Davis Diniz - Especial para o Estado de Minas

São 17h de uma quinta-feira. Henrique Iwao está na cantina da Fafich, um prédio de ares brutalista e entrecortado por uma jardinagem tropical que cai aos borbotões pelos vãos internos do templo laico dos cursos de Humanidades de UFMG. Henrique espera por mim, que devo encontrá-lo para receber seu livro mais recente, “O melhor amigo do rato”. Mas não iremos nos encontrar nesse dia. Henrique não usa celular. E nosso contato é feito pela caixa de mensagens do Instagram, que ele acessa por meio de um tablet. Ou seja, com muito atraso em relação à instantaneidade do Whatsapp e suas notificações tradicionais. E dessa forma o meu atraso se torna algo exponencial e por isso teremos de remarcar para ele me entregar o livro. 

Passada uma semana, finalmente nos encontramos. Então acontece a reunião sugerida pela Myriam Ávila, que semanas atrás havia me dito, “Davis, o Henrique, você conhece ele, das ‘Quartas de Improviso’ [Q.I.], amigo do Miguel, está com um livro novo e você deveria dar uma olhada”. E como eu conhecia o trabalho do Henrique das Q. I. aceito encontrar esse estranho-familiar, de sobrenome sonoro e a quem admiro por suas movimentações na cena de música experimental de Belo Horizonte. Ele me entrega o livro. Conversamos. Iwao me parece um sujeito simpático e logo descubro um pouco da trajetória que o traz de Botucatu, sua cidade natal, até Campinas, onde se graduou em música pela Unicamp e sua posterior vinda para BH, quando se dá o início do projeto Q.I. e, mais tarde, a temporada em que ele pesquisou Arthur Danto na pós-graduação do curso de Filosofia da Fafich. 

Henrique me conta que o livro surgiu de uma seleção e reescrita de textos muito breves publicados em blogues, migrando de uma a outra plataforma (blogspot, posterous, wordpress e mais recentemente substack) conforme as últimas atualizações destes meios textuais de natureza digital.

Após a conversa e o café, nos despedimos, me desculpo pela terceira vez por ter me confundido quanto à data e horário da primeira reunião, e saio com o livro em mão para ler mais tarde o que encontraria em “O melhor amigo do rato”. Trata-se de uma compilação de 110 textos, variados entre crônicas, poesias, microcontos, mini-ensaios, provérbios, frases de efeito e relatos de sonhos. “Essa profusão”, revela o próprio autor, “só é possível porque trabalho no livro o texto curto, que raramente ultrapassa uma página, e procura, muitas vezes, em um parágrafo, já traçar e arrematar uma imagem, um acontecimento, um encontro, um achado”. E essa é a característica que primeiramente salta aos olhos do leitor que abre as páginas de “O melhor amigo do rato”: uma miscelânea tentacular (muito bem apanhada por Carolina Deptulski, que desenha uma versão de Iwao com seis braços enquanto ele realiza na cozinha de sua casa tarefas diversas) cuja característica seria uma heterogeneidade arisca a qualquer rigor instrumental dos gêneros literários.

Mas apesar da heterogeneidade há pelo menos dois imperativos inegociáveis no livro. O primeiro deles na verdade são cinco (conforme Ítalo Calvino havia predicado em “Seis propostas para o novo milênio”): a leveza, a rapidez (que valoriza o ritmo alternado), a exatidão, a visibilidade e a multiplicidade. E o segundo deles (talvez inscrito no âmbito da leveza calviniana que nos aconselhava a remoção do peso da linguagem): a ironia, humorada e divertida, que pretende se afastar do peso que acompanha o sarcástico. Em “reduplicado”, por exemplo, lemos que “uma tia fuxiqueira mais vale / que um homem de ideias perigosas”. Ou na sutileza com que mitos arcaicos podem ser atualizados na visão cotidiana de Iwao em “churrascaria”: “chronos grill / baby beef”.

Quanto às influências, Iwao tem inclinações por Lewis Carrol, Córtazar, Adília Lopes, Nietzsche (que o autor acreditar ter sido um blogueiro avant la lettre) e Wittgenstein. E nesse fluxo, entre humor e descaramento lógico, um texto nomeado “ladainha do nome de deus” me chama atenção (por me fazer pensar na maravilhosa lógica metafísica borgeana de “Argumentum Ornithologicum”):

deus não tem nome. deus não é o nome de deus. deus é como o nome de deus é chamado. o nome do nome de deus é deus, porque é como o nome de deus é chamado. não há nome possível para o nome de deus. o nome de deus não é o nome de deus. o nome do nome de deus não nomeia deus, nem o nome nome de deus.

Outro aspecto característico do livro é a crônica de uma topologia urbana oscilante entre Belo Horizonte, São Paulo, às vezes Rio de Janeiro e, ainda, um par de capitais europeias por onde o autor transita e encontra amigos.  Nesse sentido, uma urbanidade seletiva por locais como o edifício Maletta, a Barra Funda, os siberianos ares-condicionados dos cinemas cariocas, os banheiros do terminal rodoviário do Tietê, os ônibus interestaduais da empresa Gontijo, máquinas de transporte da vida sudestina. Mas também há vazões para outras latitudes, como localidades amazônidas de Alter do Chão e Amapá, entre outros pontos de deslocamentos que a deambulação dos textos de Iwao procura mimetizar ao longo dos textos.

A textualidade dos escritos de Henrique Iwao também se expande por meio das interseções com outros autores e textos contemporâneos, especialmente numa sessão nomeada “poemas-plágios”, momento em que defrontamos diálogos experimentais com poemas de Caco Ishak e Júlia de Carvalho Hansen.

Há também listas, enumerações, reflexões em torno das iminências de mudanças de endereços e deslocamentos que implicam memórias afetivas revisitadas nos registros de “O melhor amigo do rato”. Com exceção aos cacoetes do léxico filosófico (ritornelo, eterno retorno, diferença & repetição, rizoma etc.), termos hoje em dia exauridos e que soam pedantes em meio a textos que se querem leves, irônicos, “O melhor amigo do rato” é uma excelente pedida para quem gosta de se perder nesta tarefa artística tão característica dos tempos atuais: encontrar uma forma que acomode o caos. Ou como bem sentencia Preto Matheus, editor e poeta visual que assina a diagramação gráfica e o texto da contracapa do livro: “Iwao costura o banal e o absurdo, o cotidiano e a especulação metafísica (...). É literatura que não se esconde atrás de artifícios narrativos, mas assume o fragmento, o improviso e a ironia como método”.

DAVIS DINIZ é professor adjunto de Teoria da Literatura e Literatura Comparada na UFMG, e autor do livro de poesia “Manual prático para a pista de dança” (Urutau, 2025) e do ensaio “Nostalgia formal” (Relicário, 2025). 

“O melhor amigo do rato, escritos 2008-2025”

De Henrique Iwao

Impressões de Minas

168 páginas

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