Guimarães Rosa observou as belezas sem dono do sertão
Ao lançar a segunda edição do livro "Ser-tão natureza", Mônica Meyer mostra como a biodiversidade do cerrado encantam os personagens de "Grande sertão: veredas"
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Mônica Meyer - Especial para o Estado de Minas
Quem me ensinou a apreciar essas as belezas sem dono foi Diadorim (ROSA, 1986, p.24)
Para celebrar os 70 anos de “Grande Sertão: veredas” e “Corpo de baile”, destaco uma personagem relevante e constante na obra rosiana - a natureza. Guimarães Rosa abraça uma concepção anímica do universo e esbanja conhecimento intenso do mundo natural conduzindo o leitor à aprendizagem do olhar no sentido amplo e profundo sobre os Gerais por meio de uma abordagem sistêmica que entrelaça cultura, ciência, religiosidade e natureza. Reproduz de forma precisa, sinestésica e poética a vitalidade do sertão mineiro em sinfonia de cores, sons, cheiros que traduzem a biodiversidade do Cerrado atravessado pelos rios, veredas perfiladas de buritis e coroado de animais. O domínio de conteúdos de botânica, zoologia, geografia e astronomia somado às vivências no sertão ampliaram sua bagagem para reinventar a natureza com uma pluralidade de significados que ultrapassam uma concepção naturalista e antropocêntrica para atingir o sagrado e a transcendência.
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Os personagens estão intimamente vinculados à natureza, dela fazem parte, convivem em sintonia e aprendem a ler e decifrar o calendário ecológico que constrói saberes e fazeres. O tempo é regido pelo dia, noite, fases da lua, auroras e crepúsculos, por períodos de chuva, estiagem e variações térmicas, pela coloração dos rios e das nuvens, pelo canto das aves, floração e frutos, orvalho no campo e comportamento dos bichos, pelas festas populares e religiosas. Uma natureza viva que flui em permanente movimento e transforma o ser-tão (MEYER, 2008).
Guimarães Rosa redesenha teias ecológicas e insere insetos, répteis, anfíbios, aves, peixes e mamíferos em interação com os personagens. Em entrevista a Günter Lorenz, manifesta seu amor aos bois, vacas e cavalos “seres maravilhosos”. E completa: “Quem lida com eles aprende muito para sua vida e a vida dos outros”. Os bois e os burros são figuras significativas na obra rosiana, construídos em cumplicidade, couro a couro com o escritor.
A paixão de Guimarães pelos bovinos reflete do princípio ao fim de “Grande sertão: veredas”. Muitas anotações de “A boiada”, famosa viagem do escritor ao sertão de Minas em 1952, configuram no romance e nos contos de “Corpo de baile”.
Walnice Galvão ressalta que o mundo da pecuária extensiva unifica o sertão, representado na frequência dos topônimos, nomes, na cantiga de Siruiz, nos objetos de couro de uso cotidiano, com destaque para a capanga bordada de Diadorim e o couro que serviu de agasalho a Medeiro Vaz em seu ritual de morte. Sublinha que a linguagem de Riobaldo está impregnada de referências bovinas, com diferentes distinções para os jagunços, o rebanho; para os chefes, imagens individuais e para os dois superchefes, Joca Ramiro e Medeiro Vaz, o touro.
“Por longe, a mãe-da-lua suspirou o grito: — Floriano, foi, foi, foi... — que gemia nas almas. Então, era que em alguma parte a lua estava se saindo, a mãe-da-lua pousada num cupim fica mirando, apaixonada abobada. Deitado quase encostado em mim, Diadorim formava um silêncio pesaroso”.
A reprodução do canto das aves por onomatopéias se somam à linguagem dos bois, como se uma orquestra sertaneja emergisse do livro. Pela leitura escutamos a fogo-apagou, mãe-da-lua, gaviões, anu, seriema, coruja, entre outras. A mãe-da-lua ou urutau (Nyctibius grandis) é uma ave noturna que vive em mimetismo o que dificulta sua visualização. A caraterização da ave olhando em direção a lua dá asas à imaginação e desenha uma imagem do urutau enfeitiçado, hipnotizado pelo satélite. Simultaneamente o grito sugere algo sinistro, agourento, de gemer na alma. Leonardo Arroyo nomeia a ave como ente fantástico e associa seu canto a uma impressão misteriosa e assombradora.
