirmação do erotismo feminino na poesia brasileira. Dois anos depois, a escritora organizou “Carne viva”, antologia de poemas eróticos com mais de setenta poetas, entre mulheres e homens.

Já conhecia o nome de Savary pelas traduções lidas em meu curso de Letras na UFMG. Estávamos no início dos anos 1980, vivendo a expectativa da redemocratização, e havia uma urgência em tudo. Conhecer naquele momento a poeta e a dimensão de sua presença na cena artística e cultural do país foi, para mim, uma revelação.

Olga não me parecia uma figura solitária: era uma escritora reconhecida, premiada, transitava com desembaraço no meio literário, assumia posições feministas e dialogava com importantes nomes da literatura brasileira.

Essa lembrança torna especialmente instigante a leitura de “Estrela solitária, reacesa”, o excelente posfácio de Italo Moriconi ao volume publicado pela Companhia das Letras. O crítico situa, a partir de meados dos anos 1970, a crescente presença da crítica literária no ambiente universitário, que elege a poesia marginal e o concretismo como focos privilegiados. Forma-se, segundo ele, um “cisma” entre esse espaço crítico e a cena literária da qual Olga participava.

A distinção feita por Moriconi é importante, pois uma autora pode ter sido reconhecida, publicada e premiada em vida e, ainda assim, perder espaço em um circuito crítico que se tornava predominante. O posfácio tem o mérito de enfrentar essa aparente contradição e acompanhar Olga Savary não como figura isolada de seu tempo, mas em relação com os deslocamentos da crítica literária brasileira. O próprio Moriconi, ao recordar quando conheceu Olga pessoalmente no final dos anos 1980, registra o deslumbramento de estar diante de uma “musa”. A imagem dimensiona que a “estrela solitária” não era uma escritora sem prestígio ou interlocutores, mas uma poeta que continuava a brilhar.

A importância do posfácio vai além dessa recuperação histórica. Moriconi propõe uma leitura panorâmica da trajetória de Savary, detendo-se com maior minúcia em momentos decisivos, como “Espelho provisório”, “Magma”, “Linha-d’água” e “Berço esplêndido”. Mais do que esgotar cada um dos quinze volumes, seu estudo acompanha permanências, inflexões e amadurecimentos e formula uma interpretação consistente da poética de Olga. Assim, ilumina a arquitetura geral de sua produção sem pretender esgotá-la, deixando abertas outras possibilidades de leitura e análise. Ao mesmo tempo, revela a mulher por trás dos livros: a leitora voraz, a tradutora, a jornalista, a trabalhadora incansável que viveu da literatura, devota da palavra.

O título “Repertório selvagem” já havia sido utilizado em 1998, com o subtítulo “Obra reunida”, em volume publicado por outra editora, contendo doze livros de Olga Savary, e há tempos esgotado. É importante esclarecer que a publicação da Companhia das Letras não é uma nova edição daquele livro, mas, sim, uma reunião de toda sua produção poética: são quinze títulos, incluindo o inédito “Lagar — Haikai e outros poemas”. O volume oferece, assim, o panorama mais extenso de sua poesia até a presente data. Mais do que uma celebração póstuma, é um gesto editorial de permanência: reacende a estrela, torna novamente acessível um conjunto há muito disperso e favorece seu encontro com novas gerações de leitores.

A leitura em sequência revela que o caminho poético de Olga Savary, embora frequentemente associado à poesia erótica, é muito mais amplo em temas e formas e permite acompanhar o amadurecimento de uma imaginação profundamente ligada às forças da natureza. Em seu livro inaugural, “Espelho provisório”, a poeta escreve sou fonte na noite e se define como onda homicida e concha,/ sal, peixe,/ espuma canibal. Em “Magma”, essa identificação encontra uma de suas formulações mais explícitas: Íntima da água eu sou/ por força, mar, igarapé, rio, açude,/ pela água meu amor incestuoso, versos do poema “Sensorial” também destacados por Italo Moriconi no posfácio, ao identificar a água, metáfora central do livro, como um atributo do feminino, associando o desejo de si à interioridade do magma. Décadas depois, em Berço esplêndido, ar e fogo delineiam uma identidade e são marcas do tempo: em mim amor é coisa alada/ porque sou dos ares e labareda e lava/ fazem minha idade.

Em Olga, o corpo é paisagem e a natureza perpassa o corpo, participando de sua linguagem. As águas savaryanas chegam pela palavra e assumem inúmeras formas nessa geografia semântica. Essa matriz já está presente desde “Espelho provisóri”o (1970). Moriconi observa que a poeta surge na cena literária senhora de seus recursos e leitora dos grandes mestres, escolhendo inicialmente um “lirismo de revelação mútua do mundo e do eu”, construído a partir de imagens elementares: “Ar, água, terra, fogo do corpo”.

