José Tolentino Mendonça: ‘A poesia e a fé são oficinas da busca’
Cardeal português que dividirá mesa em Paraty com o poeta mineiro Edimilson de Almeida Pereira explica por que considera a poesia e o sacerdócio "vasos comunicantes": "Desde o início percebi que se trata do mesmo gesto fundamental, a escuta e a nomeação do mistério"
compartilhe
SIGA
“Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada/ Á parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”Os versos de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, foram os primeiros a impressionar José Tolentino Mendonça. “Este poema me abriu o mundo”, revela ao Estado de Minas o poeta, professor e teólogo português, que estará na 24ª edição da Flip. “Estes dias tenho lido, com apreço, a obra do poeta brasileiro Edimilson de Almeida Pereira, com quem vou dialogar em Paraty”, revela Tolentino Mendonça, ordenado padre católico em 1990 (mesmo ano da publicação do primeiro livro, “Os dias contados”) e cardeal desde 1996. “A poesia e o sacerdócio são, na verdade, vasos comunicantes. Desde o início percebi que se trata do mesmo gesto fundamental: a escuta e a nomeação do mistério”, afirma ao Pensar.
Leia Mais
Nascido na Ilha da Madeira em 1965, José Tolentino Mendonça dividirá a mesa “Saber de cor o silêncio” com o juiz-forano Edimilson na quinta-feira (23/7), às 10h, com mediação de Sofia Mariutti. Na entrevista, o português conta por que dedicou um de seus poemas, “Oração da manhã de Adélia Prado”, à mineira de Divinópolis. “O que mais me impressiona em Adélia Prado é ser uma mística de olhos abertos que não foge do mundo para encontrar o sagrado, mas que o encontra ali mesmo, no meio da cozinha ou colado ao chão”, afirma.
Tolentino Mendonça lança na Flip “Os enigmas singulares”, sua primeira antologia poética publicada no Brasil. A edição da Círculo de Poemas, coleção de poesia da editora Fósforo, inclui versos dos livros “Os dias contados”(1990), “Longe não sabia”(1997), “A que distância deixaste o coração”(1998), “Baldios” (1999), “De igual para igual”(2000), “Estrada branca”(2005), “Tábuas de pedra”(2006), “O viajante sem sono”(2009), “Estação central” (2012), “A papoila e o monge”(2013), “Teoria da fronteira”(2017), “Introdução à pintura rupestre”(2021) e “O centro da terra”(2024).
“O critério de seleção não foi puramente temporal”, explica, no posfácio, o organizador Marcio Cappelli. “Por se tratar de uma primeira publicação da poesia de Tolentino Mendonça no Brasil, procurei, primeiro, dar a ver os indicadores persistentes de acordo com esses metapoemas (o vazio, a fronteira, o despojamento, o brilho fugaz, a dissidência, a queda, a noite, a fragilidade, o silêncio) e, por assim dizer, sua força de arrasto ao longo do percurso de cada livro, para depois, na medida do possível, mostrar a pluralidade que os compõe”, complementa.
Na entrevista ao Pensar, Tolentino Mendonça detalha a admiração por Adélia e João Cabral de Melo Neto, afirma que a poesia e a fé são oficinas da busca (“As duas nascem da ferida”) e explica por que considera a Bíblia a sua primeira biblioteca: “Nela não se aprende apenas a ler, mas aprendemos a ler-nos. Cada página é também um espelho que restitui uma pergunta.”
O primeiro livro do senhor, “Os dias contados”, foi publicado em 1990, mesmo ano de sua ordenação. Como a poesia e o sacerdócio têm convivido ao longo de mais de três décadas em sua vida? Um alimenta o outro ou são atividades separadas?
A poesia e o sacerdócio são, na verdade, vasos comunicantes. Desde o início percebi que se trata do mesmo gesto fundamental: a escuta e a nomeação do mistério. Existe um ensaio do teólogo Karl Rahner que me ajudou a entender isto com mais clareza. Rahner fala de “palavras primordiais”, palavras que não descrevem a realidade de fora, mas que a tornam presente, que a fazem acontecer. Ele chega a chamar-lhes o “sacramento”da realidade. E é isso, no fundo, que o sacerdote e o poeta fazem: os dois lidam com palavras que não são apenas informação, mas presença. Por isso, para mim, uma vocação alimenta a outra, como se ambas fossem expressão da mesma sede.
O senhor também é conhecido pelos textos de exegese bíblica, bem como ensaios de espiritualidade. Das passagens e dos livros da Bíblia, quais os mais fascinantes, do ponto de vista literário, em sua opinião?