Um festival de insetos grandes e pequenos ganha realce na literatura rosiana. Grilos, cigarras, borboletas, besouros, libélulas, vaga-lumes, formigas, marimbondos, abelhas, mutucas exercem papeis simbólicos que ultrapassam o conteúdo entomológico. “Aquelas chapadas compridas, cheia de mutucas ferroando a gente. Mutucas!. Dá o sol, de onda forte, dá que dá, a luz tanto machuca. Os cavalos suavam sal e espuma. “ (ROSA, 1986, p.30). Desta forma, a natureza se manifesta na sua totalidade e complexidade, demonstrando que a vida rural não é paradisíaca e bucólica, pelo contrário marcada por dificuldades e ambiguidades.
Um excerto emblemático se refere ao Guararavacã do Guaicuí, um lugar mítico de “Grande Sertão: veredas” onde o amor cresce e floresce entre dois jagunços. O território fictício sugere ser a Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma (MG), onde o rio das Velhas, nomeado originalmente em tupi-guarani como Guaicuí, desagua no São Francisco. A recordação de Riobaldo sobre o Guaicuí é de extrema relevância, pois corresponde a “travessia de minha vida” (ROSA, 1986, p.270). Nas coroas de areia do rio, como um jardim edênico, iluminado com a aura do sol, Diadorim ensina olhar “por prazer de enfeite, a vida mera deles pássaros”, especialmente o manuelzinho-da-croa, “o passarim mais bonito e engraçadinho de rio-abaixo e rio-acima”. A narração singela e lírica do comportamento amoroso do casal de manuelzinho-da-croa, classificado como batuíra-de-coleira (Charadrius collaris), se conecta ao sentimento dos jagunços. Riobaldo inclui ao final da descrição outro personagem alado, longe de ser um deleite, “volta-e-meia abespinhavam a gente os mosquitinhos chupadores, donos da vazante, uns mosquitinhos dançadinhos, tantos de se despertar” (ROSA, 1986, p.135). O incômodo causado pelos mosquitinhos indica também uma situação de constrangimento dos jagunços.
Consuelo Albergaria desvenda a função anagógica dos bichos de asas. Segundo o dicionário um método de interpretação mística, teológica ou simbólica que eleva a mente do sentido literal ou visível para qualidades espirituais e divinas. Ao adotar a norma ocultista, que valoriza o número três, Albergaria seleciona três insetos - abelha, mutuca e borboleta - para efetuar uma leitura esotérica do “Grande sertão: veredas”.
A predileção de Guimarães Rosa pela borboleta é evidente, atento a sua leveza e beleza. Na viagem ao sertão de Minas, em maio de 1952, identificou esse inseto na roça do vaqueiro Zito, no poço e nas trilhas. Ao pernoitar na Fazenda Santa Catarina, (hoje distrito de Andrequicé-Três Marias-MG), reproduziu com deslumbramento a propriedade “fica perto (junto do) céu – um céu de azul tintural – de Pisa ou Siena – com nuvens que não se removem…” e reparou que “Entre os currais e o céu, há apenas um limpo gramado e uma restinga de cerrado, de onde descem borboletas brancas, que passam entre as réguas da cerca. Fogo-apagou sempre” (ROSA, 2011, B2. p16-17). Percebeu as flores no canteiro e anotou: - “parece-me um caeté – chamada casa-comigo. É branca, parece um lírio. E muito perfumosa” (ROSA, 2011, B2, p19).
Esses excertos foram incorporados e reinventados em “Grande sertão: veredas”, no dia em que Riobaldo conheceu Otacília, num mês de maio na fazenda Santa Catarina. Uma convergência sedutora e amorosa exalando uma atmosfera de tranquilidade e paz marcada pela singeleza de flores e “borboletas brancas que passam entre as réguas da cerca” (ROSA, 1986, p. 176).