No trecho final de “Canção antes solitária”, poema deste seu livro de estreia, água, lembrança e identidade se confundem:
Pra que lembrança

roubei meus olhos?

Em que manhã

perdi-me ilha

atravessada pelo vento

na boca um nome

(disseram os peixes?):

vinha das águas.

A água reúne aqui origem e perda. A lembrança não recompõe uma identidade; não há resposta. A voz que chega das profundezas reitera o mistério de um nome desconhecido. A persona lírica não somente se perde numa ilha: torna-se ilha, cercada pelas águas da memória.

É em “Magma”, porém, seu quarto poemário, que a água entra em combustão com o erotismo. Neste livro, que considero central na construção do projeto literário de Olga, a água permeia, adentra e participa do corpo feminino que deseja, goza e reconhece o próprio prazer. O primeiro poema, “Ser”, coloca essa relação em movimento:

o sexo tão livre, natural,

obsessão de areia e seixos rolados:

regresso à água.

A água continua sendo origem, mas se torna também matéria íntima do corpo, como em “O segredo”:
Entre pernas guardas:

casa de água

e uma rajada de pássaros.


Três versos condensam uma imagem de alta voltagem erótica, construída na tensão entre o que se guarda na intimidade da “casa de água” e o impulso da “rajada de pássaros”.

Moriconi assinala que, com “Magma”, Olga foi celebrada como “uma desbravadora da expressão erótica feminina em nossa poesia”. Ao mesmo tempo, o crítico tem o cuidado de contextualizar o livro num movimento mais amplo de politização dos corpos que mobilizava a cultura e a literatura brasileiras, mencionando, entre outras iniciativas, “Mulheres da vida”, antologia organizada por Leila Míccolis em 1978. Assim, reconhece o lugar particular de Olga sem convertê-la numa origem isolada.

É importante observar que o erotismo em sua poesia não se propõe como narrativa linear de emancipação, mas como expressão livre do desejo, do amor e de seus paradoxos. Há entrega, domínio, combate e reversibilidade. Isso se evidencia em “Dionisíaca”, onde surgem cavalo e égua cavalgada e cavalgando/ a pradaria da cama, e em “Ária”, quando a persona lírica afirma: Sou caça sim mas também caçador solitário. A experiência erótica se organiza como troca entre duas forças contrárias e aliadas, sem uma definição fixa de papéis.

Minha leitura privilegia a força afirmativa da poesia de Olga, sem ignorar as ambivalências que abriga. Moriconi observa que, em “Magma”, a constituição de uma voz feminina desejante convive com a idolatria do falo e, em certos momentos, cede ao falocentrismo. Mas é justamente nessa tensão que se afirma um corpo que fala e reconhece o próprio prazer, entre entrega e resistência, duelo e aliança. A poesia não resolve essas contradições em favor de uma leitura unívoca: sustenta-as e faz da linguagem do desejo uma matéria poética própria.


A distinção feita por Moriconi é importante, pois uma autora pode ter sido reconhecida, publicada e premiada em vida e, ainda assim, perder espaço em um circuito crítico que se tornava predominante. O posfácio tem o mérito de enfrentar essa aparente contradição e acompanhar Olga Savary não como figura isolada de seu tempo, mas em relação com os deslocamentos da crítica literária brasileira. O próprio Moriconi, ao recordar quando conheceu Olga pessoalmente no final dos anos 1980, registra o deslumbramento de estar diante de uma “musa”. A imagem dimensiona que a “estrela solitária” não era uma escritora sem prestígio ou interlocutores, mas uma poeta que continuava a brilhar.

A importância do posfácio vai além dessa recuperação histórica. Moriconi propõe uma leitura panorâmica da trajetória de Savary, detendo-se com maior minúcia em momentos decisivos, como “Espelho provisório”, “Magma”, “Linha-d’água” e “Berço esplêndido”. Mais do que esgotar cada um dos quinze volumes, seu estudo acompanha permanências, inflexões e amadurecimentos e formula uma interpretação consistente da poética de Olga. Assim, ilumina a arquitetura geral de sua produção sem pretender esgotá-la, deixando abertas outras possibilidades de leitura e análise. Ao mesmo tempo, revela a mulher por trás dos livros: a leitora voraz, a tradutora, a jornalista, a trabalhadora incansável que viveu da literatura, devota da palavra.

