'Embora' retoma obsessões poéticas de Paulo Henriques Britto
Ocupante da ABL, poeta e tradutor volta a demonstra excelência nos jogos de som e sentido no seu mais recente livro
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Rafael Fava Belúzio - Especial para o Estado de Minas
Articulação entre formas fixas e coloquialidades, humores e ceticismos e outros traços marcantes da estética de Paulo Henriques Britto estão presentes no livro “Embora”. Esta é a mais recente obra do poeta e tradutor, eleito em 2025 para ocupar a Academia Brasileira de Letras.
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“Embora” chega às livrarias quatro anos após “Fim de verão” (2022) e mantém o ritmo constante de edições, ainda que havendo variações entre quatro e oito anos: “Liturgia da matéria” (1982), “Mínima lírica” (1989), “Trovar claro” (1997), “Macau” (2003), “Tarde” (2007), “Formas do nada” (2012), “Nenhum mistério” (2017), o citado “Fim de verão” (2022) e o próprio “Embora” (2026). A inclinação para a regularidade sutil ganha relevo quando se considera que o autor carioca é atento aos padrões fixos. No livro lançado este ano, permanecem frequentes as constantes de métrica (setissílabos, octossílabos, decassílabos) e de estrofe (tercetos, quadras).
Aliás, sonetos constituem em grande medida o recente “Embora” e a maioria deles organiza as estrofes em dois quartetos e dois tercetos, bem ao gosto de Francesco Petrarca. No entanto, há sonetos shakespearianos e, às vezes, duas quadras ou dois tercetos isolados, sem se chegar a quatorze linhas – como se nessas composições talvez fraturadas a arte de perder não fosse nenhum mistério.
Diante das tensões entre tradição e inovação, observe “Da memória”, série construída por três poemas. Os dois primeiros textos possuem quatorze linhas de versos com dez sílabas cada. O último é este “III”, escrito com palavras que não exigem a ida ao dicionário:
“Nenhum momento é o momento exato
senão depois, quando nos dá as costas
e, sem jamais olhar pra trás, se afasta.
Então juntam-se as peças, e se mostra
– só uma vez – a figura
que desde então, pra sempre, nos tortura.”
Colocados no tríptico chamado “Da memória”, os tercetos destoam e ocasionam espécie de fração do soneto. Não se preserva o modelo completo de Petrarca, faltam os dois quartetos iniciais. Mas sobrevive na ausência uma recordação do que ficou para trás – ou a arte de perder não é nada séria? Ademais, juntando todas as peças, reunindo todos os versos desse conjunto “Da memória”, cabe perceber que todos são decassílabos, com a exceção de um verso irônico que, em sete sílabas, condensa “– só uma vez – a figura” que causa tortura.
Então, o que seria erro, suposto desvio torturante, é acerto, escolha intencional. Maneira de expressar, ritmicamente, certa angústia memorialística dita pelo texto. No seu recém-lançado “Embora” e em sua literatura em sentido amplo, Paulo Henriques Britto demonstra excelência nesses jogos de som e sentido, a entrelaçar com “humour” a sua (anti)lírica, não raro interessada em inquietações emocionais. Entretanto, tais desassossegos merecem destaque: estão ainda mais agudos na obra de 2026, uma década em que a saúde mental mostra intensamente sua relevância na sociedade.
Nessa toada, ocorre outra volta obsessiva do parafuso. Aliada à elaboração de poemas com estruturas regulares, a linguagem do autor persiste um tanto coloquial, e as questões discutidas continuam tendendo ao corriqueiro, ao comum. Todavia, a escolha das palavras selecionadas não inclui as de baixo calão. Nos instantes em que se aproximam de algo assim, há sutilezas como a demonstrada no verso “fim de picada, ponte que partiu”. Esse trocadilho o leitor poderá encontrar na série “Terminais”, cujo nome se liga a um primeiro sentido do título “Embora”: indicação de saída, partida, término, aproximando a ideia de velhice.
Além disso, com a linguagem acessível, são evitados inversões frasais e vocabulários distantes do cotidiano, ou mesmo abordagens de temáticas épicas e grandiosas. Se porventura surgem desejos heroicos, logo o sujeito lírico, tão marcado por aflições psicológicas, mostra que os gigantes imaginários são moinhos de vento. Seguindo, vagaroso, os traços de claros enigmas drummondianos, o eu todo retorcido de Britto reconhece que é preciso ir em frente, apesar dos pesares, “Embora” existam aflições – em outra acepção dada ao título do livro.
Retomando e avançando determinados interesses (e sabendo que, adicionalmente, estão presentes engenhos incomuns, a exemplo de um poema que se vale de uma fotografia), são revisitadas estratégias e tradições neste “Embora”. Há frequente metalinguagem, materialismo, marcas de apontamento (dêiticos) e encadeamentos de versos que ultrapassam a linha (enjambements). Ressurgem diálogos com as literaturas estrangeiras de língua inglesa (Emily Dickinson, Wallace Stevens, W. H. Auden), francesa (Charles Baudelaire), portuguesa (feições da subjetividade autopiscográfica de Fernando Pessoa).
Reaparece também a tendência ao ceticismo. Chegam a ser emblemáticos, por exemplo, títulos de poemas com a seguinte estrutura: “Do desejo”, “Da perda”, “Da maturidade”. Uma forma de nomeação semelhante à utilizada pelo filósofo cético Michel de Montaigne na obra “Os ensaios”. Nos poemas reflexivos, Paulo Henriques Britto assume uma certa dicção ensaística, recorrendo a dúvidas e torções argumentativas, algo que o próprio título “Embora” consegue ainda indicar.
O texto de abertura, “Escrito na primeira página de um caderno”, sintetiza algumas dessas tópicas e funciona na categoria de apresentação do livro:
“Desta vez é pra valer. Vai dar certo.
É a certeza cega que se tem
diante do caderno em branco aberto,
transcendência possível cá no aquém.
Mas antes mesmo da página vinte
a promessa se mostra fraudulenta.
Quanto mais se gasta papel e tinta,
mais forte a impressão (de início inconsciente)
de que o resultado vai ser apenas
um caderno tão sujo e amarfanhado
quanto os antecessores, sepultura
– ou melhor, vala comum – de poemas
que ao fim e ao cabo não deram em nada.
(Escreva, porém. Apesar. Embora.)”
Rafael Fava Belúzio é graduado em Letras e Filosofia e doutor em Estudos Literários. Publicou “Quatro clics em Paulo Leminski” (UFPR, 2024), mostrando relações entre Paulo Henriques Britto, Paulo Leminski e outros poetas brasileiros. É pesquisador pós-doc FAPES/IFES.
“Embora”
De Paulo Henriques Britto
Companhia das Letras
88 páginas
R$ 69,90
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