A Bíblia foi minha primeira biblioteca. E digo isto com todo o peso da frase: nela não se aprende apenas a ler, mas aprendemos a lernos. Cada página é também um espelho que restitui uma pergunta. Foi assim que descobri os Salmos, que continuam a ser, para mim, a mais alta escola de linguagem que conheço: uma linguagem que não tem medo, no mesmo verso, de expor o amor e a ferida, de duvidar ou de agradecer. E foi assim que me apaixonei pelo Cântico dos Cânticos — a ponto de o traduzir para português a partir do hebraico, num trabalho que foi, mais do que filológico, um exercício de escuta. E há, claro, São Paulo, que é um caso à parte: não é poesia no sentido formal, mas há nele uma inteligência da fé que me comove como poucas coisas comovem. Ele escreve como quem pensa em voz alta, sem polir as arestas do próprio raciocínio, numa urgência de dizer que é, ela própria, uma poética da fé. No fundo, o que estes textos têm em comum é a recusa de separar a experiência da fé da linguagem que a exprime.
Um dos poemas de “Teoria da fronteira” tem, no título, uma citação a Adélia Prado. O que mais o impressiona na poeta mineira? E quais são os outros poetas brasileiros de sua predileção?
O que mais me impressiona em Adélia Prado é ser uma mística de olhos abertos que não foge do mundo para encontrar o sagrado, mas que o encontra ali mesmo, no meio da cozinha ou colado ao chão. Em Adélia, o quotidiano não é o oposto do extraordinário: é o seu lugar natural. A revelação não acontece apesar das coisas triviais— acontece através delas, diante dos nossos olhos, se tivermos a paciência de olhar. Por isso a considero uma mestra do catolicismo contemporâneo, talvez mais decisiva do que muitos teólogos de ofício: ela ensina uma fé encarnada, que não separa o corpo do espírito, nem o riso da oração. É uma poesia que reconcilia o sagrado com a matéria, e representa para mim uma bússola constante. A minha dívida de gratidão com a poesia brasileira é imensa e são tantos os vossos poetas que estimo. Permitam-me citar, por exemplo, João Cabral de Melo Neto, que é quase o oposto de Adélia. Se Adélia me ensina a encontrar o extraordinário no ordinário e o luxo no lixo, Cabral mostra como podar o poema até restar só o osso da linguagem. E isso também é, à sua maneira, uma forma de rigor espiritual.
Por que acredita que o gesto artístico é sempre um gesto espiritual? O que há em comum entre a fé e a poesia?
No fundo, ambos nascem de um impulso semelhante: a recusa de aceitar o mundo como algo já dito, já rotulado e fechado. O poeta, tal como o crente, não se contenta com a superfície das coisas: insiste em sondar o que ainda não está dito. Gosto de pensar que cada arte tem a sua matéria invisível própria. Não é o visível que o pintor trabalha, mas o invisível — a luz que atravessa a cor, o que fica por dizer na imagem. Da mesma forma, o que o poeta e o músico elaboram não é o som nem a palavra em si, mas o silêncio que os rodeia e os torna possíveis. A poesia e a fé são oficinas da busca. As duas nascem da ferida. Ninguém escreve um poema verdadeiro, nem professa uma fé verdadeira, a partir da saciedade: se escreve ou se crê a partir de uma falta, de uma fome que se faz procura. Como se fôssemos habitados pela saudade de Deus.
De onde vem a inspiração para os seus versos? Da memória, da observação ou da imaginação? A vivência na Ilha da Madeira também se reflete na sua poesia? De que forma?
A poesia, para mim, é um exercício de hospitalidade e atenção. E essa escuta começa sempre pela fidelidade ao visível. Não se chega ao invisível ignorando o mundo. Chega-se a ele por uma atenção tão rigorosa às coisas visíveis que elas próprias nos conduzem para lá de si mesmas. É por ser fiel ao rosto, à pedra, ao gesto quotidiano que o poeta é conduzido a colocar-se perante o que esses elementos não conseguem dizer sozinhos. O poeta é uma espécie de antena: alguém que capta os movimentos sísmicos do humano antes de eles serem notícia, antes de terem nome. O poeta não inventa esse sismo; registra-o com um instrumento, o poema, que é mais sensível do que a maioria dos instrumentos à nossa disposição.
Em “A papoila e o monge”, há diversos haikus sobre o silêncio. Em um deles, o senhor afirma existir “vários silêncios”. Qual o mais valioso dos silêncios no mundo em que vivemos? Como escutá-lo?