O título “Repertório selvagem” já havia sido utilizado em 1998, com o subtítulo “Obra reunida”, em volume publicado por outra editora, contendo doze livros de Olga Savary, e há tempos esgotado. É importante esclarecer que a publicação da Companhia das Letras não é uma nova edição daquele livro, mas, sim, uma reunião de toda sua produção poética: são quinze títulos, incluindo o inédito “Lagar — Haikai e outros poemas”. O volume oferece, assim, o panorama mais extenso de sua poesia até a presente data. Mais do que uma celebração póstuma, é um gesto editorial de permanência: reacende a estrela, torna novamente acessível um conjunto há muito disperso e favorece seu encontro com novas gerações de leitores.

A leitura em sequência revela que o caminho poético de Olga Savary, embora frequentemente associado à poesia erótica, é muito mais amplo em temas e formas e permite acompanhar o amadurecimento de uma imaginação profundamente ligada às forças da natureza. Em seu livro inaugural, “Espelho provisório”, a poeta escreve sou fonte na noite e se define como onda homicida e concha,/ sal, peixe,/ espuma canibal. Em “Magma”, essa identificação encontra uma de suas formulações mais explícitas: Íntima da água eu sou/ por força, mar, igarapé, rio, açude,/ pela água meu amor incestuoso, versos do poema “Sensorial” também destacados por Italo Moriconi no posfácio, ao identificar a água, metáfora central do livro, como um atributo do feminino, associando o desejo de si à interioridade do magma. Décadas depois, em Berço esplêndido, ar e fogo delineiam uma identidade e são marcas do tempo: em mim amor é coisa alada/ porque sou dos ares e labareda e lava/ fazem minha idade.

Em Olga, o corpo é paisagem e a natureza perpassa o corpo, participando de sua linguagem. As águas savaryanas chegam pela palavra e assumem inúmeras formas nessa geografia semântica. Essa matriz já está presente desde “Espelho provisóri”o (1970). Moriconi observa que a poeta surge na cena literária senhora de seus recursos e leitora dos grandes mestres, escolhendo inicialmente um “lirismo de revelação mútua do mundo e do eu”, construído a partir de imagens elementares: “Ar, água, terra, fogo do corpo”.

No trecho final de “Canção antes solitária”, poema deste seu livro de estreia, água, lembrança e identidade se confundem:
Pra que lembrança

roubei meus olhos?

Em que manhã

perdi-me ilha

atravessada pelo vento

na boca um nome

(disseram os peixes?):

vinha das águas.

A água reúne aqui origem e perda. A lembrança não recompõe uma identidade; não há resposta. A voz que chega das profundezas reitera o mistério de um nome desconhecido. A persona lírica não somente se perde numa ilha: torna-se ilha, cercada pelas águas da memória.

É em “Magma”, porém, seu quarto poemário, que a água entra em combustão com o erotismo. Neste livro, que considero central na construção do projeto literário de Olga, a água permeia, adentra e participa do corpo feminino que deseja, goza e reconhece o próprio prazer. O primeiro poema, “Ser”, coloca essa relação em movimento:

o sexo tão livre, natural,

obsessão de areia e seixos rolados:

regresso à água.

A água continua sendo origem, mas se torna também matéria íntima do corpo, como em “O segredo”:
Entre pernas guardas:

casa de água

e uma rajada de pássaros.

Três versos condensam uma imagem de alta voltagem erótica, construída na tensão entre o que se guarda na intimidade da “casa de água” e o impulso da “rajada de pássaros”.

Moriconi assinala que, com “Magma”, Olga foi celebrada como “uma desbravadora da expressão erótica feminina em nossa poesia”. Ao mesmo tempo, o crítico tem o cuidado de contextualizar o livro num movimento mais amplo de politização dos corpos que mobilizava a cultura e a literatura brasileiras, mencionando, entre outras iniciativas, “Mulheres da vida”, antologia organizada por Leila Míccolis em 1978. Assim, reconhece o lugar particular de Olga sem convertê-la numa origem isolada.

É importante observar que o erotismo em sua poesia não se propõe como narrativa linear de emancipação, mas como expressão livre do desejo, do amor e de seus paradoxos. Há entrega, domínio, combate e reversibilidade. Isso se evidencia em “Dionisíaca”, onde surgem cavalo e égua cavalgada e cavalgando/ a pradaria da cama, e em “Ária”, quando a persona lírica afirma: Sou caça sim mas também caçador solitário. A experiência erótica se organiza como troca entre duas forças contrárias e aliadas, sem uma definição fixa de papéis.