A simbologia das borboletas reaparece em outro contexto, no meio de um conflito armado na fazenda dos Tucanos. Em pleno tiroteio dos jagunços, uma borboleta invade a cena como um passe de magia, como uma bandeira branca, contrapõe à barbárie e anuncia a paz - “uma borboleta vistosa veio voando, antes entrada janelas a dentro, quando junto com as balas, que o couro de boi levantavam; assim repicava o espairar, o voo de reverências, não achasse o que achasse – e era uma borboleta dessas de cor azul-esverdeada, afora as pintas, e de asas de andor – “Ara, viva, maria boa-sorte! O Jiribibe gritou. Alto ela entendesse. Ela era quase a paz “ (ROSA, 1986)
Albergaria, ao exaltar a borboleta como um símbolo da paz, associa o inseto a elementos superiores e indica o termo em grego, Psiquê, equivalente a anima e alma em latim. Riobaldo reconhece a qualidade da borboleta dos gerais e ressalta que ela se distingue dos demais lepidópteros em outras regiões. Grande, brilhante, animada, luz enorme do ser-tão metafísico:
“ De qualquer pano de mato, de de-entre quase cada encostar de duas folhas, saíam em giro as todas as cores de borboletas. Como não se viu, aqui se vê. Porque, nos gerais, a mesma raça de borboletas, que em outras partes é trivial regular – cá cresce, vira muito enorme, e com mais brilho se sabe: acho que é do seco do ar, do limpo, desta luz enorme.” (ROSA, 1986, p.26)
A majestosa borboleta apareceu no período de “claráguas, fevereiro ou janeiro, no tempo do pendão do milho” de mato viçoso, capim e flores em profusão, folhas tenras e néctar farto. Tempo de acasalamento de aéreo bailado para cumprir o ritual cíclico de perpetuação da espécie. Como ser vivo holometábolo passa por metamorfoses completas até atingir a fase alada e reprodutora: ovo-lagarta-pupa-adulto.
A borboleta adquire novas representações, como as alcunhas de Riobaldo. Os companheiros jagunços ao reconhecerem a habilidade de Riobaldo em atirar, quiseram lhe apelidar: “primeiro, Cerzidor, depois Tatarana, lagarta-de-fogo”. Entretanto ao assumir a chefia, Zé Bebelo diz “ você é o outro homem, você revira o sertão...tu é terrível, que nem um urutu branco”… (ROSA, 1986, p.409). O urutu é o nome popular da jararaca. Tanto a lagarta-de-fogo e urutu são exemplares de animais considerados peçonhentos em relação aos seres humanos, metaforicamente associados a Riobaldo. A lagarta-de-fogo, com pelos urticantes é um estágio de metamorfose anterior a borboleta adulta, o que sugere o estado de transformação contínua de Riobaldo, segundo ele “o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam “ (ROSA, 1986, p.21).
O curso de vida dos personagens flui em sintonia com a fauna, a flora, as estações, o curso dos rios. No corpo de baile do planeta Terra, o escritor nos incita a exercitar o olhar com acuidade além de uma abordagem antropocêntrica, utilitária, prática e imediatista. Parafraseando Riobaldo - “Eu percebi a beleza daqueles pássaros, no Rio das Velhas – percebi para sempre. O manuelzinho-da-crôa. Tudo isso posso vender? Se vendo minha alma, estou vendendo também os outros” (ROSA, 1986, p.291).
MÔNICA MEYER é bióloga, doutora em Ciências Sociais/Antropologia pela Unicamp, educadora e autora do livro “Ser-tão natureza” (Editora UFMG)
Riobaldia na AML
Autora do livro “Ser-tão natureza” (Editora UFMG), Mônica Meyer participa neste sábado (27/6), das 10h às 12h, de “Riobaldia” na Academia Mineira de Letras (Rua da Bahia, 1466, BH). Mônica é uma das organizadoras do “evento informal e espontâneo de amigos e apaixonados por João Guimarães Rosa que festejam sua obra no dia de seu nascimento, 27 de junho. O nome criado por Cecília Marques remete a Riobaldo, começou em São Paulo, em 2022, e cresce a cada ano”, destaca a escritora e educadora. A edição de 2026 homenageia três marcos na trajetória de Rosa: os 70 anos de “Grande Sertão: veredas”, os 80 anos de “Sagarana” e os 90 anos de “Magma”. No evento, Mônica Meyer lançará a segunda edição de “Ser-tão natureza”. Entrada franca.
Referências Bibliográficas
ARROYO, Leonardo. A cultura popular em Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio: Brasília: INL, 1984 (coleção documentos brasileiros, V. n.195)
ALBERGARIA, Consuelo. Bruxo da Linguagem no Grande Sertão. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro Ltda, 1977
CHEVALIER, Jean. Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991
GALVÃO, Walnice Nogueira. As formas do falso. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972
LORENZ, Günter W. Diálogo com Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo F. (org.). Guimarães Rosa. 2ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. p. 62-97.
MEYER, Mônica. Ser-tão natureza. A natureza em Guimarães Rosa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008
ROSA, João Guimarães. A boiada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011
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ROSA, João Guimarães. Grande Sertão:Veredas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986, 23 edição