O silêncio que considero mais valioso é o silêncio da vida interior: aquele que não é repetição de vazio, mas espessura de revelação e de sentido. Vivemos atualmente num tempo que se mede apenas pela sucessão dos instantes que se substituem uns aos outros sem deixar rastro... Mas há outra experiência do tempo mais preciosa; uma experiência que só o silêncio interior nos permite alcançar: o tempo como contato com a verdade. Não se chega a esse silêncio por acumulação de técnicas, mas por uma espécie de desarmamento das palavras e do coração, como propõe o Papa Leão XIV.
Qual o lugar da poesia no mundo contemporâneo?
A poesia ocupa hoje um lugar aparentemente frágil, empurrada para as margens de uma cultura que valoriza sobretudo a informação rápida e o discurso útil. Mas, talvez precisamente por isso, o seu lugar seja mais necessário do que nunca. Há uma imagem oferecida pelo filósofo Jacques Derrida que me parece responder exatamente à sua pergunta: o poema como um ouriço lançado na estrada. Um animal que, ao sentir o perigo, não foge - se enrola dentro de si, com os espinhos voltados para fora, ao mesmo tempo frágil e protegido. A poesia é, no mundo contemporâneo, um lugar de resistência discreta - quanto a do ouriço - contra a pressa que quer transformar tudo em esmagamento ou consumo.
“OS ENIGMAS SINGULARES”
De José Tolentino Mendonça
Organização e posfácio de Marcio Cappelli
Círculo de Poemas/Editora Fósforo
296 páginas
R$ 99,90
POEMAS SELECIONADOS
“Os enigmas singulares”
A casa onde às vezes regresso
A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos
Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo
Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração
*
O teu rosto aos vinte e cinco anos
de idade
Numa conversa sobre o destino da arte
lembro o teu rosto
onde os elementos ensaiam
a revelação dos primeiros detalhes
irremediáveis:
a marca da sombra, o recuo das forças
o alarme da dor
a arte existe apenas
como homenagem (pobre, desolada)
àquilo que cada rosto foi
um dia através da paisagem.
*
Uma canção debaixo do dilúvio
Ocupam-nos com a sua feroz solidão
e conhecemos o seu cheiro, o consumo difuso
o visível de ambos os lados
Diante deles não é possível dissimular
a ironia ou a piedade
Esperam por nós entre diversas combinações
à superfície e para além disso
Um amigo é uma machine à habiter
o vento pré-histórico das montanhas geladas
Talvez pertençam a outros mundos
pois nos abraçamos sempre como sobreviventes
Com eles podemos arrancar uma canção debaixo do
dilúvio
*
Muitas vezes Deus prefere
entrar em nossa casa
quando não estamos
*
O silêncio
não é o oposto
mas o avesso
*
Não somos a casa
somos a montanha
e o relento
Ao ergueres a tua cabana
escolhe por alicerce
a escarpa ou o vento
*
Um dia
arderás o caminho
para que ninguém siga os teus passos
*
Tristeza
Nas noites lentas que nos fazem guerra
não há pensamento que possa mudar
a tristeza, essa música minúscula
nem precisamos morrer para nos sentir mortos
quando a sua cabeleira varre a terra
e nos recolhe como flores
de uma coroa deposta
rogamos à vida que responda
mas a vida só se expressa na agulha dos fogos
em línguas desconhecidas
no soprar ora longínquo
ora próximo do vento
e quando abrimos a garganta
em busca de um fio de voz
ela tornou-se inaudível
como se jamais nos tivesse pertencido
*
Oração da manhã de Adélia Prado
Bendito sejas ó Deus, Senhor do universo
que ensinaste o Ucuuba, a Seringueira
a Andiroba, a Aroeira dos cerrados
e o Araçá restingueiro
melhor do que a mim
a distinguir o dia da noite
*
Compaixão
Talvez os enamorados não saibam
que o amor se procura
sem motivo preciso
como os vagabundos que partem
à caça de patos e serpentes
que se emboscam nos juncos
cujos olhos amarelos nos vêem
mas nunca olham para nós
*
A porta
O mundo confunde-se com as fronteiras
de um corpo que partiu
cabe a quem lhe sobrevive um destino que
desaba
e decidir se deve exibir ou ocultar
esse brutal segredo
pois quando um corpo se cala
é ainda necessário arcar com esse corpo
transcrever por muito tempo o seu grito
a sua evidência
considerar meticulosamente suas raízes
acompanhar de lago em lago
a sua canoa vazia
A partir de agora descobrirás
que nada mais pode ser retido
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
e nada mais pode ser deixado