Orides Fontela ganha antologia de poemas para crianças
Com seleção de Augusto Massi e ilustrações de Cynthia Cruttenden, o livro infantil "Pelos olhos de Orides" será lançado na 24ª edição da Festa Literária de Paraty (Flip), que homenageará a poeta paulista
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Gatos, corujas, caramujos, bem-te-vis, girassóis e outros seres vivos que habitam a poesia de Orides Fontela (1940-1998), escritora homenageada na 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), ganham novos leitores por meio de um inédito diálogo entre palavra e imagem. “Pelos olhos de Orides”, antologia para crianças, tem poemas selecionados pelo crítico literário e ensaísta Augusto Massi e ilustrados pela paulistana Cynthia Cruttenden. O lançamento é da editora Hedra, a mesma responsável pelo relançamento em 2026 dos cinco livros que Orides lançou em vida: “Transposição” (1969), “Helianto” (1973), “Alba” (1983), “Rosácea” (1986) e “Teia” (1996).
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Cynthia Cruttenden conta, ao Pensar do Estado de Minas, que decidiu fazer as ilustrações com o mínimo de elementos. “Foi um grande desafio realizar, na prática, a montagem de todas as imagens com poucas figuras, que surgiram a partir de uma forma vital: o círculo. Do desenho à mão, elas foram para o computador e, novamente à mão, foram desenhadas e esculpidas em borracha, tornando-se carimbos. Usados repetidamente, eles funcionam como símbolos que representam graficamente cada poema e, ao mesmo tempo, promovem uma interligação entre as imagens, concebidas como se fossem um corpo único em movimento, que se transforma ao longo do livro”, detalha a ilustradora, nascida em 1970 e formada em artes plásticas pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP.
Com 56 páginas, “Pelos olhos de Orides” tem posfácio de Odilon Moraes. “As imagens de Cynthia, artista conhecida pelos trabalhos com carimbos e gravuras de padrões geométricos, entram no jogo de provocar nossa imaginação com os arranjos dessas formas”, ressalta o ilustrador.
A 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) será realizada de 22 a 26 de julho de 2026, no Centro Histórico de Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro. Reconhecida como um dos principais encontros literários do país, a Flip homenageia em 2026 uma poeta com obra marcada pela concisão, diálogo com a filosofia e conexão com a natureza. Ao todo, o programa principal prevê 21 mesas, com discussões sobre literatura, deslocamento, memória, língua portuguesa, infância, democracia e criação artística.
Leia, a seguir, depoimento do organizador da antologia, Augusto Massi, e alguns poemas do livro.
“Embora tenha sido pensada página a página foi só a partir do diálogo entre os poemas e as ilustrações que eu e a Cynthia encontramos uma linguagem comum, um movimento interno que perpassa e unifica o livro. Um delicado feixe de linhas – verbais e visuais - migra de uma página para outra formando uma ciranda de formas e cores. Por vezes, as imagens criadas por Cynthia tangenciam a promessa de felicidade de um Matisse. Esse conjunto de vinte poemas, pinçados nos cinco livros de Orides, foram redistribuídos em cinco núcleos temáticos, como os cinco dedos de uma mão aberta ao leitor:
1. Poemas que revisitam fatos biográficos relevantes na formação da poeta: infância, cartilha, herança.
2. Poemas que revelam o seu fascínio pelas formas circulares: caramujo (animal), girassol (vegetal) e caleidoscópio (objeto).
3. Poemas sobre pássaros e peixes que - assim como os povos - migram dia e noite pelo ar, mar e terra. Seja sob a céu salpicado de “Estrelas” seja no extremo oposto, o deserto branco da “Antártida”.
4. Poemas sobre os mais variados animais: bucólicos (vaca), misteriosos e caçadores noturnos (coruja e gatos), pássaros cantores (bem-te-vi) e trabalhadores (João de barro)
5. Poemas sobre formas e seres livres: nuvens e anjos.
No final do livro, abrimos uma página dupla para o poema “Espera”. Ela funciona como uma ampla praça, varanda aberta, vasto salão onde seres e bichos, que ao longo do livro apareceram em páginas individuais, encontram um espaço comum no qual podem se reunir. Como bem-te-viu o posfácio de Odilon Moraes.
O livro é um convite para que professores possam valorizar a experiência mágica e cotidiana da sala de aula. Apesar de cada aluna e aluno pertencerem a uma família, uma casa, um bairro, uma cidade diferente, todos acabam por descobrir que podem dividir a mesma sala, as mesmas amizades, os mesmos professores. “Pelos olhos de Orides” cada pessoa é única: “Leio minha mão: livro único”.”
Poemas de Orides Fontela no livro
*
“Girassol”
Quero expressar a flor
e o girassol me escolhe:
helianto bizâncio ouro luz
ouro ouro
Variando de horizonte
porém sempre
audazmente fiel
fitando a luz intensamente
o girassol me escolhe
adoração dourada
fixação tranquila
calor lúcido.
Flor para sempre e muito mais
que flor.
*
“Habitat”
O peixe
é a ave
do mar
a ave
o peixe
do ar
e só o
homem
nem peixe nem
ave
não é
daquém
e nem de além
e
nem
o que será
já em nenhum
lugar.
*
“Nuvem”
Asa sem
pássaro
se vai ou
vem
se vem ou
vai
quem
sabe?
Leve vazia branca.
A flor do
céu. A forma
do silêncio.
*
“Cartilha”
Foi de poesia
lição
primeira:
“a arara morreu
na
aroeira”.
*
“Pelos olhos de Orides”
De Orides Fontela
Seleção de poemas de Augusto Massi
Ilustrações de Cynthia Cruttenden
Posfácio de Odilon Moraes
Hedra
56 páginas
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