Minha leitura privilegia a força afirmativa da poesia de Olga, sem ignorar as ambivalências que abriga. Moriconi observa que, em “Magma”, a constituição de uma voz feminina desejante convive com a idolatria do falo e, em certos momentos, cede ao falocentrismo. Mas é justamente nessa tensão que se afirma um corpo que fala e reconhece o próprio prazer, entre entrega e resistência, duelo e aliança. A poesia não resolve essas contradições em favor de uma leitura unívoca: sustenta-as e faz da linguagem do desejo uma matéria poética própria.


THAÍS GUIMARÃES é poeta, escritora para a infância e editora. Entre seus livros de poesia, destacam-se “Jogo de cintura” (1983) e “Jogo de facas” (2017). É coautora, junto com Adriane Garcia, de “Círculos onde envelheço” (2026), obra em que assina um poema homenageando Olga Savary.


SELEÇÃO DE POEMAS DE OLGA SAVARY

Submágica

O vento chama-te em mim
como uma fonte cega.
Estranhos, arribaram
os pássaros da memória.
Em pouco
nada de meu restará
em mim: dou-te um ombro
a cada tarde.
(De “Espelho Provisório” – 1970)

*

Ar

É da liberdade destes ventos
que me faço.
Pássaro-meu corpo
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.
(De “Sumidouro” – 1977)

*

Resumo

Palavras, antes esquecê-las,
lambendo todo o sal do mar
numa única pedra.
(De “Altaonda” – 1979)

*

Delta

Se este corpo é um figo aberto
(colheita só de frutos roxos)
ou como vogal aberta
como um A
de ave,
água,
oro tu piel
Ah miel!
(De “Magma” – 1982)

*

Alquimia

A febre incandesce a água,
a água abrasa o fogo
e o fogo, o corpo aceso,
agora tornado ouro.
(De “Hai-kais” – 1986)

*

Ser

tal e qual
o fulgor da manhã,
toda folha, toda água,
tendo teus pássaros
um em cada ombro:
terei amado o que és
— não o sonhado —,
ó mais que amor.
(De “Linha-d’água” – 1987)

*

Destino

ou sei lá que nome tenha,
com vista para o mar? Não, para a vida.
E nenhuma pista, a não ser: poesia.
(De “Retrato” – 1989)
Rudá*

Rudá, em tupi, o nome
do amor de que se nasce,
amor do qual se morre.
* Do tupi: “o nome do amor”
(De “Rudá” – 1994)

*

Outra cena

Sentada estavas quando ele entrou
seguido de uma princesa ou uma serpente.
Só sabes que teu rosto não mudou
mas em turvo mudou-se o transparente
riso de antes, pesados os gestos.
Viraste uma mulher que, acordada
e de frente, vê um sonho mau
se sonho e distante já nem sente
e que já não amando é como se amasse
e, perdido o amor, é como se o tecesse.
(De “Éden Hades” – 1994)

*

Umuçarae*

Como no espaço de uma aula,
atleta provo-te as delícias
quando nos abro a jaula.
* Do tupi: brincar
(De “Repertório Selvagem” – 1998)

*

Jaula aberta no 77º andar

Sonhar era sonhado o proibido medo
de misteriosas uvas pisadas em segredo,
abocanhar voraz entre os dentes figo aberto,
excitar a fera com seu cheiro de cadela
para King Kong lhe pôr um anel no dedo.
Sonhar era sonhado o proibido medo.
(De “Berço Esplêndido” – 2001)

*

Beija-flor

De esperança homens usam
minhas asas de metáfora:
polinizo liberdade.
(De “Anima Animalis” – 2008)

*

Mar como mantra

O mar, o mar
para sempre lembrado
no oco do búzio.
(De “Ara” – 2016)

*

Fazer poético

Amar as lavras,
palavras, e seus halos
até fartá-los.
(De “Lagar — Haikai e outros poemas”
2026, edição atual)

NOTAS

1ª. Os títulos das obras “Hai-kais” e “Éden Hades” foram mantidos conforme as edições originais de Olga Savary, preservando escolhas e hifens da autora. Em especial no caso do segundo título, observa-se que há uma justaposição de palavras duais e não um substantivo composto.

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2ª. A obra “Morte de Moema” (1996) não foi incluída nesta seleção por constituir uma elegia dramática de fôlego único, cuja unidade lírico-narrativa seria descaracterizada pelo recorte de fragmentos isolados.

“Repertório selvagem”

  • De Olga Savary
  • Companhia das Letras
  • 456 páginas
  • R$ 109,90

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